A hora e a vez de Marcus Matraga: violência no campo e os conflitos agrários da Bahia


Seis meses após o assassinato do professor Marcus Vinicius de Oliveira Silva – Marcus Matraga, aos 57 anos, o crime permanece sem resolução. De acordo com a Polícia Civil, o inquérito policial está em processo de finalização e deverá ser entregue ao Ministério Público em breve. Até o momento, nenhum suspeito foi preso, nem foi confirmada qualquer linha de investigação. A delegada de Jacuípe, Ivete Braga, confirmou as informações. Conforme o Código de Processo Penal, o inquérito policial precisa ser concluído em até trinta dias. Em casos mais complicados, um juiz pode determinar um prazo maior. Segundo a delegacia de Jaguaripe, dois homens foram até a casa do professor, por volta das 19h00 do dia 4 de fevereiro, e disseram que uma amiga dele passava mal. Um dos suspeitos se identificou como neto da mulher. Ao sair de casa para prestar socorro à amiga, o professor foi rendido e levado de carro até uma estrada de terra do povoado. Lá, ele foi executado com um tiro na cabeça. Nos últimos anos, Marcus mediava conflitos de terra entre indígenas e fazendeiros. A polícia não confirmou a hipótese da morte ter relação com esses conflitos.

Professor aposentado do curso de Psicologia da Universidade Federal da Bahia, Marcus Matraga, como era conhecido, foi um importante militante da luta antimanicomial no país. Ele foi assassinado no dia 4 de fevereiro, em Pirajuí, distrito do município de Jacuípe. Nesta quarta-feira, 31 de agosto, a Universidade promoveu o seminário “A hora e a vez de Marcus Matraga: a violência no campo e os conflitos agrários no Estado da Bahia”, que busca evidenciar o contexto de conflito agrário agravado após a morte do professor. O seminário foi aberto pelo reitor João Carlos Salles. A programação contou ainda com um espaço de memória da militância de Matraga no campo dos Direitos Humanos e da Luta Antimanicomial, com a presença de Marta Elizabete de Souza, militante da Rede Internúcleos da Luta Antimanicomial – Renila.

A homenagem foi encerrada com uma mesa redodnda sobre o contexto de violência associado ao assassinato do professor, assim como às comunidades tradicionais pesqueiras. Foram convidados o secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa, familiares de Matraga, o coordenador do projeto Maricultura Familiar Solidária (Marsol), Miguel da Costa Accioly, além de Elionice Sacramento, representante do Movimento de Pescadores e Pescadoras da Bahia. Para que o crime não seja esquecido, amigos e familiares do professor, com o apoio de instituições, vêm tomando iniciativas como a entrega de uma carta a autoridades, uma sessão especial da Câmara de Vereadores, além de manifestações.

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva acompanha com tristeza e indignação, o inquérito sobre o assassinato de Marcus Vinicius de Oliveira. Sabemos que Matraga foi vítima de homicídio em função de sua atividade política na mediação de conflitos de terras indígenas. Manifestamos a nossa profunda preocupação com os casos de assassinatos, agressões e expulsões relacionados aos conflitos por terras indígenas na Bahia e continuamos exigindo que o Ministério da Justiça atue na apuração desse crime político.

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