8M: a Saúde Coletiva é feita por mulheres

Dados recentes da Associação Brasileira de Saúde Coletiva demonstram que 67% das pessoas associadas à entidade se identificam como mulheres: pesquisadoras, docentes, estudantes, militantes, gestoras e trabalhadoras em defesa da saúde pública, universal, equitativa, gratuita e de qualidade. O Dia Internacional da Luta das Mulheres é celebrado no mundo inteiro como um marco de luta e reivindicação por uma sociedade igualitária. Neste 8 de Março, a presidente e as vice-presidentes da Abrasco refletem sobre os desafios e os avanços da luta das mulheres no âmbito da Saúde Coletiva. Confira:

Rosana Onocko Campos, presidente da Abrasco  e professora da UNICAMP
O maior desafio em nossa área e em muitas outras é ocupar lugares de coordenação, gestão, ou liderança sem reproduzir o modelo falocêntrico e patriarcal. As mulheres precisam mostrar ao mundo que outra forma de gestão da vida é possível: solidária, cooperativa e reparadora. 

Bernadete Perez, vice-presidente da Abrasco  e professora da UFPE

O caráter revolucionário de imaginar futuros só é possível a partir de nós mulheres, índias, negras, das periferias como centro para defesa da democracia, das políticas públicas e não retorno à normalidade das minorias.

Diana Anunciação, vice-presidente da Abrasco e professora da UFRB

Por termos sido relegadas à base da matriz de opressão – fundada na raça, no gênero e na classe -, nós mulheres negras ainda nos encontramos em desvantagem social e profissional no campo da Saúde Coletiva.

Estela Aquino, vice-presidente da Abrasco e professora da UFBA

Nós mulheres enfrentamos muitos desafios nos espaços acadêmicos e profissionais, mesmo em áreas como a Saúde Coletiva em que somos maioria. Durante muito tempo estivemos excluídas da ciência moderna, por barreiras concretas à escolarização feminina,  que se construiu em bases exclusivamente masculinas. O aumento da nossa presença no mundo do trabalho, e particularmente na academia, não foi acompanhado da redistribuição de poder nesses espaços, nem tampouco dos cuidados da casa e da família. Isso torna muito difícil ter o desempenho continuado, que é esperado nas avaliações acadêmicas e modela a progressão em nossas carreiras. Este desempenho continuado, totalmente incompatível com os ciclos de vida das mulheres, atende ao modelo do “cientista ideal” que confere prioridade ao trabalho e tem poucos interesses ou responsabilidades em outras áreas, como a família. A distribuição de poder na esfera profissional é muito desigual e nós mulheres cientistas ocupamos menos cargos de direção, utilizamos menos bolsas no exterior e estamos menos representadas nos eventos científicos. E mesmo quando produzimos muito, ganhamos menos prêmios e somos menos citadas. Ser uma cientista feminista exige de nós a “reinvenção deste mundo”, o que não é tarefa fácil e impõe antes de tudo questionar os mecanismos de distribuição de poder e de recursos baseados no gênero. Nossa luta é coletiva e permanente contra mecanismos discriminatórios (de gênero, raça e classe), que, em última instância, comprometem a excelência da ciência pela exclusão da capacidade intelectual e criativa das mulheres em toda sua diversidade.

Ligia Kerr, vice-presidente da Abrasco e professora da UFC

As mulheres da Saúde Coletiva são maioria no âmbito acadêmico ou como profissionais da saúde, mas as desigualdades de gênero persistem mesmo neste campo, pois também têm duplas ou triplas jornadas, e conseguir alcançar as mesmas condições, seja na academia e nos espaços gestores, ainda é um grande desafio.

 

Marília Louvison, vice-presidente da Abrasco e professora da USP

Ser mulher, professora e pesquisadora da Saúde Coletiva é uma luta permanente em defesa da vida e da produção de cuidado, com potência, sensibilidade e paixão na militância, investigação e formação crítica transformadora.

Reni Barsaglini, vice-presidente da Abrasco e professora da UFMT

“É uma luta que faz coro com a luta das demais mulheres, considerando um contexto histórico e mais amplo que é comum e nos alcança dado por importantes e combinadas formas das desigualdades estruturais da sociedade. É importante reconhecer experiências e pontos comuns porque nos fortalece, mas também há especificidades regionais como as grandes extensões territoriais com grande parte ocupada pelo modelo do agronegócio, grande parte dos municípios espalhados e de pequeno porte caracterizando municípios rurais remotos com suas consequências para a vida das mulheres. A defesa da agroecologia que valoriza os saberes e os modos de produção sustentáveis, inclusivos, solidários e democráticos são potentes ao não dissociar homem-sociedade-cultura- natureza. Neste contexto, é importante pensarmos as mulheres, seus contextos e suas lutas mas reconhecendo a intersecção dos diferenciais sociopolíticos e culturais de raça, gênero, classe, idade, da pessoa com deficiência, da migrante, da quilombola, da camponesa, ribeirinha, indígena entre outras.

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