Para resistir às ideias e pessoas fora do lugar: estratégia e mobilização social

 “30 anos depois da Lei Orgânica da Saúde, nós sanitaristas continuamos aqui, não desistimos da luta. Acreditamos que a nossa luta pelo direito à saúde das brasileiras e brasileiros não pode parar”, afirmou Gulnar Azevedo, presidente da Abrasco, na abertura do painel “Crise sanitária: ideias e pessoas fora do lugar”, na última sexta-feira (18/9), durante a programação da Ágora Abrasco.

O painel contou com exposições de Luis Eugenio de Souza, Gastão Wagner, Ligia Bahia e Eduardo Levcovitz. Também participaram do debate Túlio Franco, presidente da Rede Unida, Dirceu Greco, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) e os diretores da Abrasco, Eli Iola Gurgel (UFMG) e Marcio Florentino (UNB).

Falando em “pessoas fora do lugar”, Ligia Bahia, integrante da Comissão de Política, Planejamento e Gestão da Saúde da Abrasco e docente do IESC/UFRJ, fez uma análise sobre a efetivação do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde (MS). Pazuello, que não tem formação na área da saúde, assumiu a pasta, interinamente, em maio. Em 14 de setembro foi efetivado ministro da saúde, pelo presidente Jair Bolsonaro.  

“É a primeira vez que temos um general ministro da saúde. Não há diálogo, há um apoio pragmático ao general Pazuello – os secretários de saúde elogiam as providências do general para resolver problemas, mas há uma acomodação que suprime o debate sobre saúde no Brasil hoje. Se trata da violência de um governo que tem traços fascistas, que invade os espaços democráticos duramente construídos”, afirmou a pesquisadora.

Para Luis Eugenio de Souza – presidente da Abrasco (2012-2015), vice-presidente da Federação Mundial de Associações de Saúde Pública  (WFPHA) e professor do ISC/UFBA – o “sumiço” do MS é um exemplo do desmonte do Estado. Segundo Souza, a sociedade civil tem a responsabilidade de manter a “chama” acesa: “As entidades da Frente Pela Vida têm cumprido um papel importante de mobilização da sociedade, por exemplo, com a criação do Plano Nacional de Enfrentamento à Pandemia de Covid-19. O desafio é traduzir as ações de controle da pandemia em algo que seja possível discutir com eleitores”

Apesar dos exemplos de entidades e organizações em movimento, Gastão Wagner , presidente da Abrasco (2015-2018) e professor da FCM/Unicamp, criticou os vários setores  – partidos, organizações – que estão em estado de “pasmaceira”: “Um dos componentes dessa crise, e que tenho dificuldade de entender, é a incapacidade de responderem de forma proativa a desgraceira que estamos vivendo em relação às políticas públicas. O SUS enfrentou o neoliberalismo, remando contra a maré, por causa de mobilização social. Agora aumentou o isolamento, a fragmentação, dos gestores [da saúde]. Faço um apelo à cidadania ativa”.

Eduardo Levcovitz, da Comissão de Política, Planejamento e Gestão da Saúde da Abrasco e professor do IMS/UERJ, ponderou que para despertar a necessária mobilização social, em defesa da vida e da saúde dos brasileiros, é preciso traçar estratégias. Levcovitz afirmou que o primeiro passo é realizar um diagnóstico do setor saúde no Brasil:  “Por mais feio que seja [ o cenário], precisamos conhecer profundamente. Sem conhecer, não transformaremos. Precisamos fortalecer nossa utopia, nossos princípios, nossos valores. A estratégia precisa ser inovadora. Não seremos capazes de produzir mobilização das classes sociais, para sustentar política universalista, se não produzir novos conhecimentos e nova estratégia”.

Assista ao debate completo, na TV Abrasco: 

 

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