Não são as mulheres que estão falhando na ciência. É a ciência que está falhando com as mulheres – artigo de Lorena Rivera León

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Cientistas mulheres são mais produtivas do que seus colegas homens, no entanto, elas são largamente percebidas como menos produtivas do que eles. Cientistas mulheres também são menos premiadas por suas descobertas científicas.

Essas afirmações estão de acordo com o recente estudo “Uma investigação econométrica sobre a lacuna na produtividade de gênero na pesquisa mexicana, e um estudo de simulação sobre os efeitos da performance científica em cenários de políticas de promoção de equidade de gênero”, desenvolvido pela minha equipe de pesquisa para a United Nations University – Maastricht Economic and Social Research Institute on Innovation and Technology (UNU-MERIT) – e publicado como artigo em dezembro de 2016.

O estudo, parte do projeto “Lacunas na questão de gênero em Ciência, Tecnologia e Inovação e seus custos na Economia da América Latina e Caribe”, é financiado pelo Fundo de Gênero e Diversidade do Banco de Interamericano Desenvolvimento (BID).

O “quebra-cabeça da produtividade”: O estudo, no qual foi observado o status de pesquisadoras em 42 universidades públicas e 18 centros públicos de pesquisa mexicanos, alguns administrados pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia do México (CONACYT), centrou atenção em uma questão que precisa ser amplamente investigada: por que cientistas mulheres são consideradas menos produtivas do que os cientistas homens na maioria das disciplinas acadêmicas e que medida de produtividade é usada para esta afirmação?

A existência desse “quebra-cabeça da produtividade” é bem documentado da África do Sul à Itália, mas poucos estudos identificaram suas possíveis causas.

Nossas descobertas mostram que, no México, pelo menos, a premissa do “quebra-cabeça da produtividade” é falsa quando temos controle dos fatores como os rankings de promoção por antiguidade e desempenho.

Usando modelos econométricos, incluindo várias macro simulações para entender os custos sobre as lacunas de gênero no sistema acadêmico mexicano, nosso estudo delimitou-se nos pesquisadores que fazem parte do Sistema Nacional de Investigadores do México.

Nós descobrimos que a produtividade das mulheres é de maior qualidade do que a dos homens, comumente publicando em periódicos de maior prestígio e de maior impacto em seus campos de conhecimento. Além disso, apesar da crença comum de que a maternidade torna as mulheres menos produtivas em períodos-chave de suas carreiras, as pesquisadoras de fato têm apenas entre 5% a 6% mais anos não produtivos do que os homens. Nos níveis seniores, a diferença cai para 1%.

Não obstante, nos centros de pesquisa e universidades em que pesquisamos, cientistas mexicanas encaram consideráveis barreiras para seus sucessos. Nos centros de pesquisa públicos, mulheres têm 35% menos chances de serem promovidas, e os rankings de pesquisadores seniores foram preenchidos por 89% de homens em 2013, enquanto as equipes são compostas de 24% de mulheres nos grupamentos científicos superiores e de 33% de mulheres nos staffs não-superiores. As universidades públicas apresentam um resultado levemente melhor: cientistas mulheres têm 22% menos chance de serem promovidas do que homens.

No geral, 89% de todas as cientistas mulheres de nossa amostra nunca alcançaram os grupos seniores no período da pesquisa (de 2002 a 2013).

De alguma maneira, esses dados não são surpreendentes. O México pontua na 66ª colocação do total de 144 países que compõem o relatório global “Lacunas de gênero – 2016”, do Fórum Econômico Mundial e em um relatório de 2015 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que mostrou que, entre a maioria dos países, o México é a nação que tem a maior lacuna de gênero nos índices de participação no mercado de trabalho.

Alguns esforços foram tomados para impulsionar a equidade de gênero na pesquisa científica. Em 2013, o México alterou quatro artigos de sua Lei de Ciência e Tecnologia para promover a igualdade de gênero, acrescentando dispositivos para promover uma participação mais equilibrada entre os gêneros nos fundos públicos dos institutos de educação superior e coletando informações específicas para medir os impactos da questão de gênero nas políticas de ciência e tecnologia.

Muitos centros de pesquisa administrados pelo CONACYT lançaram iniciativas para promover a igualdade de gênero em suas equipes, mas a maioria são programas internos e limitados a treinamentos anti-discriminatórios e contrários ao assédio sexual.

