Ensino da Saúde e Ambiente é debate no último dia do 2º Sibsa


Uma produção de conhecimento que só soma e emancipa. O painel Experiências de formação em Saúde e Ambiente reuniu na quarta-feira, 22 de outubro, pesquisadores, estudantes e docentes de todos os níveis de ensino para compor um panorama da temática dentro do universo da Saúde Coletiva. A sessão foi uma das últimas atividades do 2º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente – 2º Sibsa, realizado no Minascentro, em Belo Horizonte. A coordenação foi de Iracina de Jesus, da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS).

Carmen Asmus, professora associada da Faculdade de Medicina e do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FM-IESC/UFRJ) apresentou os primeiros resultados do Programa de Formação de Recursos Humanos em Vigilância em Saúde Ambienta. Organizado pelo IESC/UFRJ junto com a Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS), o programa constitui-se de três cursos de capacitação e um de especialização, todos ministrados em ambiente virtual, e visam possibilitar a formação e qualificação de recursos humanos em grande escala para o Brasil, de forma a fortalecer a área de Vigilância em Saúde Ambiental.

Na primeira fase, foram formados quatro mil profissionais com participantes de todas as regiões. “A Educação à Distância não tem a possibilidade do contato humano, mas é uma alternativa de formação complementar, fundamental para auxiliar profissionais dos municípios que possam ter esse primeiro passo na difusão da informação e com o objetivo de ampliar a área de Saúde e Ambiente”, destacou Carmen, que aponta a primeira fase do programa como um degrau para a construção de bases teórica e metodológica para uma futura oferta de mestrado profissionalizante na área de vigilância em saúde ambiental.

Coube à professora Rita Barradas, do Programa de Pós-Graduação da Santa Casa de São Paulo apresentar um mapa da inserção da temática e sua produção científica dentro do Sistema Nacional de Pós-Graduação. Atualmente, 15 programas de formação pós-graduada são dedicados exclusivamente ao tema. No entanto, boa parte deles é avaliado pela área interdisciplinar da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e apenas três estão na área da Saúde Coletiva. Entre os programas em Saúde Coletiva, há 21 ofertas de áreas de concentração e/ou linhas de pesquisa voltadas para a temática, com a maioria desses programas pontuando entre as notas 4 e 6 na avaliação da CAPES e outros 14 programas que, mesmo sem área de concentração, a temática está presente por meio do oferecimento regular de disciplinas. Ao total, as discussões de Saúde e Ambiente participam de metade dos PPGs em Saúde Coletiva.

Para Rita, esse cenário só confirma o vigor que a temática traz ao campo científico. “Há uma ideia de que quanto mais específico o curso, melhor. No entanto, ao longo dos últimos anos, é o conjunto da produção científica que tem sido avaliado pela Capes. Logo, não atrapalha em nada ter grupos trabalhando com essa temática. Ao contrário, onde tem Saúde e Ambiente, em média, os programas estão melhores”, ressaltou a ex-presidente da Abrasco, que reiterou a necessidade de fazer a produção técnica e a inserção social, eixos caros aos programas que trabalham com a temática, serem relevantes e estarem bem apresentados dentro dos critérios de avaliação da Coordenadoria.

Graduação e Ensino Técnico: As experiências vividas pelo curso de enfermagem e em programas como o Programa de Educação pelo Trabalho para Saúde (PET-Saúde) e o Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (Pró-Saúde) foram abordados pela professora Karina Patrício, do departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FMB/Unesp), e responsável pela cadeira Saúde e Meio Ambiente do curso de enfermagem, oferecida no primeiro semestre com carga horária de 60 horas.

A professora apresentou números levantados via a plataforma de formulários do Sistema Único de Saúde (FormSUS) que indicam que, de 143 escolas/faculdades de medicina e demais áreas da saúde, 105 contam com o debate da temática, seja organizado de maneira disciplinar ou como discussão transversal em demais cadeiras. No entanto, em sua avaliação, o graduado da área da saúde ainda é apresentado, na maioria das vezes, à lógica dos miasmas, conceituação que carrega a tríade agente/meio ambiente/hospedeiro. Além disso, o aluno está imerso em uma cultura que prega a desnaturalização da natureza, tratando-a de modo objetivado e sem dimensão crítica.

Para Karina, um importante instrumento atualmente utilizado para a apresentação da temática são os programas de Educação pelo Trabalho para Saúde (PET-Saúde) e o Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (PRÓ-Saúde), que por meio da integração ensino-serviço- comunidade, proporcionam uma abordagem integral do processo saúde-doença com ênfase na Atenção Básica, promovendo transformações/qualificações na prestação de serviços à população. “O contato com a comunidade transforma o olhar dos alunos, tornando-os mais capazes de entender as interações da saúde e do ambiente”, ressaltou. Até este ano, 902 projetos desses e outros programas versaram interações temáticas, diretas ou transversais, com a área de Saúde e Ambiente.

André Búrigo, professor da Escola Politécnica em Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) trouxe a vivência do curso técnico profissionalizante em Meio Ambiente, primeira ação de ensino de nível médio oferecido pela Fundação Oswaldo Cruz em áreas rurais. Com duração de um ano, os cursos foram iniciados em 2012 no Assentamento 25 de Maio, em Madalena, Ceará, e no Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação em Agroecologia (CEAGRO), em Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, atendendo, principalmente, jovens do Assentamento Ireno Alves. Foram formados 57 técnicos.

Antes de relatar os processos, ele destacou que desde a década de 1990, os movimentos campesinos passaram a abraçar a formação em saúde como uma ação estratégica. Dessa data começaram as primeiras experiências de cursos técnicos em saúde do campo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). A instituição no SUS da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta, lançada em 2008, mas regulamentada somente em dezembro de 2011, e o apoio da Secretaria de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde – SGTES/MS, foram elementos fundamentais para o lançamento do projeto, que teve uma versão piloto realizada na cidade de São Mateus, no Espírito Santo.

Em ambas as localidades a metodologia trabalhou com os conceitos de tempo-escola, voltados para o ensino de cadeiras gerais, como língua portuguesa, Arte e Cultura Camponesa e Ciências Sociais e Humanas, e disciplinas ligadas ao centro da formação, como SUS e Saúde do Campo e Território, Produção e Saúde. Outra parte é voltada para a ação na comunidade, com trabalhos de pesquisa de campo orientados e fundamentais para a conclusão do curso. Parte dos alunos das duas cidades acompanhou a apresentação. “A principal contribuição que demos foi afirmar que esses jovens têm direito a fazer cursos para compreender suas histórias, territórios e permanecerem em suas terras. Mas precisamos avançar, pois ainda impera a visão que para profissionais de ensino médio qualquer formação basta”, destacou Búrigo.

Comments

comments