Covid-19: diálogo sobre epidemiologia, desenvolvimento científico e determinantes sociais

Na semana passada (12/6) a Ágora Abrasco promoveu mais um painel de interface de conhecimentos e saberes. O evento Covid-19: Integração do conhecimento na interface Ecossocial/Tecnológica partiu do princípio de que os determinantes sociais transformam as pessoas que transmitem e contraem o coronavírus em grupos de risco e de vulnerabilidade, e de que é preciso garantir medidas de vigilância epidemiológica, fortalecer os grupos de pesquisa e recuperar instituições que financiam desenvolvimento científico para interromper este ciclo fatal de desigualdades. Participaram Regina Flauzino, Nurit Bensusan, Andréa Tenório e Renato Dagnino. A coordenação foi de Anaclaudia Fassa, do Conselho Deliberativo da Abrasco e professora da UFPel.

Regina Flauzino, integrante do Conselho Deliberativo da Abrasco e professora do Instituto de Saúde Coletiva da UFF, fez uma apresentação pautada na necessidade de uma epidemiologia com enfoque social, um olhar da saúde a partir da realidade política, econômica e social. Segundo Flauzino, é imprescindível que as pesquisas e ações sobre a pandemia de Covid-19 sejam pautadas a partir de uma essa percepção sobre o modo como as pessoas habitam seus territórios: “É preciso fazer um itinerário de cuidado para que as pessoas se protejam, evitem a transmissão de vírus e o adoecimento. Mas antes de tudo, precisamos da notificação. Notificar é importante para localizar a pessoa que adoeceu, a sua família, entender a sua história e o que faz com que ela  tenha adoecido – o porque seguiu ou não as indicações de prevenção. Essa informação nos permite planejar, é o que nos faz ver a diferença nos territórios para agir”, pontuou.

Nurit Bensusan, do Instituto Socioambiental,  falou sobre a relação entre a pandemia e a degradação do meio ambiente. Para a ecóloga, o deslocamento de animais é o que faz vírus como o da Covid-19 chegarem aos humanos. O tráfico e o consumo de espécies silvestres interferem no fluxo natural dos ecossistemas, assim como as mudanças climáticas, mas o desmatamento é o grande gatilho: “Nós, brasileiros, podemos ser origem de uma nova pandemia? Sim. Primeiramente por causa do desmatamento da Amazônia. Nossos morcegos tem mais de 3 mil tipos de coronavírus. O desmatamento obriga espécies diferentes de morcegos se encontrarem, o que facilita essa transmissão. Talvez essa epidemia não seja tão suficiente para fazer o mundo se transformar, mas se não aproveitarmos essa oportunidade de mudança, saberemos que, como espécie, a gente perdeu”.

Andréa Tenório, pesquisadora da Faculdade de Medicina da USP e professora da Faculdade de Medicina de Jundiaí, abordou a distância entre a produção do conhecimento e a aplicação deste conhecimento nas práticas de saúde. Tenório afirma que para corrigir este descompasso é  necessário reformular a formação dos pesquisadores, a fim de que eles entendam que sua função é também estudar a implementação  do que pesquisam em um contexto real: “Gasta-se muito com financiamento de pesquisa, principalmente nos ensaios clínicos – e em países como o Brasil. Não dá para não se obter repercussão na saúde da população. Esse fenômeno causa muita preocupação em pesquisadores, gestores  da saúde e agências financiadoras de pesquisa”.

Renato Dagnino, professor do Instituto de Geociências da Unicamp, questionou principalmente os termos “Ciência e Tecnologia”. Para o pesquisador, o mais adequado seria falar de “tecnociência”: “Se estabelece uma certa relação de causalidade entre tecnologia, devastação e todos os efeitos que a tecnologia coloca sobre a natureza – e aí a pandemia como consequência disso – e a ciência vem com um papel salvacionista. Essa é a ideia de que a ciência é uma coisa pura e neutra, contra uma tecnologia não neutra, enviesada pelos interesses do capital. Não acredito nessa diferença entre ciência e tecnologia. Se olharmos a história da humanidade, entendemos que tecnociência é um conceito moderno, que nasce justamente para unir aquilo que foi manipulado ideologicamente pelo capital e separado”.

Assista ao painel Covid-19: Integração do conhecimento na interface Ecossocial/Tecnológica:

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