Entre acordos de cúpula e demonstrações políticas, China recebeu a conferência global de Promoção da Saúde

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Realizada entre 20 e 24 de novembro em Xangai, centro econômico da China, a 9ª Conferência Global de Promoção da Saúde buscou discutir os princípios da Carta de Otawwa 30 anos após a sua publicação. Com quatro eixos temáticos, o evento confirmou-se como uma grande demonstração de força da China como um ator global também na área da saúde, na opinião de Marco Akerman, integrante da comissão científica da 22ª Conferência Internacional de Promoção da Saúde, promovida pela IUPES e Abrasco em 2016, e do Grupo Temático Promoção da Saúde e Desenvolvimento Sustentável (GTPSDS/Abrasco).

O professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) acompanhou as discussões da Conferência como integrante do Comitê Cientifico da Conferência, representando a região das Américas. “Foi a maior Conferência desde Ottawa, com mais de 1.200 participantes, na sua maioria chineses. Eles compuseram a maioria dos painéis, buscando reforçar os avanços da China, principalmente no que concerne à reforma urbana, suas atividades comunitárias e o impacto destas iniciativas na saúde”, destaca Akerman, que comenta em entrevista os principais aspectos do evento e sua relação com os debates da Promoção da Saúde travados no Brasil e no mundo.

Abrasco: Como foi a 9ª Conferência Global de Promoção da Saúde?

Marco Akerman: Muito pitoresca e singular. O fato de ter sido na China deu à Conferência uma coloração especial. Foi a maior Conferência até agora, em número de participantes, desde Ottawa, Canadá, em 1986. Foram mais de 1.200 participantes, na sua maioria chineses. Eles compuseram a maioria dos painéis que buscaram reforçar os avanços da China, principalmente no que concerne à reforma urbana, suas atividades comunitárias e o impacto destas iniciativas na saúde. O Primeiro-ministro chinês abriu o evento dizendo que “saúde é um pilar fundamental do desenvolvimento, do bem estar das pessoas e indicador de prosperidade e progresso social”.

A Declaração de Xangai foi aprovada no início da Conferencia e os participantes não tiveram possibilidades de intervir no seu conteúdo. O tema “Promoção da Saúde no Desenvolvimento Sustentável” favoreceu o debate mais abrangente, mas predominou nas mesas representantes governamentais. Poucos representantes da sociedade civil e da academia foram convidados para as mesas. Neste sentido, dando visibilidade aos gestores foi organizado um Fórum de Prefeitos que lançou o Consenso de Xangai para Cidades Saudáveis.

Abrasco: Como a carta de Curitiba e toda o conjunto dos debates da 22ª Conferência Internacional de Promoção da Saúde, promovida pela IUPES e Abrasco no ano de 2016, serviu e/ou contribuiu para os debates em Xangai?
Marco Akerman: A ponte entre Curitiba e Xangai foi tímida, dada a natureza da Conferencia da OMS, conformada como uma cúpula de governos, com pouca interação e participação. Entretanto, a Declaração de Curitiba esteve postada no site oficial do evento desde o seu lançamento e, também, foi selecionada como apresentação em pôster.

Abrasco: Quais os destaques que você ressalta dos debates em Xangai?
Marco Akerman: Vejo como muito importante e simbólica a fala de abertura de Margareth Chan, Diretora da OMS, que “pôs o dedo na ferida” ao indicar os desafios globais e locais da Promoção da Saúde nos tempos atuais. Lembrou a Carta de Ottawa, elaborada há 30 anos, e enalteceu a atualidade dos seus princípios, valores e recomendações, mas disse “naquele tempo tínhamos uma conjuntura completamente distinta da que temos hoje, atualmente poderosos interesses comerciais presidem e influenciam sobremaneira a vida no planeta”. Destacaria também o Informe Final da Conferencia, elaborado por Ilona Kickbusch e Don Nutbean, que saudou o caráter político da Conferencia: “saúde é política, portanto escolhas e compromissos políticos são cruciais”.

Abrasco: Quais desafios para o campo da promoção da saúde para o ano de 2017?
Marco Akerman: Creio que o grande desafio que se coloca para 2017, não especificamente para o campo da promoção da saúde, e sim de alcance nacional e global, é de muita luta e resistência no que tange à tendência de predomínio dos interesses mercantis e fiscais sobre os direitos sociais. Recente artigo publicado no The Lancet por Martin MacKee, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, faz um alerta importante: “A comunidade europeia de saúde pública deve se preparar para um 2017 muito difícil. A história da Europa oferece exemplos de como a saúde pública pode ser subvertida por políticos autoritários e como os governos não conseguem responder a essas ameaças”. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência, é a pura realidade.

Confira abaixo o vídeo da Organização Mundial da Saúde (WHO/OMS) com os princípios da Declaração de Xangai:

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