O Brasil tem falhado e muito na prevenção ao HIV/Aids – e não é por falta de tecnologia

Lígia Kerr, da CEPI/Abrasco – Foto: Reprodução Abrasco

O Brasil tem falhado e muito na prevenção ao HIV/Aids. Embora também atinja os heterossexuais, nossa epidemia se concentra em algumas populações consideradas chave, como homens que fazem sexo com homens, travestis e mulheres profissionais do sexo. O crescimento da infecção entre homens que fazem sexo com homens passou de 12%, em 2009, para 19% em 2016. A sífilis, outra infecção sexualmente transmissível, também serve de indicador para o HIV/Aids – o número de casos triplicou a prevalência nesse mesmo período, de 9% para 27%.

O tratamento para aqueles que contraíram o vírus é o coquetel antirretroviral, um conjunto de drogas utilizadas no tratamento do HIV. É uma medicação importantíssima – aumentou a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes e reduz a carga viral, reduzindo a transmissão do HIV. É uma importante estratégia de tratamento, e exige formas combinadas de prevenção e políticas de saúde.

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Pensar o controle do HIV exige formas combinadas de prevenção e políticas de saúde. Uma das formas de prevenção ao HIV são as profilaxias pós-exposição ao vírus, a PEP, e pré-exposição, PrEP. A PEP é indicada após eventos de risco nos quais o uso do preservativo não ocorreu, como em casos de estupro, rompimento ou esquecimento do preservativo, ou acidentes de profissionais de saúde com pessoas potencialmente contaminadas. É necessário tomar um comprimido antirretroviral nas primeiras 72 horas após o evento, e seguir a dose por 28 dias.

A PrEP é a estratégia que se toma um comprimido retroviral antes de um evento que possa envolver risco, indicado para as populações-chave. Essas estratégias devem levar em conta as outras medidas de prevenção, que não devem ser abandonadas, como o uso da camisinha.

Tanto o tratamento para as pessoas que já vivem com o vírus como as profilaxias de prevenção (PEP e PrEP) fazem parte do Sistema Único de Saúde. É um direito de todos o acesso aos serviços de saúde. O tratamento da Aids é caro, e o SUS banca todos esses recursos. No entanto, não garante que vamos controlar o vírus. É necessário mais.

Há anos setores conservadores da sociedade brasileira, inclusive com representação parlamentar, que impedem qualquer movimento na direção de campanhas preventivas voltadas para as populações chave. Esse movimento também impede um trabalho de redução de estigma que vinha sendo feito nas escolas para que crianças desenvolvam sua capacidade de aceitar a diversidade, seja ela de raça, cor e orientação sexual ou deficiências.

Outro aspecto foi a redução drástica de recursos para ONGs que trabalham com essas populações e dependiam da parceria com o governo federal. A maioria dessas organizações fechou suas portas e, com isso, reduziu-se ainda mais as ações de prevenção. O resultado é o crescimento da infecção ter ocorrido principalmente entre os mais jovens, que iniciaram sua vida sexual num momento de declínio das campanhas de prevenção.  Esses fatos são reforçados por termos como dirigente maior do Brasil um político que expressa publicamente sua homofobia.

Lígia Kerr é integrante da Comissão de Epidemiologia da Abrasco pelo DSC/UFC e presidente do 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, que será realizado em novembro de 2021

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