Pesticida e microcefalia: causa-efeito ou teoria da conspiração?


Neste mês de fevereiro o jornal online português Observador.pt questionou seus leitores sobre o uso de larvicidas e a epidemia de Zika no Brasil:  Médicos argentinos citam médicos brasileiros para dizer que o responsável pela microcefalia nas crianças é um pesticida, e não o zika. Será verdade, ou é apenas mais uma teoria da conspiração? – a matéria, assinada por Vera Novais, se debruça na relação entre o relatório da Rede Universitária de Ambiente e Saúde (Reduas), composta por médicos argentinos, e a nota técnica emitida pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Confira o texto na íntegra:

Ainda sem confirmação científica inequívoca, o aumento do número de casos de microcefalia na América do Sul tem sido atribuído à infeção com vírus zika, mas um grupo de médicos argentinos aponta o dedo aos pesticidas usados para matar e controlar os mosquitos que transmitem o vírus. As instituições oficiais do Brasil desmentem, os cientistas confirmam que esta ideia não faz sentido e a base de argumentação dos médicos argentinos poderá não passar de um mal-entendido.

Um relatório recente do grupo de ‘Médicos das Povoações Fumigadas’ alegou que o surto de microcefalia se deve ao uso de pesticidas para controlar os mosquitos que transmitem o vírus zika”, diz Ian Musgrave, professor de Farmacologia na Universidade de Adelaide (Austrália). “Apesar de os indícios não serem conclusivos em relação ao zika ser o responsável pelo aumento de microcefalia no Brasil, o papel do pyriproxyfen não é, simplesmente, plausível.” Os médicos argentinos, os médicos brasileiros citados de forma errada, as entidades oficiais e investigadores que não estão diretamente envolvidos na investigação têm uma palavra a dizer sobre o caso que o Observador aqui lhe resume.

Basear uma afirmação num mal-entendido

Um relatório da Rede Universitária de Ambiente e Saúde (Reduas), composta por médicos argentinos, afirma que “as malformações detetadas em milhares de crianças que vivem em áreas onde o Estado brasileiro adicionou pyriproxyfen à água potável não é uma coincidência”. O relatório, coordenado pelo pediatra Medardo Ávila Vázquez, acusa o governo brasileiro de querer culpar o zika na “tentativa de ignorarem a própria responsabilidade e pondo de parte a hipótese dos danos diretos e cumulativos dos químicos”. As críticas estendem-se também à Organização Mundial de Saúde (OMS) e à Organização Pan-Americana de Saúde (PAHO), que estes médicos acusam de “esquecerem facilmente que os seres humanos, cada um de nós, desenvolvem uma série de processos embrionários nos quais passamos por vários estádios diferentes”.

O problema é que este grupo não fez qualquer tipo de investigação sobre o potencial efeito do pyriproxyfen (ou qualquer outro inseticida) no aparecimento de microcefalia nas crianças. Grande parte das afirmações são baseadas numa nota técnica emitida pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), mas a interpretação vai além do que os profissionais brasileiros tentaram dizer.

Pesticidas não são a melhor maneira de vencer o mosquito

A nota técnica da Abrasco não pretendia estabelecer qual a causa do aumento do número de casos de microcefalia no Brasil, mas criticar a estratégia de combate ao mosquito Aedes aegypti, responsável por transmitir o vírus zika, mas também dengue e chikungunya. No máximo alertaram que “o lado invisível dos danos ao ambiente e à saúde humana, decorrentes do uso de produtos químicos no controle vetorial, ainda não foi devidamente estudado ou revelado às populações vulneráveis, incluindo os trabalhadores de Saúde Pública”.

“A expansão territorial da infestação pelo Aedes aegypti atestam o fracasso da estratégia nacional de controlo”, afirmam os profissionais de saúde na nota técnica. “Para a Abrasco, a degradação das condições de vida nas cidades, saneamento básico inadequado, particularmente no que se refere à dificuldade de acesso contínuo a água, recolha de lixo precária, saneamento básico e descuido com a higiene de espaços públicos e particulares, são os principais responsáveis por este desastre.”

Leia aqui a matéria na íntegra: http://observador.pt/2016/02/18/pesticida-microcefalia-causa-efeito-teoria-da-conspiracao/

 

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