Naomar de Almeida Filho: “A pandemia subverte a organização do Estado ou do mercado no que diz respeito à sobrevivência dos seres”

Naomar de Almeida Filho | Foto: Abrasco

“O fenômeno da pandemia também é um acontecimento político. Em certos contextos, a saúde é um dever do Estado, um direito do povo. Em outros sistemas políticos, a saúde é um serviço ou um bem que pode ser comprado no mercado. De alguma forma, a pandemia subverte essa organização do Estado ou do mercado no que diz respeito às questões da sobrevivência dos seres”, afirmou Naomar de Almeida Filho, em entrevista ao jornal argentino Página/12. O vice-presidente da Abrasco, professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA e professor convidado do Instituto de Estudos Avançados da USP, conversou com o veículo internacional sobre o papel da epidemiologia diante do coronavírus, o contexto político no Brasil e as perspectivas dos cientistas sobre a doença. Leia, abaixo, a entrevista traduzida pela Comunicação da Abrasco – e confira o texto na íntegra, originalmente publicado em espanhol:

Jornal Página 12 – Qual é a situação no Brasil neste momento?

Naomar de Almeida Filho – Estamos vivendo um aumento rápido de novos casos e um grande número de mortes. Temos quase 40.000 casos confirmados e mais de 2.000 mortes. O vírus chegou ao país pelas classes média e alta, mas começou a se espalhar pelos segmentos sociais mais pobres. Corremos sério risco e uma grande tragédia pode realmente acontecer. O controle de uma pandemia requer união, coordenação e organização. Liderança e coordenação são necessárias, o contrário do que vemos no momento no Brasil. Estamos em uma situação de caos e falta de coordenação nacional que pode ser fatal. O pior é tomar decisões arbitrárias que podem levar a resultados ruins.

Jornal Página 12 – O presidente Jair Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, há alguns dias, por suas diferenças no modo de lidar com a crise sanitária. O ex-funcionário era a favor de adotar medidas como o confinamento total da população, algo que Bolsonaro rejeita para não prejudicar a economia. Como a sociedade responde?

Naomar de Almeida Filho – O ex-ministro Mandetta não era nada excepcional: um médico, conservador e populista como o presidente, seu chefe. O ex-ministro queria apenas seguir os princípios científicos e as diretrizes técnicas da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, a sigla em inglês) e da Fundação Fiocruz. E por isso tão rapidamente se tornou um fenômeno de popularidade. Isso deixou o presidente com muita inveja. Mas Bolsonaro se comporta como um genocida, tomando atitudes irracionais, à beira da loucura. Ele já era um negacionista notório em questões de urgência climática, e agora insiste em negar a pandemia. Ele já disse várias vezes que a Covid-19 é uma “gripezinha”. Incentiva as pessoas a romperem o distanciamento social. Tanto ele quanto seus ministros são políticos despreparados e irresponsáveis. O tempo todo eles se submetem, e nos submetem, ao ridículo. Bolsonaro tem Trump como modelo, certamente o considera uma autoridade mundial em farmacologia, porque defende o tempo todo expandir o uso da cloroquina. Trump parou de falar sobre isso, mas Bolsonaro continua com essa ideia fixa. Seu ministro da Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes, acaba de anunciar que um vermífugo animal pode ser a cura milagrosa da doença.

Jornal Página 12 – Qual é a sua opinião sobre a estratégia implementada pela Argentina para controlar a pandemia?

Naomar de Almeida Filho – Eu sei que a Argentina logo iniciou uma espécie de quarentena, adaptada ao seu contexto, e a manteve firmemente, apesar das dificuldades políticas derivadas dessa decisão. Eu sei pouco sobre os detalhes, mas parece que medidas rigorosas de distanciamento social mais uma vez  deram resultados. Com 2,9 mortes por milhão de habitantes, a Argentina tem a menor mortalidade entre todos os países populosos das Américas. O Brasil tem 11 por milhão, Peru 10,5 e Chile 6,6 – ainda muito menos que os Estados Unidos (117 por milhão), Inglaterra (228 por milhão), e Espanha  (429 por milhão).

Jornal Página 12 – O que explica que as opiniões e medidas sobre como lidar com essa situação variam tanto?

Naomar de Almeida Filho – Vamos considerar uma pandemia como um furacão, que pode ser analisado e compreendido em diferentes dimensões, níveis e pontos de vista. A pandemia não se restringe à biologia ou à clínica, é algo que transcende tudo isso, porque torna algo social  que, em sua origem, possui uma base atômica, molecular, química. Portanto, a epidemiologia, que é um campo  intermediário entre o social e o biológico, é muito útil para se ter uma ideia ampla e mais complexa de fenômenos como esse. O fenômeno da pandemia também é um acontecimento político. Em certos contextos, a saúde é um dever do Estado, um direito do povo. Em outros sistemas políticos, a saúde é um serviço ou um bem que pode ser comprado em um mercado. De alguma forma, a pandemia subverte essa organização do Estado ou do mercado no que diz respeito às questões da sobrevivência dos seres. Uma pandemia de alguma forma desafia a maneira como as sociedades se organizam, e significa uma ameaça para os sistemas nacionais e supranacionais sobre como lidar com problemas dessa natureza. Aí, convocam-se as ciências para dizerem ou produzirem uma verdade. As ciências travam uma espécie de luta narrativa sobre o que é verdade e o que não é. 

