Novos corpos e histórias fazem a Saúde Coletiva na primeira década das ações afirmativas, ainda que haja desafios

Mais de 40 Progamas de Pós-Graduação em Saúde Coletiva utilizam algum sistema de cotas em seus processos seletivos, com maior inclusão de pessoas negras, indígenas e com deficiência. Esse foi um dos dados debatidos no Esquenta Abrascão 10 anos das Ações Afirmativas e a formação em Saúde Coletiva: balanços e desafios. Realizada no último dia 28 de junho, a atividade proporcionou análises, leituras e vivências sobre as transformações alcançadas nos 10 anos de vigência da Lei Federal n.º 12.711/2012. Mesmo com a sentida ampliação das diversidades de raça, orientação sexual, gênero e corpos nas universidades, os participantes foram unânimes ao apontar que ainda há muito a se conquistar.

A sessão seguiu a proposta interdisciplinar e de diversidade que tem marcado a programação do #EsquentaAbrascão, sendo composta por integrantes e indicados dos fóruns de graduação e de coordenadores de pós-graduação e dos grupos temáticos Deficiência e Acessibilidade em Saúde Coletiva, Racismo e Saúde e Saúde da População LGBTQIA+ da Abrasco. A tradução em libras e a legendagem em tempo real ampliaram as fronteiras do acesso da sessão.

A psicóloga Fabiana Paes, estudante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da ENSP/Fiocruz, trouxe um pouco do seu cotidiano como cadeirante no ambiente acadêmico e problematizou a questão da deficiência no processo educacional brasileiro. “Trazer o tema para essas instituições é fundamental, para ser discutido e trabalhado como tema de pesquisa e estudo”.

Outra perspectiva de vivência crítica foi a de Luísa Brito, estudante de Saúde Coletiva da FSSP/USP. Integrante do Coletivo de Negras e Negros da Faculdade, ela evidenciou os mecanismos de racismo que ainda perduram e são menos observados. “O racismo não está apenas nos casos extremos de violência. Ele está incrustado nas nossas vidas. Por isso, precisamos problematizar as coisas mesmo que não pareçam um problema”.

Também nesta direção foi a intervenção de Ionara Magalhães, integrante do GT Racismo e Saúde e coordenadora de Políticas Afirmativas da Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis da UFRB. “As ações afirmativas não se fazem somente nas instituições de ensino. Precisamos lutar pela reserva de vagas em outros setores,. como nas instituições do Judiciário e no mundo do trabalho formal. Só com a ampliação dessa política que se pode assegurar alguma diversidade, pois o que vivemos hoje é um cenário transitório”.

Marcelo Castellanos, da Coordenação do Fórum de Coordenadores do Programas de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, trouxe dados sobre a presença das ações afirmativas nos PPG da área que compõem o Fórum. Atualmente, 42 programas, entre acadêmicos e profissionais, utilizam algum sistema de cotas em seus processos seletivos. As populações de maior inclusão são as pessoas negras, as indígenas e as com deficiência. Dos respondentes, 67,7% consideram que o sistema de cotas tem ampliado o acesso dessas populações a seus cursos – para a maioria (37,1%), uma ampliação efetiva, seguida dos que consideram tal avanço seja em parte (30,6%).

O docente apontou que as ações afirmativas vieram para ficar, mas é necessário fazermos mais. “Ao mesmo tempo que precisamos expandir com o sistema de cotas na pós-graduação, precisamos agir com urgência nas formas de auxílio para a permanência desses estudantes”, disse Castellanos. A coordenação da sessão foi de Vinicio Oliveira, do Fórum de Graduação em Saúde Coletiva.

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