Novos associados institucionais ampliam a representatividade da Abrasco

Dois programas de pós-graduação e duas universidades ingressaram na quadro de associados institucionais da Abrasco neste 2021. São eles: Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade do Estado do Amazonas (PPGSC/UEA); Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal da Paraíba (PPGSC/UFPB); Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (ISCO/UFOPA), e Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (FCBS/UFVJM).

São instituições jovens, em que pese cada uma ter sua própria singularidade territorial e institucional. Mesmo que algumas terem sido criadas recentemente, isso não indica baixo engajamento. Pelo contrário: das 4 instituições, 3 candidataram-se e foram eleitas para compor o Conselho Deliberativo da Abrasco.

O ingresso dessas instituições é uma vitória coletiva e compartilhada, na qual ganham tanto os PPGs e universidades, que passam a ter direito de compor as Comissões de Área e poderem dialogar de maneira ainda mais qualificada com os pares; como a Associação, ainda mais representativa no cenário acadêmico, como o próprio campo da saúde coletiva, que amplia e qualifica sua presença nacional, fortalecendo a luta pelo direito à saúde, pela defesa e efetivação do Sistema Único de Saúde e pela democracia. Conheça as instituições:

Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade do Estado do Amazonas – PPGSC/UEA

Aprovado pelo Conselho Técnico-científico da Educação Superior (CTC-ES/CAPES) em 2019 e reconhecido pela Portaria nº540/MEC de 15 de junho de 2020, o Programa foi produto de um processo de cooperação entre a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ). Conta com 17 docentes permanentes; e a primeira turma, cuja seleção foi realizada no segundo semestre de 2020, congrega 13 alunos. O Programa está estruturado em uma área de concentração e três linhas de pesquisa: Distribuição e determinação dos agravos em saúde na região amazônica; Política, Planejamento e Gestão em Saúde e; Diversidade sociocultural das práticas e direitos na saúde na região amazônica: atores, contextos institucionais e relações com os saberes.

Para Fernando Herkrath, coordenador do PPGSC/UEA, embora as ações voltadas à redução das assimetrias regionais e inter-regionais existam desde a década de 1970, elas ainda são pouco expressivas na região Norte, e na Amazônia em particular, onde encontram-se elevadas taxas de pobreza e analfabetismo e os piores indicadores sociais e sanitários do país. “O fortalecimento da pós-graduação em Saúde Coletiva na região amazônica pode favorecer a superação dos enfoques estritamente biológicos e reducionistas, dando lugar a abordagens ampliadas, com capacidade de compreender a complexidade das condições de vida dos milhões de habitantes da Amazônia e sua relação com a produção e modulação do processo saúde-doença – dependentes das relações políticas, socioculturais e com o ambiente – contribuindo, portanto, para a mitigação desse cenário de iniquidades que infelizmente caracteriza o nosso país”.

Herkrath, que também é integrante do atual Conselho Deliberativo da Abrasco, ressalta o ingresso de novos PPGs no quadro de associados institucionais como importante elemento de fortalecimento da Abrasco para o cumprimento de suas missões, como a defesa da saúde coletiva, do SUS e o enfrentamento das iniquidades sociais e sanitárias da população. “Também representa a oportunidade de inclusão de uma maior multiplicidade de olhares e saberes no diálogo e na permanente construção da própria instituição”, completa.

Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal da Paraíba – PPGSC/UFPB

A criação do PPGSC/UFPB preenche uma lacuna histórica de mais de 30 anos na Universidade. “Havia docentes que atuavam em diferentes centros e unidades e tinham parcerias em pesquisas e ações extensionistas capitaneadas pelo Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva. Porém, não havíamos conseguido nos reunir para a construção de uma apresentação de proposta para curso novo (APCN) para o mestrado”, destaca Pedro Cruz, atual coordenador do Programa. Em 2016, foi iniciado o processo de discussão e articulação numa construção compartilhada até a aprovação da APCN pelo CTC-ES/CAPES e pelo Conselho Superior de Ensino e Pesquisa e Extensão da Universidade, ambas em 2018.

Instalado com 21 professores em duas áreas de concentração: Epidemiologia e Políticas, Gestão e Cuidado em Saúde, o PPGSC/UFPB vê neste ano sua primeira turma de mestrado, de 9 alunos, finalizar seu ciclo formativo, enquanto a terceira turma inicia as aulas em setembro e passa a compor o Conselho Deliberativo da Abrasco. 

Outro ponto central nos primeiros momentos do PPGSC/UFPB foi o 8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (8º CBCSHS), realizado em 2019, nas dependências do campus central, em João Pessoa. “Apesar do grupo de educação popular ter liderado o Congresso, outros professores de outros grupos e áreas temáticas se juntaram à Comissão Organizadora e tiveram um papel fundamental na organização do evento”, explica Cruz, ressaltando o evento marcado pela construção colaborativa e valorização das complementariedades.