Os programas mais efetivos incluem o programa de formação do Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social, em colaboração com o CONACYT, e a ação da Comissão Nacional de Desenvolvimento dos Povos Indígenas para promover a educação superior entre mulheres indígenas; além de políticas para ampliar a participação de mulheres nos rankings acadêmicos e de gerenciamento do Instituto Tecnológico CIATEQ -este último também oferece subsídios para creches às mulheres que são mães nas suas equipes.

Mas esses exemplos são raros. No geral, mulheres que esperam crescer na academia mexicana devem trabalhar duro e produzir mais do que seus colegas do sexo masculino para serem consideradas aptas a serem promovidas aos níveis superiores.

A persistência dessa iniquidade traz implicações não apenas para as mulheres, como também para a produção científica dos países. Se o México eliminasse a iniquidade de gênero nas promoções, o sistema nacional acadêmico daquele país veria um incremento de 17% a 20% de artigos publicados pelo sistema de avaliação por pares.

Teto de vidro global: O México não está sozinho. Pesquisas anteriores a nossa na França e na África do Sul utilizando o mesmo modelo econométrico descobriram que as iniquidades de gênero também impedem que as mulheres sejam promovidas nos sistemas acadêmicos daqueles países.

Examinando o trabalho de físicos do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e nas universidades públicas francesas, nós aprendemos que as mulheres físicas do CNRS são tão ou mais produtivas do que seus colegas homens. Ainda que elas tenham 6,3% menos chance de serem promovidas no CNRS e 16,3% nas universidades. Isto é notável para um país que aparece na 17ª posição do ranking de equidade de gênero do Fórum Econômico Mundial.

Na África do Sul, a raça desempenha um papel importante na explicação da iniquidade de gênero na ciência. Examinando os percursos de carreira dos pesquisadores de 2002 a 2011, nós observamos que não existe grande diferença no padrão de promoção por gênero entre os pesquisadores brancos. Cerca de 60,1% dos pesquisadores homens brancos não são promovidos (mesmo nos casos em que eles se aplicaram em processos seletivos de promoção), próximo se comparado aos 60,6% de não-promoção de pesquisadoras mulheres brancas no mesmo período. Mas essa lacuna aumenta dramaticamente quando você contabiliza pela etnicidade. 70,4% dos pesquisadores homens não-brancos e 69,2% das pesquisadoras mulheres não-brancas não são promovidos.

No Uruguai, o mesmo projeto do BID sobre lacunas de gênero identificou também um teto de vidro. As mulheres são sub-representadas nos níveis acadêmicos superiores e têm 7,1% menos probabilidade do que os homens de serem promovidas aos níveis seniores.

Tanto no México como no Uruguai, tanto na França como África do Sul, o que está em jogo é o ciclo vicioso entre promoção e produtividade: ter dificuldades em ser promovida reduz o prestígio, a influência e os recursos de pesquisa disponíveis. Por sua vez, esses fatores podem provocar para uma menor produtividade, o que reduz as chances de promoção.

Essa causalidade de mão dupla cria um tipo de viés de endogeneidade ao incluir a antiguidade como uma variável para explicar a produtividade em um modelo econométrico. Somente quando controlamos isso, assim como para um viés de seletividade (isto é, publicando ocorrência), descobrimos que as pesquisadoras são mais produtivas do que seus colegas homens. Sem essas correções, um hiato da produtividade de gênero de 10% a 21% aparece a favor dos homens.

O resultado é que as mulheres não estão falhando na ciência como comumente é pensado, mas, ao contrário, as evidências mostram que, em todo o mundo, é a ciência que está falhando com as mulheres. Ações devem ser tomadas para garantir que as pesquisadoras tenham tratamento justo, sejam reconhecidas por seus trabalhos e promovidas quando elas assim merecerem.

Lorena Rivera León é economista de origem belgo-mexicana e pesquisadora associada da United Nations University – Maastricht Economic and Social Research Institute on Innovation and Technology (UNU-MERIT). Ela concluiu seu mestrado junto ao departamento de Economia da University of British Columbia, no Canadá, e na Université Pierre-Mendès-France. Seus interesses de pesquisa concentram-se em economia da ciência nos países em desenvolvimento, particularmente na compreensão dos determinantes de gênero na produtividade científica. Ela recebeu financiamento do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia do México (CONACYT) entre 2011 e 2015 para a conclusão desta pesquisa, que não possui conflito de interesses, conforme declarado pela autora. Este artigo foi publicado originalmente no site The Conversation – EUA, em 22 de fevereiro de 2017. Confira aqui a versão original. Livre tradução de Bruno C. Dias.

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