Relaxar isolamento em SC não tem respaldo científico

Após duras críticas e uma grande mobilização da comunidade científica com uma nota com dezenas de entidades contra o “relaxamento” das medidas de isolamento no estado de Santa Catarina, que liberaria a abertura gradual de comércios, restaurantes, bares e academias, o governador Carlos Moisés (PSL) voltou atrás no plano. Carlos Moisés tinha sinalizado a volta gradual do comércio para o dia 1º de abril após o discurso do presidente Jair Bolsonaro. A nota da comunidade científica foi elaborada conjuntamente por diversas entidades, com participação da Abrasco, e e aponta: “As evidências já são cristalinas sobre a alta capacidade que o vírus tem em se disseminar, de causar hospitalizações e mortes nos pacientes que requerem internação. O caminho desenhado nesse momento por SC se mostrou desastroso em outros contextos internacionais. No enfrentamento à emergência sanitária causada pela COVID-19, não deve haver antagonismo entre a melhor evidência científica e a melhor ação para o estímulo econômico. A conduta a ser encaminhada pelos gestores públicos é aquela que protege a vida de seus cidadãos e suporta a economia mediante políticas eficientes”.

O vice-presidente da Abrasco, Antônio Boing, aponta que tal medida poderia gerar um caos no sistema de saúde do estado: “Liberar o isolamento agora em Santa Catarina poderia causar a explosão de infecções, hospitalizações e mortes no estado. A disseminação do vírus não está controlada, há registros de casos em todas as regiões do estado e, desde o surgimento do primeiro caso no seu território, observa-se crescimento de novos diagnósticos todos os dias. Os serviços de saúde ainda não dispõem da estrutura, equipamentos e insumos para lidar com as pessoas que necessitariam de assistência hospitalar caso se relaxasse o isolamento nesse momento”.

Boing falou também sobre a necessidade de se evitar uma contraposição entre saúde e economia e da importância de políticas que deem amparo àqueles que se encontram em situação mais vulnerável: “É certo que há impacto brutal na condição econômica de milhões de brasileiros nesse momento, em especial entre aqueles que já estavam em maior situação de vulnerabilidade. Por isso, é vital que o Estado brasileiro adote iniciativas rápidas e fortes de amparo a essas famílias e que atue para estimular a economia mediante políticas públicas eficazes e equânimes. De modo injustificado, o Brasil está perdendo tempo precioso na mitigação do impacto econômico da crise sobre a vida das pessoas.”.

Confira abaixo a nota da entidades científicas contra o primeiro anúncio do governador Carlos Moisés para relaxar a medidas de isolamento:

MANIFESTAÇÃO DE ENTIDADES CIENTÍFICAS E DA ÁREA DA SAÚDE SOBRE O PLANO ESTRATÉGICO DE RETOMADA DAS ATIVIDADES ECONÔMICAS ANUNCIADO PELO GOVERNO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

As entidades científicas, acadêmicas e de saúde que subscrevem este documento manifestam sua preocupação com a divulgação do plano de retomada econômica anunciado pelo Governo do estado em 26 de março de 2020. Entre outras medidas, tal plano prevê a abertura, a partir de 01/04, de diversos setores não essenciais, desde que limitem a entrada de pessoas a 50% da capacidade do estabelecimento, dentre outros condicionantes.

Tanto quanto os demais setores da sociedade catarinense, as comunidades científica e médico-sanitária de SC também veem com grande preocupação a grave situação da pandemia de COVID-19, seja por seu impacto na saúde ou por seus efeitos econômicos. A ciência, assim como o sistema público de saúde, é diretamente dependente do desenvolvimento econômico, mas é também um de seus mais importantes propulsores. Na era do conhecimento, a ciência, que proporciona as bases para cerca de 96% da inovação produzida no país, é a mesma que dá suporte para proteger e melhorar a vida das pessoas. Em SC temos muitos exemplos disso: de novos anti-inflamatórios à criação de ostras, da fabricação de compressores que não atacam a camada de ozônio à telemedicina mais moderna do Brasil.

No cenário atual, as medidas de contenção adotadas pelo governo do estado de SC estão suportadas em evidências científicas e por associações acadêmicas e assistenciais. Além das orientações da Organização Mundial da Saúde, diversas sociedades médico-científicas reforçaram, em notas oficiais, a necessidade de continuidade do isolamento social, alertando que qualquer orientação contrária é irresponsável e pode pôr em risco a vida de milhares de pessoas.

