Marcha Pela Vida: em defesa do SUS, da ciência e da democracia

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Nas cinco regiões do país, instituições de referência para as políticas públicas e os direitos humanos uniram-se em uma grande marcha virtual no dia 9 de junho. A #MarchaPelaVida reuniu mais de 500 entidades, além de movimentos sociais, artistas, ativistas e intelectuais com objetivo de cobrar respostas do poder público e sensibilizar a população para reivindicar políticas sociais de enfrentamento ao coronavírus em torno de seis porntos: a vida, a saúde e o SUS; a solidariedade; a preservação do meio ambiente, a ciência e educação; e a democracia. Foi um dia inteiro de atividades, com forte presença da Abrasco em toda a condução do processo, na perspectiva de ampliar as articulações do movimento científico da Saúde Coletiva e da Reforma Sanitária Brasileira com importantes setores da sociedade civil como um todo.

Em cerca de 10 dias, o movimento ganhou forma. Do lançamento, em 29 de maio, até 9 de junho, mais de 500 entidades apoiaram a causa e, cada uma ao seu modo, se envolveram em torno da ideia.

Pela manhã, diversas atividades foram organizadas por algumas dessas entidades, com autononia e em diálogo com os 6 pontos da Declaração da Marcha. Liderada pela Rede de Pesquisas em Atenção Primária à Saúde (Rede APS) e Abrasco, com o apoio do Cebes, o 2º Seminário de Experiências na APS reuniu gestores de diferentes áreas da saúde dos municípios de Belo Horizonte (MG), Florianópolis (SC), Niterói (RJ), Sobral (CE) e Rio de Janeiro (RJ). – Confira a cobertura especial

Ainda pela manhã, a Sociedade Brasileira Pelo Progresso da Ciência (SBPC) organizou o painel  “As ciências e a Vida”,  com participações de cientistas de diferentes nove áreas disciplinares do conhecimento, como biologia, antropologia, medicina, filosofia, psicologia e neurociências. Pela saúde coletiva, participou o abrasquiano Maurício Barreto, que também compôs o time do painel “Fiocruz na Marcha Pela Vida: Desafios de hoje e de amanhã”, organizado pela Fundação Oswaldo Cruz. – Confira a cobertura especial

Ao fim das atividades da manhã, um tuitaço movimentou essa rede social e mostrou a capacidade de agregação de forças da sociedade civil, registrando as hashtags #MarchaPelaVida e #FrentePelaVida entre os tópicos mais comentados do dia –  foi o quinto assunto mais comentado – e cumpriu o objetivo de chamar a atenção para o fortalecimento dos valores fundamentais para que a sociedade brasileira tenha condições de enfrentar a pandemia de coronavírus.

À tarde, as entidades realizaram conjuntamente duas transmissões. A presidente da Abrasco, Gulnar Azevedo, coordenou a primeiro ato político da Marcha. Em sua fala, Gulnar ressaltou que “lutar pela vida significa seguir a Ciência e fortalecer o SUS, garantindo equidade e acesso universal. Tudo pode ser recuperado, inclusive a economia, a única coisa que não tem volta quando perdemos é a vida”.

Para Fernando Pigatto, presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), “não podemos ficar parados, por isso seguimos em marcha, exigindo do governo e fazendo nossa parte para destruir o seu projeto de morte. As vidas não são apenas números, elas valem mais”. Dom Walmor de Oliveira, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em vídeo, disse que “marchar pela vida é o convite que deve ecoar no coração de nós todos, enfrentando a cultura de morte”.

Populações vulnerabilizadas sofrem mais

As vidas da população negra e de outros segmentos vulnerabilizados não podem ser esquecidas, pois são os que mais sofrem em contexto de crise, afirmou Lúcia Souto, presidenta do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). “A vida e a democracia estão sendo afrontadas. A desigualdade do Brasil é imoral, baseada numa matriz da escravidão. É inadmissível. Precisamos distribuir a riqueza produzida por todos os brasileiros. É inaceitável o racismo estrutural que permeia a sociedade brasileira”. Dirceu Greco, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB), complementou. “Essa disparidade foi ainda mais escancarada pela pandemia”.

