Fake News, quase mentiras, meias verdades, falácias e malícias -artigo de Naomar de Almeida Filho

Charge de Boligan – https://www.boligan.com/

Uma pessoa da família me repassa uma postagem do Instagram, com uma tabela visualmente bem-feita, simples e clara, contendo dados reais sobre o curso da pandemia na Itália, na Espanha e no Brasil. Olho rapidamente e vejo que, de fato, ali estão alguns números oficiais da pandemia, junto com outros dados fora de contexto e outros sem fonte de credibilidade, reproduzidos junto a cálculos que imitam indicadores epidemiológicos, com aparência técnica, supostamente demonstrando que nos encontramos num patamar de muito menor gravidade do que naqueles países. Trata-se de uma meia-verdade ou, quem sabe, uma falácia, porque dados que podem estar corretos alimentam uma análise equivocada, já que a pandemia atingiu esses países em momentos diferentes. Para desmontá-la, basta ter bom senso, honestidade intelectual e uma capacidade mínima de análise de dados.

+ Dissipar e desmascarar fake news são alguns dos objetivos da Ágora Abrasco, programação de debates em diversos formatos pela internet. Naomar de Almeida Filho fará a coordenação da primeira ágora, marcada para sexta-feira, 10 de abril. Inscreva-se na TV Abrasco, ative a notificação e não perca!

Uma vizinha divulga no grupo de Whatsapp do condomínio o vídeo de um homem de voz mansa, ar tranquilizador, jaleco branco impecável, apresentando-se como egresso de uma prestigiosa escola médica, insinuando ter formação em Epidemiologia Clínica. Apesar de meio atrapalhado com o foco da câmera, esforçando-se para ser simpático e comunicativo, o médico mostra uma modelagem das curvas epidêmicas do Brasil comparadas com as de vários países da Ásia e da Europa, oriundas de Nota Técnica divulgada por insuspeito centro universitário de pesquisas, argumentando que a pandemia nos afeta com menor impacto. Não é necessário ser um especialista para verificar que se trata de uma fake news ou uma quase-mentira, basta acessar o site da universidade citada.

Numa emissora de rádio do Rio Grande do Sul, o deputado federal Osmar Terra, ex-ministro de Estado, é entrevistado. Num tom assertivo, sem qualquer hesitação, primeiro exibe suas credenciais de médico, de ex-secretário de saúde por muitos anos, quando teria enfrentado e vencido epidemias que, segundo ele, teriam sido muito mais sérias que a pandemia da Covid-19. O notório político tenta explicar temas técnicos em linguagem clara e simples, com base em seu suposto conhecimento científico e em sua alegada experiência de gestor, como se estivesse postulando algum cargo. Usando exemplos selecionados de diferentes países e de outras doenças, pretende demonstrar que a população brasileira já teria alcançado níveis de imunidade coletiva suficientes para justificar o relaxamento do isolamento social. Esta narrativa, aparentemente lógica e convincente, compreende falácias, meias-verdades, mentiras completas, e até verdades contadas de modo malicioso e enganador.

Os exemplos acima são ilustrativos da epidemia de desinformação dentro da pandemia coronaviral. Em tempos de pandemia, tão perigosas quanto as fake news são as meias-verdades, as quase-mentiras e as falácias. Igualmente virulentas podem ser as verdades, quando manipuladas em jogos maliciosos de linguagem e lógica. Mentiras se desmascaram em mais ou menos tempo, mal-entendidos e meias-verdades eventualmente se esclarecem, falácias podem ser desconstruídas (com maior ou menor esforço). Mas é muito difícil combater a desonestidade retórica embutida em argumentos que contêm verdades, porque o sujeito que as enuncia e propaga tem má-intenção, e por isso se esquiva do debate e reage de modo socialmente irresponsável.

*Naomar de Almeida Filho é vice-presidente da Abrasco e, atualmente, compõe o corpo docente do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP) como professor visitante

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