Educação Popular em Saúde e a Pandemia: Diálogos e Oportunidades

Que tipo de informação é dada para a população? Como a população apreende, introjeta e traduz em ações do cotidiano as informações que a ciência produz e que a grande mídia divulga? Estas foram algumas das muitas perguntas que permearam o painel Educação Popular em Saúde e a Pandemia: Diálogos e Oportunidades, que aconteceu nessa quarta-feira, na Ágora Abrasco, e reuniu Renata Pekelman, Bruno Vaz de Melo, Alan Brum Pinheiro José Ivo Pedrosa – coordenados por Vanderleia Laodete Pulga.

Renata Pekelman,  professora da Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos)  e coordenadora do GT Educação Popular em Saúde da Abrasco, relatou as transformações no cotidiano da relação entre os usuários e os trabalhadores no Hospital Nossa Senhora Conceição, em Porto Alegre, onde trabalha como Médica de Família e Comunidade. Os profissionais de saúde buscaram medidas para continuarem cuidando dos pacientes crônicos – diabéticos e hipertensos, por exemplo – e estimularem o isolamento social ao mesmo tempo: “Oferecemos um número de Whatsapp, e recebemos diariamente muitas questões. Fazemos uma triagem. A rede já estabelecida da Atenção Primária à Saúde tem sido essencial para o controle dos casos – e para continuar os cuidados com os usuários que já sofrem de outras enfermidades “, explicou Pekelman. 

Já Bruno Vaz de Melo, coordenador de Cirurgia do Trauma do Hospital Municipal Lourenço Jorge, vivencia uma realidade preocupante no Rio de Janeiro. De início o hospital, referência em cirurgias, não estava recebendo pessoas com coronavírus. Com o avanço da doença no município e no estado, fizeram uma ala especial. O agravamento da doença significou risco e sobrecarga para os profissionais de saúde: “Os problemas políticos, em esfera nacional, estadual e municipal, refletem-se na dinâmica do Sistema Único de Saúde. Tem um empenho muito grande de vários setores, mas é difícil dar conta do recado. Faltam profissionais, faltam leitos e estrutura. Os pacientes com coronavírus usam o mesmo tomógrafo dos que não têm, por exemplo, o que facilita a contaminação – por mais que tenha higienização”, pontuou.

Partindo de uma perspectiva completamente diferente – a dos movimentos populares que lutam para a prevenção da pandemia nas favelas – Alan Brum, do Instituto Raízes em Movimento (Complexo do Alemão, Rio de Janeiro), afirmou que é importante considerar o histórico e contexto das favelas, já que a maioria das casas têm espaço reduzido, e falta saneamento básico: “
A falta de políticas públicas em habitação fez com que as pessoas levantassem casas com as próprias mãos. Não dá pra pensar em lockdown nas favelas como é pensado no resto da cidade. Precisa ser pensado pela própria favela. A rua é o quintal da casa, não dá só pra dizer ‘não vá pra rua’, precisamos pensar em comunicação direta que faça efeito, para reduzir danos. Faixas, carros de som, linguagem que aproxime”.

José Ivo Pedrosa, vice-presidente da Abrasco e professor da Universidade Federal do Delta da Parnaíba, foi o palestrante final,  e fez uma reflexão sobre todas as falas. Pedrosa pontuou que saúde não é só hospital, e que neste momento de crise sanitária é preciso dialogar com as pessoas: “Para qual população a gente se dirige? Como é que as autoridades sanitárias, políticas, administrativas produzem as informações? Como as informações circulam? Como são consumidas? Precisamos diminuir a distância entre a informação produzida, a informação introjetada e como isso afeta as ações [da população]. E, para isso, precisamos conhecer as pessoas. E elas precisam conhecer as Unidades Básicas de Saúde”.

Assista, abaixo, ao evento completo:

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