a linha do tempo – artigo de Maria Helena Mello Jorge sobre Ruy Laurenti


Falecido em 12 de junho deste ano, Ruy Larenti deixou mais do que uma marca no campo da Saúde Pública. Como mestre, deixou uma descendência de profissionais, pesquisadores e demais professores que com ele aprenderam o ardo e valoroso trabalho dos inquéritos e estatísticas em Saúde e como enxergar e cuidar das pessoas que estão por trás dos números e indicadores.

Uma dessas discípulas é Maria Helena Prado de Mello Jorge, professora sênior da mesma Universidade de São Paulo onde Laurenti fez carreira e chegou à Reitoria. Em artigo que será publicado na edição de dezembro da RBE – Revista Brasileira de Epidemiologia – ela conta um pouco da trajetória de Laurenti e mostra o papel que ele teve na formação de toda uma geração de sanitaristas paulistanos e brasileiros. No ano em que a Abrasco realizou seu 11º Congresso e batizou sua conferência de abertura com o nome de Ruy Laurenti, reafirmamos nossa saudade e homenagem.

…a linha do tempo…

Corria o ano de 1967.

O então Departamento de Estatística da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) terminara um estudo sobre fecundidade em São Paulo e se preparava para iniciar uma nova pesquisa. Tratava-se de uma investigação internacional sobre a mortalidade na infância — capitaneada pela Doutora Ruth Puffer, da Organização Mundial de Saúde Pan-Americana/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), em Washington, e programada para ser feita em várias cidades das Américas. Ruy Laurenti, jovem médico, formado em 1957, pela USP, recém-chegado de seu Curso sobre Estatísticas Vitais e Classificação de Doenças, no Chile, era o escolhido para ser o responsável pelo Projeto. Eu fora indicada pelas professoras Elza Berquó e Maria Lucila Milanesi para coordenar o trabalho de campo dessa investigação. Nesse contexto, conheci Ruy Laurenti. Com ele trabalhei durante 47 anos.

A pesquisa em questão trouxe láureas importantes ao Professor, desde elogios constantes — em razão de seu excelente andamento — até a utilização de seus resultados em ações levadas a efeito pela Secretaria da Saúde, na primeira gestão do Professor Walter Leser, em prol do declínio da mortalidade infantil e de crianças em São Paulo.

Ruy era assim. Notabilizava-se nas áreas pelas quais circulava. Seu Doutorado, em 1969, recebeu a Medalha de Ouro Ovídio Pires de Campos, outorgada a melhor tese defendida no Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. Em 1971, já na Faculdade de Saúde Pública, sua trajetória continuava brilhante e o Concurso de Livre-Docência, prestado em 1973, foi o responsável pela sua vinda, em caráter definitivo, para o campo da Saúde Pública.

Fatos importantes marcaram os meados da década de 1970. 1975, Ministro da Saúde Paulo de Almeida Machado. Ruy Laurenti é chamado para compor um pequeno grupo de especialistas que deveria estudar a criação de um Sistema de Informações em Saúde no país. Era o “start” para o início dos trabalhos em mortalidade. Modelo e fluxo da Declaração de Óbito padronizados — aspectos, hoje, considerados comezinhos — não existiam à época e… eis o Professor, como ele mesmo sempre dizia, “com a malinha na mão, viajando de Norte a Sul deste país”, para convencer associações médicas, secretários de saúde e universidades de que os dados de mortalidade eram essenciais à gestão da Saúde, que um sistema de informação nessa área se impunha como prioritário e que o atestado de óbito, gerado pelo médico, precisava ser bem preenchido. Apesar de não poucos obstáculos, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) cresceu, mostrou sua importância e frutificou, sempre com a colaboração do Professor Ruy, em seus estudos de avaliação e luta pela
melhoria de sua cobertura e da qualidade de seus dados.

Outro fato relevante foi a criação, em 1976, do Centro Brasileiro de Classificação de Doenças, por meio de um convênio entre OPAS/OMS, Ministério da Saúde e USP, do qual foi Diretor, desde então. O Centro tinha a responsabilidade de estudar os problemas relativos a estrutura, interpretação e aplicação da Classificação Internacional de Doenças, assessorar o Ministério da Saúde e a OPAS/OMS em atividades diretas e correlatas e promover o treinamento de pessoal especializado para o setor. Por essas tarefas, em várias oportunidades, foi homenageado, distinguido e premiado por essas instituições.

O concurso para Professor Titular, acontecido em 1979, guindou Ruy Laurenti a altos postos na Faculdade de Saúde Pública e na própria USP: Chefe de Departamento de Epidemiologia, Vice-Diretor, Diretor, Membro Titular da Congregação da Escola de Enfermagem, ainda sem quadro à época, Pró-Reitor de Cultura e Extensão, 1º Ouvidor Geral e Vice-Reitor. Em um momento difícil e conturbado da Universidade, em razão da renúncia do então Reitor, assumiu a Reitoria e, mesmo deixando de lado projetos pessoais, geriu a USP, com muito equilíbrio.

