Por que celebrar o aniversário de 200 anos de Rudolf Virchow?

Celebrar o 13 de outubro, data de nascimento do médico alemão Rudolf Ludwig Carl Virchow em 1821, é uma boa forma de trazer um pouco de luz à tenebrosa noite do obscurantismo no Brasil! O nome de Virchow esteve, habitualmente, mais associado às suas contribuições para a constituição da Patologia Geral, mas, felizmente, vem crescendo a evocação do ardoroso reformador social e de um fundador visionário da “Medicina Social”.

Quando jovem, queria ser teólogo, mas veio a desistir porque sua voz era demasiadamente fraca para ser ouvida dos púlpitos. Contudo, creio que sua vida e obra levaram-no para um alcance muito maior, posto que o seu vigor não residia na voz, mas sim, no poder das ideias e na capacidade de luta, até fisicamente, quando se tornou necessário.

Sua formação geral e médica começam no Instituto Friedrich-Wilhelms, atual Universidade Humbolt, em Berlim, complementada pela prática no Hospital Charité. Graduado em 1843, passou a dedicar-se aos estudos médicos e de laboratório de Patologia, prosseguindo os passos da carreira docente em Berlim e em Würzburg, onde fundou a cátedra de Anatomia Patológica, em 1849. Em 1854, retornou a Berlim, convidado para o novo Instituto de Patologia, do qual se tornou diretor, no campus Charité. Atualmente o campus tem o seu nome.

Porém, a evocação de Virchow, neste seu aniversário de 200 anos, dá-se mais por sua versão de reformador social e de um dos fundadores da “Medicina Social”. Aliás, sob essa perspectiva, a referência biográfica e bibliográfica mais notável decorre de uma missão em que Virchow não foi, aparentemente, bem sucedido. Recebera em 1847/1848 a tarefa do governo prussiano de ir à Silésia Superior (hoje pertencente à Polônia) para debelar uma epidemia de tifo que se alastrava naquela região, muito rica em carvão mineral, extremamente pobre, porém, nas condições de vida dos seus
moradores, a maior parte constituída por trabalhadores mineiros e suas famílias.

Após várias semanas naquela região, não conseguiu sucesso, e a epidemia se alastrou, para decepção e ira das autoridades que o enviaram. Ocorre que Virchow, ao percorrer a região e conhecer as condições de vida de sua população, concluíra que o problema do tifo murino não era propriamente uma questão médica ou biológica, e sim uma questão causada pelas condições habitacionais, educacionais, nutricionais e extremamente miseráveis em que viviam as infelizes pessoas, discriminadas que eram, até por serem mais polonesas que alemãs…

Ao retornar da missão, elaborou um relatório de 190 páginas, em que defendeu, de forma firme, dramática e indignada, a tese de que a doença era consequência de como a Prússia tratava de forma excludente e discriminatória os cidadãos e
trabalhadores da Silésia. É nesse relatório que Virchow inclui um dos enunciados mais avançados para a época, isto é, que “a Medicina é uma ciência social, e a política não é outra coisa senão a Medicina em grande escala”. Mais adiante, defende que “os médicos são os advogados naturais dos pobres, e os problemas sociais devem ser tratados por eles”. Entre suas recomendações, defendeu que o idioma polonês fosse reconhecido como idioma oficial na região, e que o ensino se desse no idioma local; que fosse concedida autonomia política, com governo democrático escolhido pela população local; que houvesse redistribuição de terras, fortalecendo a economia agrícola estruturada em cooperativas; que o ensino fosse laico. Enfim, uma pauta ambiciosa e utópica, muito além de tratar individualmente os doentes (para matar as riquétsias), eliminar os piolhos ou matar os ratos… Considera-se que o documento de Virchow contém os fundamentos da questão das desigualdades sociais como determinantes da doença, aplicada a uma área degradada e desprezada, mas que fornecia riquezas minerais para o Império alemão.

Retornando a Berlim, Virchow apoia e se envolve nas ações “revolucionárias” de março de 1848, enfrentando a repressão física e, mais tarde punições graves em sua carreira. Nessa época, Virchow ajuda a fundar o jornal semanal Die medicinische Reform (A Reforma Médica), o qual veiculava as ideias de reforma social, reforma política e reforma da saúde. Por motivos de pressão e repressão, o jornal teve de ser encerrado, e Virchow foi temporariamente expulso do seu vínculo oficial. Contudo, decidiu também exercer a vida política, elegendo-se para cargos no parlamento alemão (Reichtag), onde teve grandes embates em temas caros ao então Chanceler (Primeiro Ministro) Bismark, particularmente contra questões de orçamento para as forças armadas. Em temas como as políticas do Seguro Social e separação Estado-Igreja, Virchow apoiou com entusiasmo. Combateu com vigor os albores do racismo e da supremacia arianas, demonstrando, inclusive, por meio de mensurações e estudos populacionais, a não sustentabilidade da tese da suposta supremacia, que veio, mais tarde, a alimentar o nazismo.

Finalizando, quero dar a esta breve reflexão em torno deste ex-quase teólogo alemão, que se formou médico que se tornou patologista famoso, político ardoroso, ‘socialista’ militante e reformador social, a conotação de um “desabafo” e de um convite à resistência e luta contra as trevas, nesta triste quadra da história de nosso país. Virchow morreu em 5 de setembro de 1902, mas a luta continua!

*René Mendes é presidente da Associação Brasileira de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora – Frente Ampla em Defesa da Saúde dos Trabalhadores. E-mail: renemendesprof@gmail.com

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