Jornal Página 12 – Em momentos como esse, o papel fundamental da ciência é claro, uma evidência que alguns ainda colocam em dúvida. 

Naomar de Almeida Filho – Acho que sim, de fato existem muitos sinais disso neste momento da pandemia. A ciência é uma instituição supranacional global, composta por blocos de pensamento e prática que são as ciências, no plural. E essas ciências são concretamente redes de sujeitos que têm sua formação e prática muito internalizadas, e com aparato próprio para validarem suas proposições. As ciências são comunidades internacionais, há produção científica interna nos países, mas as redes de validação são internacionais. Em momentos como o atual, há uma demanda sobre o aparato global da produção científica. Ao mesmo tempo, todos os cientistas que têm algo a dizer sobre a pandemia são questionados: pneumologistas, infectologistas, epidemiologistas, até a economia é questionada para produzir narrativas. Os cientistas estão empenhados em reconstruir e expandir as redes de comunicação entre eles. É muito interessante ver como essas redes são ativadas quando há um fenômeno como essa pandemia.

Jornal Página 12 – É impressionante tanta divergência de opiniões, incluindo tantas diferenças entre a OMS e especialistas de outros círculos…

Naomar de Almeida Filho – Nesses dois meses, já existem mais de 2.600 trabalhos científicos publicados sobre a pandemia e o coronavírus; uma espécie de recorde mundial. É impossível estimar o número de cientistas trabalhando no assunto. Existem muitas medidas que nós, pesquisadores, indicamos como eficazes hoje – e que dois dias depois apontamos evidências contrárias. Isso aconteceu com o uso de máscaras, altamente recomendado com base nas evidências de hoje. Para nós, isso é o mais esperado da pesquisa científica e é a força da ciência, que é exatamente a capacidade de ajustar seus processos de produção de conhecimento às mudanças de realidades. Há pessoas que o interpretam como um fator de desacreditação. Para a divulgação científica, é muito importante construir uma fonte mais aberta entre profissionais da comunicação e pessoas que trabalham na produção de conhecimento, porque muitas vezes uma hipótese simples se transforma em uma forte expectativa de uma demanda social e econômica.

Jornal Página 12 – Está claro que Bolsonaro rechaça a ciência…

Naomar de Almeida Filho – Sim é assim. No Brasil, temos um governo federal que possui uma posição claramente anticientífica, e isto impõe uma contradição no momento da pandemia. E agora é necessário chamar os cientistas para a produção de respostas ou, pelo menos, para obter orientação sobre o que fazer nessa situação. Mas isso ocorre depois de três ou quatro anos com um subfinanciamento absoluto do sistema de produção de conhecimento. Dessa maneira, um tipo de contradição é imposta: o governo está dividido entre aqueles que dizem que é essencial confiar na ciência e aqueles que dizem que não é necessário acreditar na ciência, ou pior, que é melhor confiar nos deuses, santos e livros sagrados. Uma fração muito grande do governo está realizando uma campanha nacional para desacreditar a ciência.

Jornal Página 12 – Fala-se em quarentena e em isolamento social ou físico. Qual é a diferença entre esses termos?

Naomar de Almeida Filho – Isolamento social é um termo que não existia e, rigorosamente falando, não existe em epidemiologia. O isolamento físico de indivíduos infectados e contaminados é uma estratégia que faz parte da quarentena. O termo técnico é distanciamento social, um conceito originário da teoria matemática dos gráficos ou da teoria complexa das redes, tomada como uma medida de contenção ou mitigação da epidemia. O isolamento das pessoas em geral, não apenas os doentes, ou a redução drástica da mobilidade de todos ou de grupos selecionados, é diferente da quarentena que a China fez. O distanciamento social é uma maneira de reduzir, mas não suprimir, a transmissão da infecção; É uma medida que geralmente é implementada em países democráticos e com uma tradição de mobilidade de pessoas e respeito à individualidade. Há toda uma discussão sobre o que é mais ou menos eficaz. Na minha opinião, do ponto de vista epidemiológico, será muito difícil avaliar a eficácia ou efetividade de medidas como essas, que são medidas de intervenção social – da mesma maneira que se avaliam intervenções intracorpóreas ou farmacológicas, ou seja, com medicamentos ou manobras de prevenção individual.

Jornal Página 12 – Para a epidemiologia, qual é o momento ideal para terminar uma quarentena?