Um artigo publicado na revista Science informa que as medidas drásticas de controle implementadas na China diminuíram substancialmente a expansão da COVID-19. Na Itália, o prefeito de Milão reconheceu que errou ao apoiar a campanha “Milão não para”: o número de mortos na cidade saltou de 12 para mais de 4 mil em poucas semanas. A decisão do governo do estado de SC em relaxar as medidas de isolamento social a partir da primeira semana de abril não encontra respaldo nas evidências científicas disponíveis.

Não há justificativas epidemiológicas para sustentar essa opção e ela tem o potencial de causar a explosão de infecções, hospitalizações e mortes no estado. O número de casos novos da COVID-19 apresenta crescimento diário em SC desde 14 de março; estamos entre os estados com maior número de casos confirmados no país e a curva continua ascendente. Além disso, o Brasil registrou, na terceira semana de março, dez vezes mais internações por insuficiência respiratória grave que o esperado para o período, e foram reportados 100 mil novos casos de COVID-19 no mundo nos dois dias anteriores ao anúncio do governo estadual. Ou seja, a disseminação do vírus não está controlada e não há evidências de que já tenhamos conseguido achatar a curva de crescimento de casos novos, que até o momento é semelhante às de Itália e Espanha, onde tem havido muitas mortes.

Também não podemos considerar que o sistema de saúde esteja preparado para receber a quantidade de pessoas que podem necessitar de cuidados intensivos. A proposta do governo de SC facilitará a disseminação do vírus, com mais pessoas doentes e mais necessidade de leitos de UTI. Essas são as evidências aprendidas com outros países e não há contraposição a elas. Apesar disso, não se tem conhecimento sobre qual a estimativa de casos novos e quantos precisarão ser hospitalizados. Existem projeções? Quais são? Que parâmetros de modelagem o estado está utilizando para embasar tão séria decisão? O estado tem 785 leitos de UTI, com ocupação média de 80%.

Já são 474 casos confirmados, mas o número certamente é maior em função da baixa testagem. Estimativa de pesquisadores britânicos projeta cenário dramático para o Brasil, caso as estratégias de controle não sejam adequadas e haja grande contaminação. Para SC, que está sendo colocada na rota de baixo cuidado, as estimativas projetam necessidade de leitos hospitalares e demais equipamentos muito além do que há disponível.

O estado tem mais idosos que a média do país – 17% da população total – e poucos deles vivem sozinhos. Nesse momento, a capacidade instalada e a disponibilidade de insumos não permitem a testagem em massa para identificar todos os casos, de modo a permitir isolamento apenas dos grupos de risco, pois não sabemos se eles estarão ou não em contato com portadores sem sintomas. Dados da própria Secretaria Estadual da Saúde de SC apontam que a doença ocorre mais frequentemente entre pessoas de 30 e 39 anos. Dados internacionais mostram que há muitos infectados jovens sem sintomas. Não há como ter um isolamento efetivo de grupos de risco nessas condições.

As evidências já são cristalinas sobre a alta capacidade que o vírus tem em se disseminar, de causar hospitalizações e mortes nos pacientes que requerem internação. O caminho desenhado nesse momento por SC se mostrou desastroso em outros contextos internacionais. No enfrentamento à emergência sanitária causada pela COVID-19, não deve haver antagonismo entre a melhor evidência científica e a melhor ação para o estímulo econômico. A conduta a ser encaminhada pelos gestores públicos é aquela que protege a vida de seus cidadãos e suporta a economia mediante políticas eficientes. A estratégia anunciada pode nos transformar no primeiro estado que adotou medidas rigorosas de contenção da pandemia, no primeiro a sair destas medidas e – muito provavelmente – no primeiro a voltar a elas, a um preço muito maior e à custa de vidas de muitos cidadãos.

MAIS QUE NUNCA, É HORA DE CONFIAR NA CIÊNCIA.