Somaram-se ainda outras entidades nacionais parceiras ao momento. José Carlos Dias, presidente da Comissão Zilda Arns, afirmou que “o momento exige a superação das diferenças e união de todos os democratas pela restauração da paz e da economia”. Para ele, “não devemos nos intimidar, nem perder a esperança”. Socorro Gross Galiano, representante da Organização Pan-Americana no Brasil (Opas), defendeu o controle social. “O direito à participação social é pilar fundamental da construção coletiva das políticas de Saúde”.

Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) disse que “a batalha que estamos travando não é a marcha dos soldados, é a marcha da cidadania contra o abandono da Ciência e o discurso preconceituoso, isolacionista e terraplanista que vem ganhando assustadora força no nosso país”.

SUS contra a necropolítica

Após a fala dos presidentes das entidades, uma série de depoimentos de importantes lideranças das mais diversas áreas foram transmitidas. Um dos depoentes foi José da Rocha Carvalheiro, médico sanitarista, Professor da Faculdade de Medicna de Ribeirão Preto (FMRP/USP) e atualmente professor colaborador Instituto de Estudos Avançados da USP. Carvaheiro presidiu a Abrasco de 2006 a 2009 e fez uma remomoração do papel do SUS como materialização do direito à saúde e à vida. “Temos de estar atentos ao desmanche do nível central do Sistema Único de Saúde”.

Jurema Werneck, diretora da Anistia Internacional no Brasil, lembrou que “as pessoas em favelas, em situação de rua, pessoas em privação de liberdade, mulheres, povos indígenas, comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais, trabalhadores informais, LGBTQI+”, dentre outros segmentos vêm sendo gravemente afetados nesse momento.

O médico Drauzio Varella, em depoimento gravado, afirmou que a Covid-19 no Brasil poderia ser ainda pior se não fosse o SUS. “Sem o SUS viveríamos uma barbárie. É o maior sistema de Saúde do mundo. É o grande programa de distribuição de renda. É o que permite defender a vida dos brasileiros agora. O SUS não é perfeito, tem problemas de gestão, de financiamento, de troca de ministro de Saúde como se troca de camisa, mas o SUS melhorou desde o início da epidemia até agora. Que fique essa lição para quando a epidemia terminar. O SUS ainda é vilipendiado pelos brasileiros e é injusto”.

Deborah Duprat, que recentemente deixou a titularidade da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC/MPF), trouxe à tona o conceito de “necropolítica”, referenciando o teórico Achille Mbembe. “Estão apostando numa política de eliminação de vidas, numa escala ascendente de pobreza e miséria extrema, voltando o país para o Mapa da Fome. A pandemia torna mais evidente essa política, num estado precarizado em investimento em Saúde”, criticou.

Parlamentares recebem manifesto

Um ato político com a presença de diversos parlamentares também foi realizado e uma marcha simbólica ao Congresso Nacional por meio de um app. As atividades encerraram com um coral que uniu diversos artistas em um canto coletivo virtual (foto principal). O deputado Marcelo Freixo ressaltou a desigualdade do país como principal elemento a ser combatido: “O que mata mais na pandemia é a desigualdade. Não investimos o que deveríamos no SUS segundo a constituição. E sabemos que o isolamento é diferente e mais difícil em lugares mais pobres”. Por vídeo, o governador do Maranhão, Flávio Dino, falou de 3 pontos fundamentais: “A vida é bem supremo. Por isso devemos cuidar dela e hoje tem 3 dimensões para fazer isso: a defesa do SUS, a defesa dos direitos econômicos e sociais e a defesa da democracia e das liberdades civis que estão ameaçadas pela facção política do presidente”. Participaram também os deputados Alexandre Padilha; Carmen Zanotto; Francisco Júnior; Margarida Salomão e Marcelo Freixo; e os senadores Confúcio Moura e Izalci Lucas.

Encaminhamento

A FrentePelaVida vai continuar reverberando seus princípios e valores declarados no manifesto da #MarchaPelaVida. As entidades envolvidas seguirão com ações concretas de enfrentamento à crise social, política e econômica em todos os estados brasileiros. Outras entidades podem se somar à frente por meio do site.

Assista às transmissões

Marcha pela Vida -13h: Apresentação das entidades e painel de depoimentos

Marcha pela Vida -16h: Ato político com apresentação pública da Declaração a parlamentares

Marcha pela Vida – 18h: Programação cultural

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