Debates sobre Educação Popular em Saúde na capital paraibana


A Abrasco não podia deixar de acompanhar os debates realizados em João Pessoa, na Paraíba, durante o Seminário Nacional de Educação Popular na Formação em Saúde, de 10 a 13 de dezembro, no Hotel Ouro Branco. O GT de Educação Popular em Saúde da Abrasco marcou presença no evento, que teve como representante principal o coordenador do GT, Julio Wong, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Nomes fortes como Eymard Vasconcelos, Maria Waldenez Oliveira, Vera Dantas e Vera Joana Bornestein também estiveram presentes.

No debate “Aprendizados, desafios e enfrentamentos da Educação Popular em Saúde com outras perspectivas educativas que valorizam as metodologias ativas e problematizadoras”, Vera Dantas, Maria Waldenez Oliveira e Eymard Vasconcelos apresentaram suas contribuições sobre o tema. Para Waldenez, da UFESCAR, a relação da educação popular com a saúde está ligada às lutas pela saúde, envolvendo profissionais, estudantes, movimentos sociais, grupos populares, praticantes populares de saúde, cuidadores populares. Ela afirma que na saúde, a integração entre saber científico e saber popular e entre iniciativas de técnicos e de pessoas de movimentos e práticas populares tem resultado na construção compartilhada de soluções criativas e mobilizadoras. “Se faz necessária nossa reflexão crítica sobre a institucionalização da Educação Popular. A Educação Popular não avança no entendimento da relação dos sujeitos e territórios, lutas. Os processos não vão sempre em frente. Por isso, é preciso parar para refletir em como nos recompor. É preciso aperfeiçoar, nos qualificar, principalmente porque formamos”, ressaltou.

Contando sua experiência em Fortaleza, Vera Dantas, da Secretaria Municipal de Saúde, valorizou a questão do “diálogo”. No contexto de uma gestão pública municipal, buscando fazer o movimento dialético de desvelar o mundo, com base na ação-reflexão-ação, Vera enfatizou que por meio da arte, é possível articular o que é vivido com as várias linguagens e ressaltou a profundidade da problematização nesses processos. “As várias linguagens da arte, da comunicação popular, as práticas populares de cuidado, a caminhada dos grupos e movimentos organizados permitem tocar dimensões mais totalizadoras do sujeito e, em geral esquecidas nos processos de conhecer como a do corpo, da estética, da ética, da espiritualidade, da afetividade – em um construto que vincula desejo e cognição, intuição e sensibilidade e nos remete a algumas questões-chave para a construção das práticas de saúde: a humanização e o nosso papel como educadores”, afirmou Vera. A pesquisadora afirmou que Educação popular em Saúde tem outra lógica, valoriza os oprimidos e por isso é perseguida e marginalizada. “Como questionar e fazer funcionar? Como equilibrar essas duas ações?”, contesta. Para ela, Educação Popular não é uma tecnologia, tem direcionabilidade. “Ver dessa forma é empobrecer o pensamento pedagógico”, disse.

Eymard Vasconcelos, da UFPB, iniciou sua fala contextualizando que a aproximação de muitos profissionais de saúde com o movimento da Educação Popular e a luta dos movimentos sociais pela transformação da atenção à saúde possibilitaram a incorporação, em muitos serviços de saúde, de formas de relação com a população, bastante participativas e que rompem com a tradição autoritária dominante. Para o pesquisador, contribuíram muito na desconstrução do autoritarismo dos doutores, do desprezo ao saber e à iniciativa dos doentes e familiares, da imposição de soluções técnicas para problemas sociais globais e da propaganda política embutida na forma como o modelo biomédico vem sendo implementado. “Não basta alguns saberem fazer. É preciso que esse saber seja difundido e generalizado nas instituições de saúde. O avanço da força dos grupos políticos ligados aos movimentos sociais do Brasil vem criando condições institucionais para superar a fase em que essas práticas de saúde mais integradas à lógica de vida da população aconteciam apenas em experiências alternativas pontuais e transitórias. É preciso encontrar os caminhos administrativos e de formação profissional que permitam sua generalização no SUS”, ressaltou.

Para Eymard, a Educação Popular ainda encontra enormes resistências de setores progressistas do Movimento Sanitário, com a utilização da Educação Popular como instrumento de gestão das políticas de saúde. “É necessário desencadear uma ação política que, bem estruturada, incentive, apoie e responsabilize os municípios e estados pela formulação de iniciativas amplas da valorização de criação de espaços de troca cultural, diálogo e negociação em cada serviço de saúde”, enfatizou. Eymard sinaliza que o grande desafio da Educação Popular é o debate teórico, para que ela se insira no contexto teórico do jogo político da área. “Ainda estamos muito em nível de experiência”, pontuou.

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