Abrasco 41 anos: Reinventar-se sem perder o foco na luta pela superação das desigualdades

Reflexões e balanços são comuns e bem-vindos nos momentos de celebração, pois ajudam a entender trajetórias e escolhas feitas no tempo e no espaço. No entanto, nada será como antes após 2020. Vivermos – e ainda estarmos atravessando – uma pandemia de escala global que já levou à morte de mais de 1 milhão de pessoas, e com incidência dos atores políticos, sociais e científicos em tempo real mediado pela internet e demais tecnologias de comunicação e informação. A dureza dessa realidade expressa ainda com mais força a compreensão do tempo presente como campo de experimentação e de incertezas. Nesse contexto a Abrasco celebra seus 41 anos.

Com coordenação da Secretaria Executiva, os setores de Comunicação e Relacionamento com os Associados e a Abrasco Livros construíram a campanha comemorativa Abrasco 41 anos construindo a história do SUS e da Saúde Coletiva – convidando todas e todos a renovarem seus laços com a Associação e navegarem na Linha do Tempo, relembrando e se reconhecendo em nossa história.

Esse mesmo convite foi feito a dirigentes da Associação de diferentes idades, histórias, locais e representativos das comissões, comitês, fóruns e grupos temáticos que compõem esse corpo vivo que é a Abrasco. O resultado dessa costura – deliberada e assumidamente inconclusa e incompleta, tamanha quantidade de assuntos e pessoas não ouvidas – você encontra nas linhas abaixo.

Reiteramos o convite para juntos fazermos essa reflexão e, a partir das lições que trazemos do passado e das aprendidas entre erros e acertos nas respostas dadas no enfrentamento à Covid-19, pensarmos ideias que orientem as próximas ações e proposições. É necessário honrar o passado de lutas para transformar o presente e garantir o futuro do SUS e da democracia brasileira. Que a Abrasco siga o desafio de se reinventar em diálogo com o tempo e sem perder o foco na luta pela superação das desigualdades.

Não se faz o novo sem história

8º Conferência Nacional de Saúde – Foto: Fiocruz

“A Abrasco foi concebida na luta contra a ditadura militar e forjada como uma plataforma de militância e mobilização pela construção do Sistema Único de Saúde, universal e democrático. Agora, com a pandemia da Covid-19, com essa resposta de omissão e sabotagem e postura genocida do governo federal, nosso compromisso político pela vida e pela saúde foi posto à prova” aponta Naomar de Almeida Filho, vice-presidente da Associação.

Para Rosana Onocko Campos, vice-presidente da Associação e coordenadora da Comissão de Política, Planejamento e Gestão da Saúde, é do pathos da Saúde Coletiva colocar-se de peito aberto diante das grandes questões humanas. “Somos uma Associação que nasce com grande parte dos seus quadros envolvidos com o destino das políticas de saúde do país. Essa marca é um compromisso técnico-científico, mas que também ético e político, pois somos uma área aplicada, orientada para a ação”.

A essas duas dimensões, Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Associação, acrescenta a capacidade histórica e reatualizada da Abrasco em saber dialogar e produzir consensos em prol do direito à saúde e com respeito às diferenças. “É com muito orgulho que a gente percebe que a nossa atuação é viável e possível hoje porque outros conseguiram abrir e trilhar esse caminho. É um projeto necessariamente coletivo e que exige a necessidade de ouvir todas as vozes, respeitar as diferenças internas, e conseguir consensos que tragam para a nossa fala olhares de outras trajetórias, de outros cidadãos e segmentos sociais que não são intrínsecos à academia”.

Não se faz ciência, educação e saúde sem conexão com a vida social

Ação de equipe da Saúde da Família na periferia de Brasília: Foto: GDF

Ao longo desses 41 anos, a Abrasco se reinventou diversas vezes, como lembra José da Rocha Carvalheiro, presidente da Associação entre 2006 e 2009. “Nas origens fomos criados para ser uma entidade científica de pós-graduação e que foi transformada numa espécie de ONG por decisão em assembleia. O caráter acadêmico de seus sócios institucionais mantém a necessária ênfase na contribuição científica para dar apoio à execução da sua missão de intervenção na sociedade”.

Essa missão foi fortemente cumprida neste 2020. Sobre as consequências da pandemia no sistema, nas ações e serviços públicos e privados de saúde, e nas condições de vida dos brasileiros, a Abrasco emitiu 42 notas e documentos, tanto de autoria própria como redigidas conjuntamente com demais entidades ou endossadas. Além dessas, outros 10 posicionamentos trararam das mudanças em políticas setoriais da saúde, em defesa do meio ambiente e em solidariedade a profissionais e populações vulnerabilizadas.