Naomar de Almeida Filho – Para a epidemiologia, a resposta é que para sair da quarentena precisamos de mais dados . Não sabemos muito em nossas sociedades sobre o comportamento do vírus em populações que têm um sistema imunológico completamente diferente das outras. De fato, as situações não podem ser transpassadas. Primeiro, precisamos produzir nossos próprios dados sobre a distribuição populacional. Segundo, precisamos de um sistema de teste rápido e abrangente, não para toda a população, mas em lugares onde a epidemia mais avançou. Como eu disse, tecnicamente, uma redução no contato social e uma quarentena não são a mesma coisa. O que temos como evidência é o que aconteceu na Itália, onde houve uma diminuição radical da mobilidade social e que permitiu que a epidemia chegasse a alguns lugares com menor intensidade e distribuição de casos ao longo do tempo. Foi lá que as pessoas começaram a falar sobre achatar a curva. Essa estratégia não evita o contágio, mas permite uma distribuição mais espaçada ao longo do tempo e evita curvas abruptas da epidemia. A primeira evidência de alguma eficácia nesse modo de resposta social foi a observação da epidemia no interior, em pequenas cidades da Itália.

Jornal Página 12 – O que observaram lá?

Naomar de Almeida Filho – Vimos o que chamamos de “modelagem”, isto é, modelos para prever epidemias. No momento, o mais conhecido desses modelos é o do Imperial College London. Segundo esse modelo, a estratégia de deixar a epidemia passar na sociedade para criar alguma imunidade natural é muito perigosa, devido à sobrecarga que pode causar nos sistemas de saúde. Alguns países que começaram a lidar com a proteção pandêmica com uma estratégia de reação natural, na tentativa de criar imunidade espontaneamente, agora estão adotando maneiras diferentes de produzir isolamento social. O último país a resistir a isso foi a meca do capitalismo mundial, os Estados Unidos. Pelo que vimos, foi uma decisão terrível. Sair da quarentena ou tornar o isolamento mais flexível, portanto, depende de muitas respostas e condições.

Jornal Página 12 – No mundo, a situação se complica mais pelos efeitos colaterais, tanto sociais quanto econômicos.

Naomar de Almeida Filho – Lamentavelmente sim. Como um conjunto de evidências mais macro-nacionais, estamos começando a falar sobre a possibilidade de que alguns países, como os Estados Unidos e o nosso, tenham um sistema de abertura e fechamento, uma espécie de pulsação da mobilidade social, até o ponto em que possam ser reduzidos os efeitos econômicos. Em outras palavras, um certo grau de transmissibilidade para que o país inteiro não seja aberto ao mesmo tempo nem o país inteiro seja fechado ao mesmo tempo. Em grande parte do mundo, é verdade que tornar a quarentena mais flexível, ou mais inflexível, responde mais às questões econômicas do que à preservação da saúde. Há uma questão política, que é a natureza do Estado de cada uma dessas nações. Se for um Estado com responsabilidade social para os cidadãos, tomará decisões que possam afetar a economia, mas cuja prioridade continuará sendo a saúde, e haverá outros Estados nos quais o mercado e a economia prevalecerão. Decisões políticas. Claramente, o sacrifício de vidas humanas e o sofrimento em estados como esses serão muito maiores do que as repercussões econômicas. O ponto é a liderança nacional para coordenar as medidas e a natureza delas. Nosso medo agora é uma “norte-americanização” da pandemia entre nós.

 Jornal Página 12 – Em que sentido “uma norte-americanização da pandemia”?

Naomar de Almeida Filho – No sentido de uma perda de controle da pandemia, a ponto de esgotar os recursos hospitalares e humanos, como o que acontece em Nova York, por exemplo.

Jornal Página 12 – Alguma coisa mudará em decorrência do coronavírus?

Naomar de Almeida Filho – Eu acho que duas coisas mudarão após a pandemia. Por um lado, haverá uma recuperação da noção de Estado como dimensão da história, como instrumento a serviço do ser humano, para que tenham maior capacidade de sobrevivência. Isso inclui o fortalecimento da noção de que a saúde é um direito do povo e um dever do Estado, com a expansão dos sistemas públicos de saúde em muitos países – com universalidade, qualidade e equidade. Por outro lado, acredito que os estados, que depois da Segunda Guerra Mundia se organizaram na rede supranacional que é a Organização das Nações Unidas (ONU),  e que nas últimas décadas começaram a questionar fortemente sua utilidade, agora começarão a reconhecer o valor da Organização Mundial da Saúde (OMS) e suas filiais. A pandemia demonstra a necessidade de uma governança internacional mais ampla, especialmente em questões como saúde, educação e sobrevivência planetária. Há muitos filósofos que escreveram dezenas de livros sobre o mundo pós-pandemia, alguns com visões utópicas, na esperança de que o individualismo, agora ameaçado pelo sentimento de finitude e vulnerabilidade, daria lugar a uma sociedade mais solidária e justa. Não sou tão otimista, pelo menos no horizonte temporal mais próximo.

 

Texto originalmente publicado em espanhol, no jornal Página/12. 

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