Régua e compasso na turbulência da pandemia – Artigo de Carlos Morel

Foto: Joana Berwanger/Sul21

A expressão “perfect storm” descreve bem o Brasil em 2020: um país atravessando uma tempestade perfeita. Não bastasse a crise política que se desdobrou em crise também econômica e social, e não bastasse o retrocesso ao mapa da fome e ao aumento da desigualdade, quis o “destino” que o governo eleito na onda das fake news adotasse o negacionismo, escancarando as portas do inferno para o coronavírus e a Covid-19.

Os fatos, boicotados e jogados ao mar, são resgatados e mantidos vivos por passageiros organizados (lembram-se do “consórcio de veículos da imprensa”, substituindo os números oficiais?). Incêndios e crimes ecológicos e étnicos se sucedem, e as responsabilidades são imputadas às vítimas, coroando a “verdade” das fake news. Guiado pelo comandante e sua fiel tripulação, o navio mira o olho da tempestade (ou será a borda da terra plana?).

“Eppur si muove!” (“mas ela se move!”), disse Galileu, baixinho, mantendo-se fiel à verdade, após ter sido forçado a negar sua teoria heliocentrista para escapar da fogueira da Inquisição. “Motim a bordo!”, ouço dos ainda lúcidos, não envenenados pelos discursos oficiais.

No Brasil estraçalhado pela pandemia, sabotado por quem deveria protegê-lo, é importante reconhecer as forças que impedem o naufrágio. A principal é esta entidade invisível, chamada SUS, que boicotou ordens superiores e deu a contraordem: “Às máscaras, cidadãos!” É do SUS que vem o principal grito de resistência, às custas dos que sucumbem tentando salvar vidas nos leitos de UTIs e enfermarias em improvisados hospitais de campanha.
A segunda força maior vem de passageiros anti-negacionistas, que seguem os rituais da ciência e cultuam a verdade que nasce da observação, da checagem, da análise e do respeito aos fatos. São eles que gritam “O Rei está nu!”, embaralhando as mensagens da torre de comando. Diria um desavisado: “Mas eles eram poucos, desorganizados, só cuidavam dos seus projetos e afazeres do dia a dia! Não teriam tempo nem organização suficiente contra diretrizes e normas que sempre os disciplinaram… Como isso foi possível?”.

Assim como o SUS conseguiu, em 30 anos, se desenvolver e se estabelecer como entidade essencial para o país, forte o suficiente para resistir à tempestade, esse outro setor se fortalece há décadas. No século 20 criou organizações nacionais que sempre lutaram pela verdade e por boas práticas, como universidades, SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Academia Brasileira de Ciências e Fundações de Amparo à Pesquisa. No século 21 organizaram-se em Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), um salto de qualidade em organização e força motriz.
Aos poucos engrossam o motim, sugerindo rotas e rumos concretos para resistir e evitar a tempestade. Agora não mais limitados a opiniões ou artigos isolados, mas sim através de planos, projetos, resultados e ações concretas que fazem a diferença e orgulham o país em oito grandes áreas: agrária; ecologia e meio ambiente; energia; engenharia e tecnologia da informação, exatas e naturais; humanas e sociais; nanotecnologia; e saúde. Entidades ainda frágeis, pois não contam com um abrigo como o do SUS (Lei Orgânica da Saúde, nº 8.080/1990), mas que já mostraram o acerto de sua criação e o que fizeram pelo país em apenas 12 anos.

É dessa cooperação inovadora, exitosa e de mão dupla, do SUS com entidades e comunidades de ciência e tecnologia, que emana a verdadeira resistência à pandemia de Covid-19 e seus áulicos: orientações e diretrizes confiáveis, aparelhos e vestimentas para proteção individual, mapeamento epidemiológico, testagens populacionais, seguimento de contatos, desenvolvimento e ensaios pré-clínicos e clínicos de antivirais, soros, vacinas e métodos diagnósticos.

A tempestade continua perfeita e ameaçadora, mas existem forças vivas, no SUS e nas organizações e comunidades de ciência e tecnologia, capazes de resistir e manter o navio rumo a um porto seguro.


*Carlos Medicis Morel é membro titular da Academia Brasileira de Ciências e Coordenador do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fundação Oswaldo Cruz

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 09 de novembro de 2020.

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