Acesse os posicionamentos oficiais da Abrasco

Essas notas e documentos são repercutidos e reproduzidos em entrevistas na imprensa e na mídia e abraçados pelos associados, tanto individuais como institucionais. Estes últimos se fazem representados nas indicações às três Comissões, e também articulados nos Fóruns de Coordenadores dos Programas de Pós-Graduação (FCPPGSC) e de Graduação (FGSC) da Saúde Coletiva. Nesse primeiro semestre, programas e cursos demonstraram a força da área ao encarar a pandemia como uma oportunidade de ensino, de pesquisa e, principalmente, de extensão e ação cidadã.

“Assim como a Abrasco, os PPG da Saúde Coletiva não pararam diante da pandemia. Pelo contrário, souberam, cada um nas suas próprias condições, se adaptar. Bolsas e esforços de pesquisa foram redirecionados; docentes se integraram à gestão em comitês e coordenações de crise de cidades e estados, e apoiaram seus próprios estudantes profissionais de saúde, atuando diretamente na linha de frente, em unidades de saúde, e nas formulações de ações e estratégias. Temos sofrido ataques constantes desse governo, o que pode acirrar ainda mais diferenças regionais. Por isso, falar e mostrar essas ações à sociedade não é só fundamental como necessário” afirmar Sérgio Peixoto, da coordenação do FCPPGSC.

Na dimensão do ensino de graduação em Saúde Coletiva, Liliana Santos, da coordenação do FGSC, ressalta a relação direta entre educação, saúde e cidadania. “A Pandemia de Covid-19 tem sido introduzida como tema integrador das mais diferentes ofertas curriculares e extracurriculares, tendo como exemplo discussões sobre os principais indicadores utilizados para medir a evolução da pandemia; a desigualdade social relacionada aos territórios, e a capilaridade da atenção básica, sempre buscando ativar olhares, semear esperanças e produzir ações que contribuam para o fortalecimento da Saúde Coletiva e de suas ofertas para o SUS”.  

As novas tecnologias são fronteiras a serem desbravadas e potencializadas

1ª Reunião virtual das com comissões, comitês, fóruns, GTs e diretoria da Abrasco, em 15 julho de 2020 – Foto: Abrasco

A necessidade e compreensão que o distanciamento físico é a ação de prevenção primeira fez com que todo um planeta aprofundasse ainda mais a inserção no meio digital, num processo acelerado de borramento de fronteiras com que se convencionou chamar mundo virtual.

O lançamento da Ágora Abrasco no Dia Mundial da Saúde, em 7 de abril, foi uma resposta rápida da diretoria da Associação para ampliar o contato com seus membros e sua inserção política no debate público. “A ideia, apresentada por Naomar de Almeida Filho, demonstrou-se uma forte atividade de comunicação e discussão de temas e interfaces científicas e sociais relacionadas à pandemia. Tivemos uma agenda cheia de painéis, lives e colóquios, sempre com convidados representativos e com influência em seus níveis de atuação” coloca Gulnar.

Acesse as transmissões e coberturas da Ágora Abrasco

A aposta mostrou-se tão acertada que a Ágora Abrasco se tornou não só uma referência de bons debates, mas um momento de encontro da nossa comunidade científica. “As mais instigantes foram àquelas que aproveitaram trabalhadores da linha de frente, especialmente em lugares de sucesso no combate à pandemia. As novas tecnologias são fantásticas e contribuem para aprimorar a vida em sociedade. No entanto, sem os membros “lutadores” das entidades e dos serviços, nada feito” argumenta Carvalheiro, presença constante nas transmissões e que honra o trabalho envolvido com sua saudação “Carva no pedaço”.

As tecnologias seguem transformando o fazer científico. “Nada substitui plenamente os encontros presenciais para o avanço do conhecimento. No entanto, mostramos que temos grande poder de adaptação e utilizamos a distância para nos aproximarmos ainda mais, unindo os grupos rapidamente, fortalecendo a transdisciplinaridade, produzindo e disseminando conhecimento de forma muito mais ágil, sem perder qualidade. No caso da epidemiologia, será importante debatermos no futuro como realizar pesquisas e divulgar seus resultados com essa celeridade empregada nos últimos meses, mas mantendo o rigor nos estudos e nos processos editoriais das revistas” analisa Antonio Boing, vice-presidente da Associação e coordenador da Comissão, que remarcou o 11º Congresso de Epidemiologia para novembro de 2021.

Esse mergulho está sendo construído para o 4ª Congresso Brasileiro de Política, Planejamento e Gestão da Saúde, que será totalmente online em março próximo. “Apesar de os congressos presenciais proporcionarem os debates e a interação “corpo a corpo”, eles possuem diversas barreiras de acesso para os profissionais e gestores do SUS que não estão nos grandes centros. A Abrasco acerta em promover um congresso virtual acessível, mas com toda a preocupação que estamos tendo de manter a capacidade mobilizadora e de trocas, e que demonstrará grande potencial” lança Deivisson Vianna, do Conselho Deliberativo da Associação, e da comissão científica do 4º CBPPGS.

