Sociedades científicas cobram embasamento científico das ações da União

Vinte entidades e sociedades da área de saúde do País, numa iniciativa coordenada pela Sociedade Brasileira de Virologia (SBV) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), enviaram carta à Presidência da República em 3 de abril, solicitando a defesa clara da manutenção do isolamento social para o enfrentamento à pandemia da Covid-19 e a significativa ampliação do número de testes diagnósticos. A Abrasco é uma das associações científicas que endossa o documento.

O texto reapresenta o objetivo do isolamento em reduzir a velocidade de contaminação da população, evitando e postergando uma sobrecarga do sistema de saúde, ressaltando que os países não cumpridores da estratégia assistem agora a um quadro desastroso da pandemia em seus territórios, com dezenas de milhares de pacientes infectados e mortos pela doença. Destaca também a necessidade de um esforço conjunto numa mesma direção, unindo ações dos governos federal, estaduais e municipais, do Ministério da Saúde, dos médicos e profissionais da saúde e dos pesquisadores, motivando e empenhando assim o conjunto da população.

“É de extrema importância que V.Ex.ª, neste momento de crise, embase as decisões que lhe competem como Chefe da Nação, no aconselhamento dos especialistas da área da saúde e na melhor ciência disponível sobre o tema” encerra a carta.  A manifestação das entidades ganhou destaque nos veículos de comunicação, como no portal de notícias UOL. Leia abaixo na íntegra, ou acesse o PDF.

Senhor Presidente,

Vimos solicitar, por meio desta carta, a revisão do seu posicionamento e a defesa clara da manutenção do isolamento social para o enfrentamento à pandemia da COVID-19. O perigo representado por ela é real e talvez seja o maior desafio sanitário desta geração, como já reconhecido recentemente pelo Comandante do Exército Brasileiro e, em 31 de março passado, por Vossa Excelência. Como médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos e outros profissionais de saúde, bem como pesquisadores de todas as áreas de conhecimento, estamos ativamente engajados na batalha contra esta pandemia. Nossas atividades vão desde a atuação dos bravos profissionais na linha de frente do atendimento, expostos ao risco diário, em condições precárias e com falta de equipamentos de proteção individual, até cientistas, técnicos e estudantes que atuam diuturnamente para contribuir com o diagnóstico laboratorial e buscar opções terapêuticas para o combate à COVID-19.

A transmissão sustentada do novo coronavírus (SARS-CoV-2) é, hoje, uma realidade em todo o território nacional. Como ainda não há tratamento com comprovada eficácia para o vírus, nem a perspectiva da produção de uma vacina a curto prazo, restam-nos as medidas de higiene pessoal e de isolamento social para a prevenção do contágio. Em todos os países em que há transmissão comunitária desse vírus, a combinação da quarentena, do isolamento social mais abrangente possível e da ampla testagem diagnóstica da população está demonstrando ser a ferramenta mais adequada para a contenção da disseminação do coronavírus.

O isolamento social tem por objetivo reduzir a velocidade de contaminação da população e a sobrecarga do sistema de saúde, já que o contato social leva muitas pessoas a adoecer em um curto período de tempo e provoca grande ocupação de leitos, especialmente em Unidades de Terapia Intensiva. O resultado desse processo será o provável colapso do nosso Sistema de Saúde, como já foi previsto pelo Ministro da Saúde, Dr. Luiz Henrique Mandetta.

Com os dados coletados no Brasil e em outros países, hoje está claro que, embora a letalidade seja mais alta em idosos, esta não é negligenciável em adultos abaixo de 60 anos e casos graves e óbitos têm ocorrido mesmo em jovens e crianças. Devemos ressaltar que o perfil epidemiológico do novo coronavírus (SARS-CoV-2) no território brasileiro se diferencia dos países do Hemisfério Norte, com o acometimento da população abaixo de 60 anos em quase 50% dos casos confirmados até o momento.

O isolamento social pode ser também vital à recuperação econômica no período pós-pandemia. Para que haja recuperação, teremos de ter trabalhadores. Para que haja futuro, precisamos de nossos jovens. Para que haja sabedoria, precisamos de nossos idosos. Há ainda que considerar que os indivíduos recuperados de casos de pneumonia podem ter sua capacidade laboral impactada, temporária ou permanentemente, haja vista que a presença de sequelas, com a perda da capacidade pulmonar, já foi relatada em estudos recentes.

Os países que defenderam anteriormente um distanciamento social limitado, como Itália, EUA e Inglaterra, assistem agora a um quadro desastroso, com dezenas de milhares de pacientes infectados e mortos pela doença, além de hospitais sem insumos (materiais e humanos) suficientes para o combate ao coronavírus. Apenas após a mudança de conduta, tais países começaram a vislumbrar alguns sinais de controle da pandemia. Manter o isolamento social com a paralisação das atividades não essenciais é uma medida dura, mas necessária. É uma recomendação da OMS, das entidades científicas e médicas brasileiras e internacionais, assim como de governadores e prefeitos. Vale notar que essas medidas, baseadas em evidências científicas, foram testadas e aprovadas nos países que até este momento conseguiram os melhores resultados na luta contra a pandemia.

Outra iniciativa importante é a busca da ampliação significativa do número de testes diagnósticos, visando não só o devido acompanhamento e tratamento dos indivíduos infectados, bem como atestar a segurança dos cidadãos recuperados para retorno às suas atividades. Muitos testes serão também necessários para organizar de forma adequada a saída do isolamento social. Ela exigirá esforços de todo o sistema de saúde, com monitoramento de casos, diagnóstico e contenção de novos focos de infecção, possibilitando, assim, à população um retorno às suas atividades de forma mais segura. Será também importante a testagem ampliada com testes sorológicos de alta sensibilidade, cujo objetivo será acompanhar o estado imunitário da população em geral, informação muito importante para orientar as medidas gerais frente à pandemia. Esses testes sorológicos deverão também ser utilizados no pessoal de saúde, com vistas ao seu afastamento ou não nas linhas de frente do cuidado.

Vivemos, no momento, uma crise anunciada de saúde pública de grandes proporções. A vida dos brasileiros, independentemente de suas faixas etárias, sociais ou profissão, deve estar acima de visões e interesses políticos e/ou econômicos. Ela depende de um esforço conjunto entre todas as esferas de governos federal, estaduais e municipais, do Ministério da Saúde, dos médicos e profissionais da saúde, dos pesquisadores e técnicos e de toda a população brasileira. Nós, profissionais de saúde, nos manteremos firmes na linha de frente desta batalha, com orgulho e responsabilidade.

É de extrema importância que V.Ex.ª, neste momento de crise, embase as decisões que lhe competem como Chefe da Nação, no aconselhamento dos especialistas da área da saúde e na melhor ciência disponível sobre o tema.

Agradecemos sua consideração e nos colocamos à disposição de V.Ex.ª. para o necessário diálogo.

Atenciosamente,

Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO)

Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas (ABCF)

Associação Brasileira de Ensino Odontológico (ABENO)

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP)

Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB)

Sociedade Brasileira de Farmacognosia (SBFGnosia)

Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental (SBFTE)

Sociedade Brasileira de Fisiologia (SBFis)

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)

Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)

Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI)

Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT)

Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNEC)

Sociedade Brasileira de Parasitologia (SBP)

Sociedade Brasileira de Patologia Clínica (SBPC)

Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML)

Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (SBPqO)

Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO)

Sociedade Brasileira de Virologia (SBV)

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

Comments

comments

Deixe uma resposta