Lígia Bahia defende fila única e mais recursos para o SUS: “Tivemos quatro meses para nos preparar”

Leitos prontos para receber pacientes no Pará, em abril. Foto: Ag. Pará

“A gente está levando uma surra de dez a zero da pandemia no Brasil”, afirmou Lígia Bahia, integrante da Comissão de Política, Planejamento e Gestão (CPPG/Abrasco) e coordenadora do Grupo de pesquisa e documentação sobre empresariamento na saúde, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GPDES-IESC/UFRJ), em entrevista à Agência Pública. Na matéria, a abrasquiana defende a fila única para atendimento intensivo no Brasil, critica a gestão no Ministério da Saúde e a falta de recursos.

A fila única é prática adotada em diversos países diante da pandemia. No Brasil, a Abrasco e diversas entidades apoiam iniciativas que têm como objetivo a regulação dos leitos de UTI, privados e públicos, para o atendimento e a garantia do acesso universal e igualitário aos pacientes. As campanhas Vidas Iguais e Leitos para Todos unificaram forças para mobilizar a sociedade – clique e assine no abaixo-assinado.

Lígia Bahia, ao explicar o problema das UTIs no país para a Agência Pública, condenou a falta de preparação brasileira. “No Rio de Janeiro, só 35% dos leitos de UTI são públicos, por exemplo. O vazio sanitário não está só nos grotões – isso é uma visão de senso comum –, nós temos um vazio sanitário neste momento no Rio de Janeiro, onde as pessoas estão morrendo nas UPAs (…) A gente poderia ter aproveitado a intertemporalidade da epidemia. Tivemos quatro meses para nos preparar para essa epidemia e não aproveitamos esse tempo”, afirmou a pesquisadora.

Em abril, o GPDES-IESC/UFRJ publicou nota técnica em conjunto com o Grupo de Estudos sobre Planos de Saúde do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (GEPS – FM/USP), coordenado pelo também abrasquiano Mário Scheffer. A nota defende a regulamentação da fila única para os leitos “Se mantido inalterado neste momento de emergência sanitária, esse padrão de desigualdade caracterizado pela maior oferta de recursos hospitalares para a minoria da população será um grande obstáculo à redução das taxas de letalidade durante a pandemia”, diz o documento.

Para a Agência Pública, Lígia Bahia disse que haverá mortes excessivas entre a população mais pobre no Brasil e que, nos Estados Unidos, já há estudos que mostram que negros e latino-americanos morrem mais que brancos, por conta do acesso desigual da população aos serviços de saúde. “Os pobres podem morrer mais. Claro que vão morrer mais pobres do que ricos, porque há mais pobres do que ricos. Mas, padronizando, haverá mortes excessivas entre os mais pobres. Isso já está acontecendo”, pontuou.

Em 20 de maio, prevendo o colapso no sistema de saúde, o governo de São Paulo fez chamamento público para a contratação de 4,5 mil leitos da rede privada, sendo 1,5 mil de UTI. Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan e coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, explicou, em entrevista à Agência Brasil, as dificuldades dos tempos atuais. “A epidemia mostra, neste momento, sua face mais atroz, com mil mortes por dia. É a maior causa, nesse momento, de mortalidade no Brasil. Já é a primeira causa de mortalidade. Superou todas as demais como as doenças cardíacas e o câncer. É uma situação realmente muito difícil”.

Lígia Bahia afirmou à Agência Pública que o setor privado no país é muito poderoso, “tanto em termos econômicos quanto em termos políticos”, e classificou o Ministério da Saúde como “fraco”. Para a pesquisadora, a falta de recursos agrava a situação. “Estava prevista a liberação de R$ 26 bilhões para a Saúde e só foram liberados R$ 8 bilhões e, desses oito, só se gastou cinco. Quais são as palavras? Muito pouco e muito tarde. Os recursos são ínfimos e estão chegando muito tarde. Um ministério que não consegue captar o recurso previsto é um ministério muito fraco”, concluiu.

Leia na íntegra a matéria da Agência Pública e a matéria da Agência Brasil.

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