Aulas, palestras e orientação de alunos foram tarefas que ele nunca abandonou. Mesmo assumindo cargos e funções importantes, voltava à Faculdade para “cuidar das suas crianças”. Foram mais de 40 orientados, muitos dos quais são, hoje, professores universitários, dentro e fora da USP. Fazia isso com alegria, manifestando, sempre, confiança e respeito para com seus alunos.

Em 1989, na trilha aberta com o sucesso do SIM, foi ele “convocado” para integrar o Grupo de Estatísticas Vitais do Ministério as Saúde, que, nesse ano, concebeu e viabilizou o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), hoje, com cobertura e qualidade ímpares.

No ano de 1996, quando estudiosos da área de informação em Saúde, sob a égide da OPAS, se reuniram e criaram a Rede Interagencial de Informações para a Saúde (RIPSA), lá estava o Professor Ruy como “sócio-fundador”, como Mestre e como inspirador de todos nós.

Outro aspecto importante de sua vida acadêmica foi ter feito parte do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), onde esteve durante sete anos. De igual sorte, foi Diretor-Presidente da Fundação Oncocentro de São Paulo, de 1995 a 1999. Em gama variada de atividades, prestou sua colaboração a revistas científicas, sendo que foi um dos grandes incentivadores da criação da RBE – Revista Brasileira de Epidemiologia, na qual atuou como membro do Corpo Editorial desde o seu início.

Agosto de 2001. Nem mesmo a dura letra da lei, que determinava sua aposentadoria compulsória para o dia 15, foi capaz de tirar o Professor Ruy Laurenti das lides universitárias. O Programa de Professor Sênior da USP, que o abrigou durante 13 anos, permitiu que ele continuasse suas pesquisas, suas aulas e que novas publicações se juntassem à já extensa produção científica nas áreas de Epidemiologia, Estatísticas de Saúde, Classificação de Doenças, Informação em Saúde, Saúde Materna.

São, desse período, duas importantes pesquisas realizadas com financiamento da FAPESP, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
e da OPAS: mortalidade materna e o estudo do binômio mãe-filho, esta última com trabalhos que estão ainda sendo ultimados.

A USP, reconhecendo as qualidades de Ruy Laurenti no cumprimento exemplar dos três pilares da Universidade — ensino, pesquisa e prestação de serviços à comunidade — concedeu-lhe, em 2003, o honroso título de Professor Emérito.

O ano de 2007 marcou sua entrada como membro titular da Academia de Medicina de São Paulo e, em 2013, pelos relevantes serviços prestados à Medicina, recebeu a Comenda Sérgio Arouca, do Conselho Federal de Medicina.

Em 2014, é assinado convênio com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo para a revisão do “livrinho verde” sobre atestado de óbito — que o Conselho passava a encampar — e para a elaboração de uma publicação sobre “Informação em Saúde: o papel do médico”. Era mais um sonho que se concretizava.

Pelas pesquisas, que pautaram toda a sua trajetória na USP, e, em reconhecimento à relevante contribuição científica e acadêmica, foi agraciado, pelo CNPq, com o título de Pesquisador Emérito. À cerimônia não pôde comparecer, mas o Professor Victor Wünsch Filho, nosso Diretor, sensibilizado e orgulhoso, em nome da Faculdade de Saúde Pública, representou-o na festa de outorga do prêmio, em 5 de maio último.

12 de junho de 2015. O destino tira o Professor Ruy Laurenti do nosso convívio. Ele nos deixa, entretanto, como legado, o exemplo de que, no trabalho, é preciso continuar, sempre, lutando pelas coisas nas quais se acredita — sem parar —, aceitando as novas tarefas e os desafios que a vida impõe. E, nas nossas cabeças e nos nossos corações, fica a lembrança de que Ruy Laurenti, apesar de ser destaque nos cenários nacional e internacional na área da Saúde, manteve, sempre, a simplicidade, que era, afinal, a sua marca registrada.

Agora, eu falo na primeira pessoa.
Ruy, sua Escola se despede de você. Sua vida e sua obra continuarão, entretanto, a ser referência para a sua equipe, seus amigos e seus alunos.
Agradecemos tudo o que você nos ensinou e tudo o que você fez 
pela Saúde Pública deste país.

São Paulo, 04 de julho de 2015

Maria Helena Prado de Mello Jorge

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Um comentário sobre “a linha do tempo – artigo de Maria Helena Mello Jorge sobre Ruy Laurenti

  1. Como tantos médicos sanitaristas fui aluno do Professor Ruy Laurenti, no Curso de Saúde Pública da USP, em 1979. Duas características do grande mestre ficaram na minha memória e na minha vida profissional: a simplicidade, que mal escondia a inquietude intelectual, e a maneira descomplicada de apresentar as estatísticas vitais.
    Guardo com carinho na memória a sua mansidão na sala de aula, demonstrando paciência com nossas dificuldades de assimilar conceitos básicos dessa área.
    Ele é um dos seres humanos de quem certamente se pode dizer que foi imprescindível.