Assinam esse manifesto em 27 de março de 2020:
Secretaria Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de SC – SBPC-SC
Departamento de Saúde Pública – CCS/UFSC
Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco
Associação Brasileira de Saúde Mental – Abrasme
Associação Brasileira de Enfermagem – ABEN/SC
Sociedade Brasileira de Bioética – Regional SC
Sociedade Brasileira de Virologia – SBV
Sociedade Brasileira de Imunologia – SBI
Direção do Centro de Ciências da Saúde – CCS/UFSC
Direção do Centro de Ciências Biológicas – CCB/UFSC
Direção do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH/UFSC
Direção do Centro de Ciências Físicas e Matemáticas – CFM/UFSC
Direção do Centro de Ciências da Educação – CED/UFSC
Direção do Centro de Ciências, Tecnologias e Saúde de Araranguá – CTS/UFSC
Direção do Centro Tecnológico de Joinville – CTJ/UFSC
Direção do Centro de Ciências Rurais de Curitibanos – UFSC
Direção do Centro de Desportos da UFSC – CDS/UFSC
Direção do Centro de Ciências Agrárias – CCA/UFSC
Direção do Centro Sócio-Econômico – CSE/UFSC
Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva – PPGSC/UFSC
Programa de Pós-Graduação em Saúde Mental e Atenção Psicossocial – MPSM/UFSC
Programa de Pós-Graduação em Nutrição – PPGN/UFSC
Programa de Pós-Graduação em Linguística – PPGL/UFSC
Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e do Desenvolvimento – UFSC
Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos, Algas e Plantas – UFSC
Programa de Pós-Graduação em Bioquímica – UFSC
Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e Biociências – UFSC
Programa de Pós-Graduação em Ecologia – UFSC
Programa de Pós-Graduação em Farmacologia – UFSC
Programa de Pós-Graduação Multicêntrico em Ciências Fisiológicas – UFSC
Programa de Pós-Graduação em Neurociências – UFSC
Mestrado Profissional em Perícias Criminais Ambientais – UFSC
Mestrado Profissional em Farmacologia – UFSC
Mestrado Profissional em Ensino de Biologia – UFSC
Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia – CCB/UFSC
Departamento de Nutrição – CCS/UFSC
Departamento de Ginecologia e Obstetrícia – CCS/UFSC
Departamento de Patologia – CCS/UFSC
Coordenação do Curso de Graduação em Ciências Biológicas da UFSC
Coordenação do Curso de Graduação em Farmácia da UFSC
Coordenação do Curso de Graduação em Nutrição da UFSC
Coordenação Local do Programa de Pós Graduação em Assistência Farmacêutica – associação de IES
Núcleo de Promoção e Atenção Clínica à Saúde do Trabalhador – NUPAC-ST/UNESC
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Saúde do Trabalhador – NUPEST/UNESC
Núcleo de Pesquisa de Nutrição em Produção de Refeições – NUPPRE/UFSC
Núcleo de Estudos em Linguística Aplicada – NELA/UFSC
Núcleo de Pesquisa e Extensão em Bioética e Saúde Coletiva – NUPEBISC/UFSC
Grupos de Estudos em Linguagem, Cognição e Educação – GELCE/UFSC
Grupo de Pesquisa em Farmacoepidemiologia – SPB/CCS/UFSC
Grupo de Pesquisa em Política de Saúde – GPPS/CCS/UFSC
Laboratório de Águas Urbanas e Técnicas Compensatórias – Lautec/UFSC
Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis – SINTRASEM
Fórum Saúde e Segurança do Trabalhador no Estado de Santa Catarina – FSST/SC
Associação Brasileira de Fisioterapia Traumato Ortopédica, regional SC – ABRAFITO SC
Coordenação do Curso de Graduação em Medicina da UFSC de Florianópolis
Sociedade Brasileira de Eletromagnetismo – SBMAG
Coordenação do Curso de Graduação em Enfermagem UFSC
Associação Brasileira de Psicologia Social – Regional Santa Catarina – Abrapso-SC
Teia de Articulação pelo Fortalecimento da Segurança Alimentar e Nutricional – TearSAN / UFSC
Observatório de Estudos em Alimentação Saudável e Sustentável – OBASS – UFSC
Instituto de Estudos de Gênero – IEG UFSC
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciências Sociais – ANPOCS
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais – UFSC
Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Fazenda da UFSC
Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UFSC
Curso de Pós-graduação em Agroecossistemas (PGA) do Centro de Ciências Agrarias da UFSC
Sindicato dos Professores das Universidades Federais de Santa Catarina – Apufsc-Sindical
Sociedade Brasileira de Sociologia – SBS
Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família – UFSC e SMS Florianópolis

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