José da Rocha Carvalheiro fala sobre vacina, populismo sanitário e isolamento vertical

Pesquisador do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz) e Presidente da Abrasco entre 2006 e 2009, José da Rocha Carvalheiro concedeu entrevista ao Blog Inconsciente Coletivo do jornal O Estado de S. Paulo sobre vacina, populismo sanitário e isolamento vertical no contexto da pandemia do coronavírus. Na conversa,  as questões científicas foram entrelaçadas com os debates políticos e sociais que têm envolvido a resposta à pandemia.

Carvalheiro apontou as etapas necessárias para a produção de uma vacina, com testes em grupo de pessoas durando alguns meses, em seguida verificar a produção de anticorpos e se ela realmente protege. Essa segunda etapa contém a verificação de quantas pessoas ficaram imunes com o produto. Pro fim, seria a etapa de efetividade, para ver se você reduz a incidência. Com relação à Covid-19, José Carvalheiro ressalta que “estamos tão afastados dessa realidade, que não temos hoje nenhum quadro rigoroso a respeito de como evolui essa doença na população”.

Diante dessa dificuldade de ter um mapeamento preciso sobre todos os estágios da doença, Carvalheiro aponta que “temos discutido com maior intensidade os procedimentos extra-farmacológicos de comportamentos, relacionamento entre as pessoas e o que se pode fazer para conter o processo”. Além disso, o professor apontou também a importância da testagem e o trabalho realizado pelos pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com inquéritos domiciliares fazendo testes de detecção de anticorpos. Para se ter ideia, a primeira amostra da UFPel apontou que há sete vezes mais casos do que os notificados na região pesquisada.

As medidas de isolamento também foram abordadas durante a entrevista. Carvalheiro debateu questões como lock down, isolamento vertical e as medidas ética e juridicamente possíveis para tais situações. Além disso, o professor considera haver uma banalização do termo “imunidade de rebanho”, ele aponta que isso é uma categoria de análise para definir uma estrutura epidemiológica. Carvalheiro aponta que, “se não houver testes em massa, essa categoria vira fictícia”. Seria necessário conferir e ter um grau de “70%, 80% de pessoas já imunizadas, pois aí haveria dificuldade passar de uma pessoa pra outra pois haveria os imunes no meio.”

Carvalheiro também falou sobre as questões políticas e apontou qu o atual Ministro da Saúde, Nelson Teich não tem experiência em lidar com SUS: “ele é um empresário de sucesso no ramos dele da saúde”. Além disso, apontou que o SUS é uma “vitória da população que nem os Estados Unidos possuem um sistema assim”.

Por fim, a entrevista abordou a perseguição e as ameaças que cientistas têm sofrido ultimamente. Carvalheiro apontou que a questão é um perigo perigo e que vem do populismo conservador de direita. O professor destacou que a fala de líderes conservadores, inclusive do presidente da República do Brasil, têm estimulado tal postura e demonstram que há interesses nesse debate que não são os da ciência, mas das relações do capital. Assista abaixo à entrevista na íntegra e conheça mais o canal do Blog Inconsciente Coletivo. 

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