Abrasquianas na Academia de Ciências da Bahia

Glória Teixeira e Estela Aquino, no dia da posse. Foto Arquivo Pessoal.

Na tarde desta quarta-feira 5 de junho, toma posse na Academia de Ciências da Bahia, as abrasquianas Estela Aquino e Glória Teixeira. A cerimônia para os novos acadêmicos admitidos em 2019 acontecerá às 18h, no Salão Nobre do Palácio da Reitoria da Universidade Federal da Bahia. No total, serão empossados 19 novos membros, indicados por seu notório saber e relevância de seus trabalhos e pesquisas científicas.

Estela Aquino é professora titular aposentada do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia e professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (CAPES nível 7). Uma das fundadoras e coordenadora do GT Gênero e Saúde da Abrasco de 1995 a 2000, Estela foi Conselheira Titular do Conselho Nacional de Direitos da Mulher (2008 a 2014) e tem se dedicado à luta pela equidade de gênero na ciência.

Reconhecida epidemiologista, Maria da Glória Teixeira é professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, integrou o Conselho da Abrasco (Gestão 2015 – 2018) e coordenou a Comissão de Epidemiologia da Abrasco em 2005, tendo participado da produção de vários Planos-diretor para o desenvolvimento da epidemiologia no Brasil. Para Glória, são mais de 40 anos de atividades, debates e lutas do campo da Saúde Coletiva bahiana inaugurados com o início das atividades do Mestrado de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina e que compõem o histórico do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia.

Para a Comunicação da Abrasco, Estela Aquino opinou sobre o o significado deste título para a ciência brasileira feita por mulheres, confira:

Para além do reconhecimento pessoal, ser eleita para a ACB, junto com a Glória Teixeira, representa, em primeiro lugar, mais um passo na institucionalização da Saúde Coletiva como área científica. Nossa área teve um crescimento muito grande em sua produção científica, contribuindo para a solução de muitos problemas de saúde e da assistência à saúde no país. Entretanto, sua representação em instituições como a prestigiosa Academia Brasileira de Ciências, de âmbito nacional, é bem pequena e recente: Maurício Barreto – o primeiro pesquisador da área a ser empossado – foi eleito em 2003. Após dezesseis anos, entraram apenas outros cinco membros titulares, três homens (César Victora, Carlos Augusto Monteiro e Bruce Duncan) e duas mulheres (Maria Inês Schmidt e Celina Turchi), que correspondem em conjunto a 6% daqueles das Ciências da Saúde e somente 1% de todas as áreas. Na Academia de Ciências da Bahia, a mais jovem do país, e com caráter estadual, dois pesquisadores reconhecidos da Saúde Coletiva – Mauricio Barreto e Naomar de Almeida Filho – fizeram parte da sua fundação em 2010. Com a nossa entrada, minha e de Glória, dobramos a representação da área, ainda que passemos a ser apenas 4% do total de titulares.

Em segundo lugar, entrar para a ACB com mais nove mulheres representa uma conquista política para a luta por equidade de gênero na ciência. As academias de ciências em todo o mundo mantiveram-se como instituições predominantemente masculinas, marcadas pelo androcentrismo, apesar do crescimento marcado da participação das mulheres nas ciências. Um exemplo emblemático e original é o de Marie Curie, que foi a primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel e a primeira pessoa a ser laureada duas vezes (Nobel de Física e de Química), mas, apesar disso, nunca foi aceita pela Academia Francesa de Ciências . Ainda hoje, a participação feminina entre os titulares situa-se em geral em torno de 12% e mesmo em países da América Latina e do Caribe, onde é maior, a proporção média fica em torno de 17% .

