Covid-19 é parte da história cultural – Artigo de Dina Czeresnia

As respostas à pandemia do novo coronavírus demandam centralmente a estrutura das ciências, instituições e profissionais de saúde, são um desafio gigantesco. A especificidade do conhecimento e das intervenções deve estar articulada à construção de um pensamento epidemiológico abrangente.

Rudolf Virchow (1821-1902),  eminente patologista e médico social, entendeu as epidemias como consequência do processo histórico, definiu-as na época como “naturais” ou “artificiais”, relativas tanto ao clima, mudanças de estação, como ao desenvolvimento das sociedades e aos “defeitos” produzidos pela organização política e social. Na primeira metade do século XIX, escreveu: “As epidemias são manifestações significativas do processo histórico. Irrompem em pontos nodais da história. A história das doenças epidêmicas deve ser uma parte inseparável da história cultural da humanidade”.

Na época, havia conflitos entre duas teorias sobre as epidemias.  Contagionistas entendiam que ela era proveniente do contato pessoa a pessoa e de objetos contaminados. Anticontagionistas, como Virchow, defendiam que a epidemia se propagava por miasmas (emanações atmosféricas)  gerados por um conjunto de circunstâncias ambientais desfavoráveis:  climáticas, sazonais e derivadas das condições de vida e trabalho.

Na década de 1860, a demonstração experimental da teoria dos germes por Pasteur (1822-1895) tornou a perspectiva contagionista hegemônica. Na verdade, a microbiologia produziu uma transformação conceitual. Não fazia sentido polarizar entre dois meios de disseminação, importava identificar o agente e seu modo específico de transmissão, seja pelo contato ou pelo ar.

Após a legitimação da teoria microbiológica, permaneceram embates teóricos articulados a distintas visões de mundo e posicionamentos políticos. Anticontagionistas argumentavam que não bastaria agir sobre microorganismos específicos, mas compreender e intervir de modo integrado aos contextos que favoreciam o surgimento das doenças.

Um reforço a essa ideia foi o fato de a diminuição da mortalidade por doenças infecciosas ter ocorrido nos países desenvolvidos desde o final do século XIX com a melhoria nas condições de vida, sobretudo alimentação. Isso ocorreu bem  antes da produção dos primeiros antibióticos e da maioria das vacinas, a partir do final da Segunda Guerra Mundial. O desenvolvimento biotecnológico acentuou o decréscimo  da mortalidade por doenças transmissíveis, mas velhas epidemias ressurgem e novas emergem. Exemplos mais recentes são Aids, Sars, Mers, Ebola.

O enfrentamento inicial da pandemia pelo Sars-Cov-2 atualiza uma intervenção medieval: a quarentena. Diferentemente do passado, hoje se conhece o vírus, seu modo de transmissão, reprodutibilidade e letalidade. Estimativas predizem o colapso, sobretudo dos sistemas de saúde. O isolamento, associado a medidas econômicas de proteção das populações vulneráveis, se afirma como  alternativa racional para frear o desastre.

Assim como aconteceu no início da pandemia de Aids, a Covid-19 fez retornar sentimentos de pânico associados ao contágio das antigas “pestes”. Contágio, termo etimologicamente ligado à contato, aponta o sentido primordial das  interações que constituem a vida. A noção de contágio remete ao sofrimento, à morte, à desestruturação da vida social e econômica no contexto das epidemias. Ao mesmo tempo, evidencia como o contato  é necessário e vital.

O impacto da nova pandemia é monumental. Aprendendo com essa assombrosa experiência, urge atualizar o pensamento epidemiológico que Virchow expressou no século XIX: as epidemias irrompem em pontos nodais, fazem parte da história cultural da humanidade.

No século XXI, não faz sentido demarcar epidemias “naturais” de “artificiais”. O contexto da pandemia atual é indissociável dos alertas contra desordens climáticas produzidas por queimadas, desmatamentos, queima de fósseis combustíveis; consumismo desenfreado;  alta concentração de renda e desigualdade extrema.

São opções civilizadoras que nos conduziram a uma situação limite, a um ‘nó’. É bom lembrar que a emergência de uma grave pandemia respiratória era uma potencialidade prevista e monitorada pelos sistemas de vigilância epidemiológica globais. Um imenso desafio ecológico-sanitário persistirá após o controle desta Covid-19 e será inteligente levá-lo a sério.

Grandes epidemias desvelam simultaneamente atitudes de extremo egoísmo e de grande solidariedade. Alguns expõem um lado destrutivo que se dissemina a favor da doença. Ao mesmo tempo, a solidariedade assumida capilarmente sinaliza posturas em outra direção. Em meio ao retorno de uma experiência originária como a do contágio, vale potencializar a criação de novos valores, constituir e sustentar modos de ser consonantes com a interdependência cada vez mais perceptível, sobretudo neste momento.

*Dina Czeresnia é médica e pesquisadora aposentada da Fiocruz. O artigo foi originalmente publicado no jornal O Globo em 19/04/2020. 

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