As mulheres fazem a diferença na resposta à pandemia e na Abrasco

Registro do Abrascão 2018 – Foto: Abrasco

Uma constatação, um reconhecimento, uma conquista. Em diversos níveis, a liderança feminina pautou as respostas mais eficazes e os momentos mais singulares no enfrentamento da Covid-19. Entre essas lideranças está Gulnar Azevedo e Silva.

“Foi um cenário mais desafiador do que qualquer um de nós poderíamos esperar” pontua ela quando perguntada do desafio de liderar a Abrasco neste contexto. A presidente reforça a dimensão coletiva da gestão: “Nossa diretoria consegue definir as pautas e os caminhos de nossa atuação de forma unida, colegiada e muito participativa”; e o vice-presidente Naomar faz a devida vênia. “A pandemia tem sido melhor enfrentada, em todo o mundo, pela liderança das mulheres, numa combinação de sensibilidade, cuidado, firmeza e competência política. Nossa presidente tem desempenhado muito bem esse papel de liderança tranquila e, pra mim, esse é o destaque a ser feito e reconhecido”.

Essa liderança se reproduz e amplia sua potência nas demais estruturas da Abrasco. “Não tem sido fácil lidar com as questões trazidas pelo trabalho remoto e isolamento físico sendo acadêmica e mãe de uma criança pequena. No entanto, sinto o movimento como uma grande potência, que mobiliza muitas atrizes e atores a alcançar espaços que pareciam distantes. Tenho muito orgulho de estar na Abrasco e no Núcleo de coordenação do GT Educação Popular em Saúde, e estar numa associação presidida por uma mulher. Isso traz ainda mais alento, pois é fundamental nos sentirmos identificadas com as instituições que participamos” formula Luanda Lima, da coordenação do GT EdPop/Abrasco.

A sociedade civil e movimento social são agentes produtores e promotores de políticas públicas e precisam ser reconhecidos e ouvidos por todos e quaisquer governos

Registro do Abrascão 2018 – Foto: Abrasco

Presente nas falas de todos os entrevistados, a parceria e o diálogo da Abrasco com as organizações e movimentos da sociedade, sejam eles organizados ou autônomos; regionais, nacionais ou internacionais, segue como diferencial no presente e aposta para o futuro, envolvendo a própria compreensão da Associação como espaço e expressão de uma militância científica e social. O Plano Nacional de Enfrentamento à Covid-19 (PEP-Covid-19) é uma expressão viva dessa faceta.

Acesse o Plano Nacional de Enfrentamento à Pandemia de Covid-19 (PEP-Covid-19)

Coordenado pela Abrasco e com a decisiva participação e parceria das entidades da saúde que compõem a Frente Pela Vida, o PEP-Covid-19 foi apresentado a secretários do Ministério da Saúde e a parlamentares em audiência pública, em 24 de julho e 4 de agosto, respectivamente. Ele segue em debate nos vários espaços sociais que as entidades da Frente são convidadas a falar, em entrevistas na imprensa e debates com gestores, controle social e universidades, cumprindo o papel destacado de ouvir as diferenças e construir consensos em prol do direito à saúde.

“Abrasco tem trilhado um caminho muito acertado nesse período, não apenas com as Ágoras, mas também com o PEP-Covid-19 e as notas. Acredito que a contínua inclusão de movimentos sociais e atores representantes de populações vulnerabilizadas, como o movimento negro, indígena, de mulheres, pessoas com deficiência (PcD), e povos tradicionais deva ser ampliada, permitindo que perspectivas diversas se coloquem no âmbito de uma instituição de grande prestígio e reconhecimento” ressalta Luanda.

Na visão de Naomar, o PEP-Covid-19 é uma tecnologia social que radicalizou e atualizou as formas de produção de conhecimento coletivas e participativas. “Para a Marcha pela Vida mobilizamos mais de 600 movimentos, organizações e entidades sociais e comunitárias. O Plano foi e continua sendo construído mais de uma centena de mãos, corações e cérebros. Penso que a Abrasco é isso; e nossa ação nessa pandemia, e em todas as crises que dela decorrem, demonstra esse ponto”.

 Essa história segue viva e em construção, assim como a ciência, a saúde e a educação que se atualizam a cada dia e de maneira mais forte quando conseguem ampliar olhares para contribuições inovadoras e, por que não, revolucionárias. “Com suas três Comissões, 21 Grupos Temáticos, três Comitês e três Fóruns, a Abrasco consegue trabalhar de forma mais capilar, entendendo as diferenças e identificando as oportunidades. Fica clara a lição de nunca deixar de ouvir nossos abrasquianos e abrasquianas, de nunca deixar de ouvir e compor nossos movimentos sociais e de não perder nossa maior verdade que é a diminuição da desigualdade no país, o nosso maior desafio” finaliza Gulnar.

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