Avião agrícola despeja agrotóxico em escola. Abrasco lembra a devastação do produto.


Alguém ainda acha que agrotóxico não faz mal? No último dia 03 de maio, dezenas de alunos e alguns professores ficaram intoxicados após um avião agrícola sobrevoar uma escola pública localizada no Assentamento Pontal dos Buritis, às margens da GO-174, em Rio Verde, no sudoeste de Goiás. Ao serem socorridas, demonstraram fortes sinais de intoxicação. A Campanha Contra os Agrotóxicos mostra que, nos últimos três anos, o Brasil vem ocupando o lugar de maior consumidor de agrotóxicos no mundo. Os impactos à saúde pública são amplos porque atingem vastos territórios e envolvem diferentes grupos populacionais, como trabalhadores rurais, moradores do entorno de fazendas, além de todos nós que consumimos alimentos contaminados.

Para o Coordenador do GT de Saúde e Ambiente da Abrasco, Fernando Carneiro, o caso de Rio Verde é “mais uma grave situação onde crianças tomam um ‘banho de agrotóxicos’ em nosso país em função da pulverização aérea”. Carneiro lembra ainda que a Abrasco, desde 2010, vem publicando moções em seus congressos pedindo o fim da pulverização aérea em função dos diversos problemas já ocorridos no Brasil, que já estão bem documentados no Dossiê Abrasco: Um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde. “Essa forma de aplicação responde por 30% do uso de agrotóxicos no Brasil e representa o setor “mais moderno” do agronegócio”, alerta Carneiro.

Carneiro revela ainda que um pesquisador da Embrapa, colaborador do Dossiê e presidente do Sindicato dos Servidores do mesmo órgão, está sendo ameaçado pela direção da empresa em função da produção de vídeos que denunciam as condições de trabalho dos seus servidores.

Confira abaixo a matéria do Portal G1 sobre o acidente, a matéria com a denúncia do SIMPAF, o documentário A Vida não é experimento, e clique para ler a Nota de Repúdio à pulverização de uma escola em Rio Verde, Goiás

Avião agrícola sobrevoa escola e intoxica dezenas de crianças, em GO

Publicado Sexta-feira, 03 de Maio de 2013 no site G1 de Goiás.

Aeronave estava fazendo pulverização em lavoura no sudoeste goiano. Cerca de 120 alunos estudam na unidade; pelo menos 40 foram internados.

Dezenas de alunos e alguns professores ficaram intoxicados após um avião agrícola sobrevoar uma escola pública localizada no Assentamento Pontal dos Buritis, às margens da GO-174, em Rio Verde, no sudoeste de Goiás, na manhã desta sexta-feira (3). A aeronave estava realizando o trabalho de combate às pragas em uma lavoura utilizando um inseticida chamado engeo pleno, segundo informações do Corpo de Bombeiros. No momento do sobrevoo, 122 crianças estudavam nas salas de aula, informou o coronel do Corpo de Bombeiros de Rio Verde, Cléber Cândido.

De acordo com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), até o final desta manhã, 42 crianças tinham sido encaminhadas para o Hospital Municipal de Montividiu intoxicadas. Destas, 28 continuavam internadas no início desta tarde, em estado regular. Segundo o Samu, diversos alunos estavam vomitando e sentido tonturas e fortes dores de cabeça, que segundo o órgão, é comum em casos de intoxicação.

O Samu informou ainda que as outras crianças e os professores intoxicados foram atendidos no local e, logo em seguida, liberados. Alguns foram socorridos pelos próprios pais e moradores da região.

O coronel Cléber Cândido explicou que autoridades de saúde de cidades de Paraúna, Rio Verde e Montividiu se organizaram para reforçar o atendimento às crianças, mas apenas Montividiu recebeu os alunos intoxicados até o momento.

A produção da TV Anhanguera tentou entrar em contato com os proprietários da fazenda onde a pulverização estava sendo feita, em Paraúna, mas eles não atenderam às ligações.

Fiscais da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) estão na escola investigando o caso.

