A carga da Covid-19 e o Presidente da República – Artigo de Reinaldo Guimarães

Recentemente, Esther Sabino, Nuno Faria e outros 17 autores publicaram em um repositório artigo¹ em que estimaram com precisão bem maior do que outros inquéritos sorológicos de base populacional a prevalência de anticorpos anti-SARS-CoV-2 nas cidades de Manaus e São Paulo. Usaram como estratégia a pesquisa de anticorpos em amostras de sangue doados a hemocentros. Entre inúmeros achados, mostraram que a prevalência de infectados em Manaus chegou a 66.1% (entre 60.8% e 79.9%) da população da cidade e cogitam que ali a chamada “imunidade de rebanho” foi atingida (diferentemente de São Paulo). Apontam também que, provavelmente, ela foi a responsável pela queda brusca de casos e óbitos em Manaus a partir de junho/julho, em função da diminuição da capacidade do vírus em encontrar suscetíveis. Mais do que qualquer outra capital, em Manaus a COVID-19 comportou-se segundo uma “proxi” do que seria sua “história natural” haja vista a inexistência de intervenções farmacológicas, a precariedade do sistema de saúde e, como no resto do país, a baixa adesão às medidas de isolamento. Em entrevista ao MIT Technology Review² Esther Sabino estimou a ocorrência de um óbito pela COVID-19 para uma faixa entre 500 e 800 habitantes da cidade.

O que justifica este meu comentário é que a estratégia de enfrentamento da pandemia propugnada pelo presidente da república tem sido exatamente deixar a “história natural” da doença seguir o seu curso até atingir a tal “imunidade de rebanho”. E que, se esse curso tivesse acontecido no padrão manauara em todo o país, o impacto da pandemia no Brasil teria sido muito maior. Segundo a proporção de óbitos na população sugerida por Sabino, a taxa de mortalidade em Manaus por COVID-19 (2,2 milhões de habitantes em 07/2020, segundo o IBGE) ficou entre 125 e 200 óbitos por 100.000 habitantes.

Em 28 de agosto o Brasil registrava 120.498 óbitos pela doença. Se o retrato da mortalidade de Manaus fosse expandido para o Brasil, na mesma época o país teria tido entre 264,7 e 423,6 mil óbitos, o que significa um “excesso” de entre 120% e 251% em relação ao observado pelo Ministério da Saúde. A estratégia do presidente, caso seguida por todo o país, teria produzido entre 144 e 303 mil óbitos a mais no país.

Essa extrapolação não cabe em um artigo científico e é de minha exclusiva responsabilidade, sem o aval dos autores do artigo. A estrutura populacional e a capacidade instalada do SUS e do subsistema privado no país são muito diferentes daquelas que se apresentam em Manaus. Mas, de qualquer modo é um exercício que tem a virtude de estimar a carga aumentada de sofrimento que poderia ter havido caso tivesse prevalecido a orientação negacionista e tresloucada do presidente da república.

¹ A notícia e comentários sobre o artigo encontram-se em: https://www.technologyreview.com/2020/09/22/1008709/brazil-manaus-covid-coronavirus-herd-immunity-pandemic/?utm_source=Nature+Briefing&utm_campaign=7eed7a384f-briefing-dy-20200923&utm_medium=email&utm_term=0_c9dfd39373-7eed7a384f-45602242

² O artigo encontra-se em: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.09.16.20194787v1.full.pdf

*Reinaldo Guimarães é médico, professor do Núcleo de Bioética e Ética Aplicada da UFRJ e vice-presidente da Abrasco.

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