Para ele, a associação do PPGSC/UFPB como instituição e de seus professores e estudantes como associados individuais é estratégica pela capacidade da entidade em ampliar temas e ultrapassar questões particulares. “Precisamos cada vez mais da Abrasco como entidade representativa que nos aglutina e possibilita dialogar e construir coletivamente ações de enfrentamento e resistência diante de tantos retrocessos que vemos na agenda pública brasileira e no próprio Sistema Único de Saúde, constantemente ameaçado de desmantelamento e atacado na sua legitimidade”.

Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA

Criada pela Lei nº 12.085, de 5 de novembro de 2009 como desmembramento de duas instituições, a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) tem como missão institucional a mudança da realidade socioeconômica regional por meio da qualificação técnica e profissional, valendo-se de diversas estratégias educacionais nas dimensões do ensino, pesquisa e extensão. Nesse contexto, a Saúde Coletiva tem atuado como um conhecimento transdisciplinar, presente nos cursos de graduação de Saúde Coletiva, Farmácia e Bacharelado Interdisciplinar em Saúde, o único da região norte nesse formato. Na pós-graduação os professores do Isco/Ufopa estão presentes na Residência Multiprofissional em Estratégia Saúde da Família para populações do Baixo Amazonas e no Mestrado de Ciências da Saúde. Faz-se presente também em outros projetos que articulam o tripé da ação universitária, como o curso de especialização em Saúde da família e comunidade para populações atendidas pelo INCRA no contexto do Pronera, realizado em 2018.

Para Rui Harayama, antropólogo e professor do Isco/Ufopa, a contribuição da produção em Saúde Coletiva da região é fruto das tensões, mudanças e inovações do acesso das populações tradicionais, como as ribeirinhas, de agricultores familiares, quilombolas e indígenas com o conhecimento formal universitário, tanto do ponto de vista técnico e epistemológico. “A Saúde Coletiva pode alertar para os diversos cenários de saúde existentes dentro da Amazônia, trazendo reflexões robustas e que não repliquem explicações estigmatizadas e romantizadas para um complexo cenário no qual coexistem doenças infectocontagiosas, crônicas não transmissíveis e os impactos das mudanças climáticas”.

Efeitos produzidos por agrotóxicos, mineração e grandes projetos de desenvolvimento na saúde e no ambiente e modelos de atenção à saúde em contextos ribeirinhos, indígenas e rurais são temas que o pesquisador, integrante da coordenação da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco, acredita serem ativamente articulados a partir da formalização da associação institucional. “A ideia é que a aliança entre Ufopa e Abrasco possa qualificar e reverberar as demandas e reflexões colhidas em pesquisas e nos diálogos com os movimentos sociais”, reforça Rui. 

O ingresso da UFOPA na Abrasco repercutiu na comunicação da universidade e na imprensa regional – veja aqui e aqui. As matérias destacaram o papel das instituições do interior da Amazônia estarem afinadas com demais instituições nacionais da ciência .

Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM

Nas suas cinco sedes, a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) conta com a presença da Saúde Coletiva nos cursos da Faculdade de Ciências Básicas e da Saúde (FCBS) – Fisioterapia, Enfermagem, Odontologia, Ciências Biológicas, Nutrição, Educação Física e Farmácia; ofertados na cidade de Diamantina, e também na Faculdade de Medicina, instalada nas cidades de Diamantina e  Teófilo Otoni. Criada pela Lei 11.173, publicada no Diário Oficial da União em 8 de setembro de 2005, a UFVJM atende uma importante região brasileira, historicamente marcada pela desigualdade.

Tal característica, para Ana Paula Nunes, professora adjunta de Bioestatística e Epidemiologia da FCBS/UFVJM, traz novas oportunidades para o conhecimento do campo da Saúde Coletiva e para a própria Associação. “Esse ingresso é capaz de fornecer à Abrasco uma riqueza de informações e compartilhamento de experiências necessárias a embasar discussões e ampliar à maneira de sua atuação. Ao aumentar seu olhar sobre a diversidade, aumenta também sua representatividade e, sobretudo, o espaço de fala das instituições menores e afastadas dos grandes centros”. 

Também integrante do Conselho Deliberativo da Associação e do GT Racismo e Saúde, ela ressalta que uma maior presença dos estudantes da região nos eventos da Abrasco faz com que a região se veja nos debates do campo e atraia olhares para as discussões do Vale do Jequitinhonha e todo o norte e nordeste mineiros. “A formação com qualidade e com um olhar dirigido à coletividade é fundamental para que os nossos alunos, futuros profissionais de saúde, consigam atender as demandas específicas da nossa região, além de ajudar a proporcionar um ensino plural, antirracista e inclusivo. Ao mesmo tempo é uma forma de falarmos sobre o aspecto contextual das desigualdades regionais e a sua influência no processo de saúde-adoecimento e morte. Há uma certa dificuldade pelo fato da quase inexistência de estudos da nossa região”, conclui Ana Paula Nunes.

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