José Luís Fiori: diante da pandemia, um mundo sem líderes nem solidariedade


“Quando um cientista social fala sobre o futuro, ele diz muito também dos seus desejos e utopias, no intuito de transmitir um certo ânimo. Já quando são analistas, quase sempre adotam uma linha mediana. O que me proponho é refletir sobre o presente” começou assim José Luís Fiori sua participação na sessão “O mundo após a pandemia: cenários”, realizada em 23 de junho, dentro da programação da Ágora Abrasco. A coordenação foi de Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Abrasco e pesquisador do Núcleo de Bioética e Ética Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUBEA/UFRJ). A sessão inaugurou um novo ciclo de sessões da Ágora Abrasco, pensado para ajudar a comunidade científica a antecipar cenários e produzir alternativas e estratégias de valorização da saúde pública e coletiva (veja mais abaixo). Coordenador do Programa de pós-graduação em Economia Política Internacional do Instituto de Economia da UFRJ, e tendo composto o corpo docente do Instituto de Medicina Social da UERJ, o economista abordou o cenário do planeta sob a pandemia a partir de três eixos: pelos aspectos socioeconômico, geopolítico e pela governança global.

Novo coronavírus: a ubiquidade como marca: A ubiquidade, ou seja, a capacidade de estar ou existir concomitantemente em todos os lugares, pessoas, coisas, e assim provocar e/ou desencadear e/ou acelerar uma série de situações até então não pensadas/não previstas é uma das grandes proezas do SARS-CoV-2. “É uma doença extremamente dolorosa para quem a contrai, por conta da solidão de quem a vive, tanto de quem sobrevive como quem não, numa morte por asfixia extremamente assustadora, o que sublima a natureza do medo e pânico que ela causa, para além do vírus e da própria epidemia.”

Como destacado por Fiori, Medo, pânico e isolamento são elementos utilizados por Estados e mercados na manipulação das populações. No entanto, as ações de isolamento seguem valendo como a única coisa que tem surtido efeito para a redução da disseminação do vírus, o que leva à promoção de uma solução egóica, apesar de só ser efetiva se coletiva. “A humanidade está enfrentando essa pandemia sem líderes nem solidariedade, fruto dessa profilaxia do egoísmo”, disse o decano, destacando a atomização dos desafios provocados pelo coronavírus, como o agravamento do cenário econômico e do movimento de crises do capital.

Apesar de todo esse ineditismo, a reorganização do capitalismo como resposta à crise não está sendo muito diferente das respostas comuns, com concentração de capital, uma robotização ainda mais acelerada das linhas produtivas, e uma grande destruição de empregos, “que assim permanecerão por muito tempo, quiçá, para sempre “. O pesquisador ressaltou a previsão de queda do PIB mundial em torno de 5%. “O Brasil, numa boa e otimista previsão, terá queda de 8,5%” apontou Fiori, para quem confirma-se a cada dia a liderança da Ásia, puxada pela China, no novo cenário global. A região sairá com saldo positivo, em primeiro lugar, será com previsão de crescimento de 1, a 1,5% para o ano que vem, enquanto a América Latina seguirá por uma grande recessão, por no mínimo, uns bons anos. “Já se sabe que não haverá uma recuperação em forma de U”, ressaltou ele.

Novos jogos de guerra: Tal efeito e agravamento na concentração de renda, com reforço das medidas ultraliberais e proliferação do desemprego, tem força para desencadear uma série de sublevações e rebeldias que poderão mexer com as ordenações dos regimes, seja pela força dos debaixo, ou pela contenção das elites ameaçadas. Essas expressões, já visíveis, como o movimento “Black lives matter”, entre outros, conduziu Fiori aos aspectos geopolíticos da análise, sobre a qual teceu considerações. Ele vê uma reordenação da ordem mundial e suas polaridades, como fruto de ‘sequência’ do impacto da pandemia nas ações no campo militar e diplomático, mexendo com as relações de três potências centrais que reafirmam seus poderios: os EUA, a Rússia e a China.
Prova desse movimento é a escalada militar desses 3 países, que movimentam bases, tropas e veículos em vários pontos do tabuleiro, citando ações da China em Hong Kong; da Rússia no norte da Europa; e dos EUA, que vem fazendo movimentações de seus porta-aviões em todos os oceanos. Quem mais sofre com isso são os mecanismos de governança global. Criados no cenário da democratização do Pós-Guerra, suas instituições, como as Organizações das Nações Unida (ONU); Organização Mundial do Comércio (OMC); e Organização Mundial da Saúde (OMS) são publicamente desidratadas, tanto política como economicamente.

Ao final, Fiori teceu considerações sobre os dois países que lideram a explosão: os EUA e Brasil. A reeleição de Trump, que estava praticamente garantida, tem grandes chances naufragar com uma economia degringolada e disparada no desemprego, deixando escancarada a incompetência do Estado americano. “Hoje está claro que Trump é um blefe, sendo atacado inclusive pelos falcões da direita americana”.

Já o Brasil, cuja economia já marchava para a estagnação antes da pandemia, mostrou-se sem nenhum projeto de governo, sendo, nas palavras de Fiori, governado por um inepto, num cenário epidêmico que não tem política de saúde, não tem ministério, não tem ministro. “A descoberta é que estamos sem Estado. O Estado brasileiro se decompôs, foi sistematicamente destruído pelos dois últimos governos. Não há quem acredite nessas instituições e não existe respeito mútuo; não existe cadeia de comando” vaticinou Fiori. Sobre a imprevisibilidade do cenário, Fiori encerrou amarrando os pontos de sua fala. “Com certeza o agravamento dessa triangulação na ordem mundial não será resolvido com uma guerra fria. É um tempo em aberto, não conseguimos ter certeza quem ganhará as eleições americanas, não sabemos o que dizer do cenário que rumará Brasil. Encerro com Gramsci: “velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, há uma grande variedade de monstros’.

Novo ciclo: Os desafios que se apresentarão ao mundo e ao Brasil que já vêm sendo tematizados pela mídia e estão nas cabeças das pessoas inspirou o novo ciclo, batizado Cenários pós-pandemia. “Serão cinco painéis que vão abordar as novas etapas e momentos da pandemia, com todas as dúvidas sobre seu término e continuação” disse Reinaldo Guimarães. O próximo ciclo acontece nesta sexta.

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