 

Embrapa tenta impedir vídeo que denuncia violação de direitos

Publicado quinta, em 02 de maio de 2013, pela jornalista Waleiska Fernandes, do SIMPAF:
Notificação avisa que presidente do SINPAF pode ser responsabilizado civil e criminalmente se prosseguir com a divulgação do documentário A Vida não é Experimento. Direção da Embrapa tenta censurar denúncia.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) entregou na sede do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (SINPAF) uma notificação tentando impedir o SINPAF de lançar e divulgar o documentário A Vida não é Experimento, no qual denuncia graves violações de direitos trabalhistas, além de assédio moral praticado contra trabalhadores da empresa. O lançamento aconteceu na última sexta-feira (26), às 12h, como parte da programação da 16ª Plenária Nacional do SINPAF.

Antes de programar o lançamento de A Vida não é Experimento, a Direção Nacional do Sindicato entregou uma cópia do documentário para o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, no dia 17 de abril, em reunião que tiveram para tratar de melhorias para a categoria. Na ocasião, o presidente do SINPAF, Vicente Almeida, fez questão de ressaltar que esperava que aquela realidade retratada no documentário, fosse um episódio para ficar no passado da Embrapa. Até o lançamento não houve, porém, nenhuma manifestação oficial por parte da empresa para tratar do assunto.

Retaliação: Foi com surpresa que o presidente do SINPAF recebeu a notificação de ameaça da Embrapa de que pode ser responsabilizado civil e criminalmente se prosseguir com a divulgação do documentário. “Fica o senhor na condição de presidente e representante legal do Sinpaf NOTIFICADO a não proceder a divulgação do referido vídeo, seja na Plenária Nacional do Sindicato, no site ou em qualquer outro órgão de comunicação sob pena de responsabilidade pessoal nas áreas cível e criminal”, diz o documento em papel timbrado da empresa e assinado pelo chefe de Gabinete do Presidente, Gerson Soares Alves Barreto.

As ameças ao Sindicato: Entre as alegações para a tentativa de cerceamento do Sindicato, está a de que os testemunhos que constam no vídeo “não parecem condizer com verdade e que sua divulgação pode trazer sérios prejuízos à imagem e ao conceito que a Embrapa alcançou durante esses 40 anos”.

Para Vicente Almeida, a postura da empresa surpreende, sobretudo, porque o SINPAF acredita que não é dessa Embrapa que o Brasil se orgulha e nem é essa a empresa que os brasileiros querem ver nos próximos 40 anos. “Quando tivemos a postura de entregar o documentário antes de tudo para o presidente da empresa foi na tentativa de alertá-lo para as graves violações que estão acontecendo em alguns campos experimentais da Embrapa. Esperávamos da empresa uma postura de parceria pra corrigir essas distorções e não, de retaliação. Não vamos nos calar. São vidas correndo risco e isso vale muito mais do que possíveis prejuízos à imagem de uma empresa”, declarou o presidente do SINPAF.

O documentário traz depoimentos dramáticos de trabalhadores dos campos experimentais da Embrapa Amazônia Ocidental, vítimas de acidentes de trabalho e de violações de direitos trabalhistas e que acusam a empresa de não reconhecer tais problemas. Traz ainda depoimentos de trabalhadores da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), vítimas de assédios moral.

Denúncia à OIT: Em agosto de 2012, o SINPAF encaminhou à Organização Internacional do Trabalho denúncia sobre a existência de trabalho degradante e análogo à escravidão nas dependências da Embrapa, em Manaus. A denúncia tem como base o Código Penal Brasileiro, em seu Art. 149, que define trabalho análogo à condição de trabalho escravo submeter alguém ao trabalho forçado ou jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto. O documento encaminhado à OIT se baseia na Convenção nº 29 da Organização Internacional, que define trabalho forçado ou obrigatório como “todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo sob a ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu de espontânea vontade”.

O Brasil é signatário da OIT e o que torna a denúncia apresentada pelo SINPAF ainda mais grave é o fator de se tratar de empresas públicas – vinculadas ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento –, que deveriam, por estatuto, oferecer condições dignas de trabalho e de respeito a quem produz conhecimento, bem como valorizar a livre expressão do pensamento científico, no lugar de censurá-lo.

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