A farsa do manifesto Great Barrington

Obras de arte urbanas adaptadas e em diálogo com os protocolos de prevenção – Fotos: Metrô de São Paulo/Fotos Públicas

Foi lançado em 8 de outubro, um manifesto, supostamente assinado por cientistas e não cientistas, chamado “Tha Great Barrington Declaration and Petition”. A importância em comentá-lo decorre de que seu conteúdo agride o amplamente majoritário consenso internacional a respeito das medidas para o enfrentamento da pandemia do COVID-19. Consenso este construído pelo aprendizado contínuo desses oito meses de adoecimento e perdas de vidas por todo o mundo.

O pilar desse consenso reza que a medida mais eficaz para o enfrentamento da pandemia reside no distanciamento físico em variados graus de intensidade, respeitadas as situações concretas que se apresentem. Além disso, o reforço de medidas de higiene pessoal e coletiva a serem realizadas por todos. Em paralelo, deve ser mencionado o esforço realizado pela comunidade científica internacional dirigida ao desenvolvimento de medicamentos e, principalmente, vacinas contra a doença.

Neste momento em que está sendo discutida a reabertura das instalações escolares, a ser realizada segundo estritas regras de contingenciamento com vistas a preservar a saúde das crianças e jovens bem como a de seus contatos familiares, esse manifesto propõe uma reviravolta completa nesse consenso, preconizando que a melhor maneira de enfrentar a pandemia seria forçar o que vem sendo chamado de “imunidade de rebanho”, isto é, que seja estimulado o contato físico entre as pessoas para que seja alcançada naturalmente uma situação de imunidade na maior parte da população capaz de interromper a cadeia de transmissão da doença. Do ponto de vista prático propõe um retorno completo das atividades públicas, incluindo comércio, indústria, esportes, escola, lazer, etc. Argumenta que a maioria dos casos da doença decorrente disso ocorreria em jovens, que costumam apresentar formas leves.

Essa proposta nada mais é do que um relançamento da estratégia daquilo que se chamou há meses de um “isolamento vertical”, que saiu de cena tão rapidamente quanto entrou, comprovada a sua falta de qualquer sustentação clínica, imunológica, epidemiológica e ética. Não deve ser ignorado o aparecimento desse manifesto nos Estados Unidos, a menos de um mês das eleições presidenciais onde o presidente Trump – defensor ardoroso da estratégia apontada pelo documento – encontra-se em dificuldades.

Do ponto de vista clínico, a ideia da abertura indiscriminada não se sustenta por dois motivos. O primeiro é que, embora menos frequentes, haverá casos graves em jovens, como tem sido observado. Além disso a cadeia de transmissão exacerbada fará com que jovens que tenham contato com o vírus o transmitam para pessoas mais velhas, nas quais os casos graves são muito mais frequentes.

Do ponto de vista da organização dos serviços de saúde, será inevitável que voltaremos a observar pressões sobre esses serviços, em especial na oferta de leitos especializados e de UTIs, com amplas possibilidades de colapso.

Do ponto de vista epidemiológico, a experiência mundial demonstra que a proporção de pessoas que apresenta anticorpos contra o vírus é muito pequena em relação ao número de doentes e de óbitos, o que sugere que o objetivo de atingir uma proporção tão alta capaz de interromper a transmissão não é um objetivo razoável e não encontra amparo na tradição cientifica mundial da saúde pública. E se fosse viável, para alcançá-lo seria à custa de muitas mortes. No Brasil, a única cidade na qual foi documentada uma proporção alta de pessoas que tiveram contato com o vírus foi Manaus, e nela está sendo observado um recente aumento do número de casos. Isso sugere que os mecanismos imunitários envolvidos na COVID-19 estão ainda longe de serem compreendidos em sua totalidade.

Finalmente, a proposta do manifesto embute um grave problema ético, que é o de valorizar diferencialmente o valor de uma vida segundo a faixa etária. Em outros termos, sugere implicitamente que a vida de um jovem vale mais do que a vida de uma pessoa mais idosa. Em qualquer perspectiva ética fundamentada isso é inaceitável e a sua adoção remete aos piores momentos da espécie humana, como nos campos de concentração nazista, onde os mais velhos (menos aptos) eram imediatamente eliminados.

A Abrasco, como entidade científica da saúde coletiva, não poderia deixar de se manifestar em relação ao desserviço que esse manifesto pode provocar no enfrentamento da pandemia.

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