A Academia Brasileira de Ciências não foge à regra e as mulheres correspondem a 15% dos titulares. Um único artigo publicado sobre o tema sugere que, possivelmente, os critérios aplicados para a entrada delas são mais rígidos e os indicadores de produtividade se equivalem aos dos homens ou até os superam em termos de formação de novos pesquisadores e da manutenção bolsas de produtividade do CNPq. Além da ABC, há poucas academias em âmbito estadual, podendo ser citadas: a Academia de Ciências do Estado de São Paulo; a Academia Pernambucana de Ciências; e a Academia de Ciências da Bahia. E o padrão se repete, mesmo que nós mulheres, desde 2010, já sejamos metade dos pesquisadores cadastrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq. Tive a oportunidade de falar sobre este tema no 11° Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em 2015.

Na ocasião mostrei que as desigualdades de gênero se expressavam na menor proporção de líderes de grupos de pesquisa, que era maior na idade reprodutiva; na distribuição desigual das bolsas de produtividade e isso ocorre mesmo na Saúde Coletiva, onde são a incontestável maioria entre os pesquisadores, especialmente entre os níveis 1 A e 1 B; na composição de mesas e debates. Por isso, considero que é motivo de comemoração serem eleitas dez mulheres entre dezoito novos titulares da ACB, o que eleva a participação feminina de 20% para 28% de um total de 98 membros em todas as áreas. Este fato resultou na iniciativa da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia de prestar uma homenagem às novas laureadas da ACB no dia 6 de junho, o que certamente demarca o apoio político à nossa conquista.

Contudo, é preciso dizer que ainda falta muito para se alcançar a equidade de gênero, principalmente se observadas as distintas áreas do conhecimento, o que motiva a recomendação de que sejam publicadas regularmente estatísticas desagregadas por gênero e segundo área do conhecimento. É preciso realizar mais análises que tornem visíveis as diferenças segundo a idade, tempo de titulação, produção e orientação de alunos, raça/cor, região de atuação, entre outros.

Para finalizar, eu gostaria de reafirmar que a ciência é uma prática coletiva, mas suas formas de reconhecimento se baseiam, de um modo geral, em indicadores individuais e na premiação de carreiras pessoais. As desigualdades sociais reforçam essas distinções e para cada mulher que, como eu, consegue romper o chamado “teto de vidro” (“ceiling glass”), há muitas outras talentosas e capazes que não usufruem dessas posições. Eu dedico esta conquista a todas as parceiras, que construíram comigo esta jornada, em especial às mulheres do MUSA-Programa Integrado em Gênero e Saúde (ISC/UFBA) e do GT de Gênero e Saúde da Abrasco. A ciência precisa das mulheres! A sociedade precisa de uma ciência plural e diversa!

A Academia de Ciências da Bahia é uma entidade de direito privado sem fins lucrativos, fundada em 17 de setembro de 2010, na cidade do Salvador e tem por finalidade contribuir para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia como fator essencial ao bem-estar social no nosso país, fomentando a ligação entre os setores acadêmico, produtivo e governamental do Estado da Bahia. A ACB atua no sentido de estimular a formação de pesquisadores nas áreas da ciência e da tecnologia.

NOVOS ACADÊMICOS

MEMBROS TITULARES

Ciências Exatas, Agrárias e da Terra:

Ana Cristina Fermino Soares

José Luís Gonçalves de Almeida

Sandro Lemos Machado

Sebastião de Oliveira e Silva

Suani Tavares Rubim de Pinho

Vânia Palmeira Campos

Ciências da Vida:

Estela Maria Motta Lima Leão de Aquino

Marcos Almeida Matos

Maria da Glória Lima Cruz Teixeira

Ubirajara de Oliveira Barroso Júnior

Filosofia e Ciências Humanas:

Anete Brito Leal Ivo

Antonio Virgílio Bittencourt Bastos

Inaiá Maria Moreira de Carvalho

Maria Thereza Oliva Marcílio de Souza

Wlamyra Ribeiro de Albuquerque

Ciências Sociais e Sociais Aplicadas:

Flávia Goulart Mota Garcia Rosa

Artes:

Clyde Wesley Morgan

Luiz César Alves Marfuz

MEMBRO JÚNIOR:

Arthur Trancoso Lopo de Queiroz

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