Em defesa da vida: Abrasco se posiciona a favor da vacinação das crianças

Documento em resposta à Consulta Pública SECOVID/MS nº 1, de 22 de dezembro de 2021 do diário oficial da união Foto: CDC/Unsplash

Após rigorosa análise da literatura científica sobre a vacinação contra a Covid-19 entre crianças de 5 a 11 anos de idade, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva concluiu que é um imperativo ético vacinar esse público no Brasil o mais rapidamente possível conforme aprovação emitida pela Anvisa. Há sólidas bases científicas que atestam a efetividade e a segurança da vacina junto a crianças dessa faixa etária. Soma-se aos ensaios clínicos já conduzidos o acompanhamento de mais de 7 milhões de crianças já vacinadas no mundo. Não se observaram reações adversas que justifiquem a procrastinação da vacinação em um país que apresenta alta carga de morbidade e de mortalidade por Covid-19 entre crianças. O maior risco relativo de óbitos pela doença entre idosos não torna o risco absoluto entre crianças pequeno. Muito pelo contrário, sabe-se, inclusive o Ministério da Saúde dispõe dessa informação, que durante a pandemia morreu uma criança por Covid-19 a cada dois dias. Também é de conhecimento público que a Covid-19 é uma das principais causas de óbito entre crianças. Adicionalmente, casos de Covid-19 nesse público levam a interrupções de aulas com evidente prejuízo educacional, contribuem para a disseminação comunitária do vírus, podem levar a repercussões negativas duradouras nas crianças – covid longa – e sobrecarga de serviços de saúde. Caso o Ministério da Saúde deseje basear sua ação na ‘evidência científica de qualidade, na questão da segurança e da eficácia’, não há outra possibilidade senão o imediato início da vacinação para toda população brasileira de 5 a 11 anos de idade. Junto à vacinação, o mesmo ministério deve iniciar campanha massiva de esclarecimento da segurança e da efetividade da vacina junto aos pais e à sociedade brasileira.

Em suma, a ciência é inequívoca em mostrar que a vacina contra covid-19:

  • é efetiva e segura para crianças de 5 a 11 anos de idade;
  • protege a saúde das crianças, diminuindo os riscos de hospitalizações, óbitos e sequelas da doença;
  • contribui para diminuir paralisações de aulas e perda de dias letivos entre crianças;
  • contribui na proteção coletiva, ajudando a diminuir a circulação do vírus.

O Ministério da Saúde dispõe dessas informações, sua Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid-19 já aprovou por unanimidade a vacinação de crianças no país e a Anvisa aprovou eficácia e segurança da vacina. Não é admissível encaminhamento diferente por parte do Ministério da Saúde que não o início imediato da vacinação contra Covid-19 entre crianças de 5 a 11 anos de idade no Brasil.

+ Este é o posicionamento oficial da Abrasco para a Consulta pública SECOVID/MS nº1 “para manifestação da sociedade civil a respeito da vacinação contra a covid-19 em crianças de 5 a 11 anos de idade – Clique no link, acesse a Consulta Pública e manifeste-se.

CONTEXTO

Durante quase todo o primeiro ano da pandemia só pudemos contar com medidas não-farmacológicas para proteger as pessoas da COVID-19, como máscaras, distanciamento físico, melhoria da qualidade do ar, etiquetas de higiene1 e testagem com isolamento dos indivíduos positivos e acompanhamento dos seus contatos2.

Utilizando tecnologias seguras e conhecidas há décadas – por meio do esforço conjunto de pesquisadores de diferentes laboratórios do mundo, de grande montante de recursos financeiros que muitos países disponibilizaram e com o grande número de casos de Covid-19 – foi viável o desenvolvimento de grandes estudos de desenvolvimento de vacinas contra a doença. Da mesma forma, foi possível realizar estudos de intervenção em curto espaço de tempo, assegurando-se efetividade e segurança dos compostos. As vacinas desenvolvidas e que tiveram sucesso nos rigorosos estudos foram analisadas pelas agências reguladoras de diversos países e pela Organização Mundial de Saúde e ficaram disponíveis a partir do final do segundo semestre de 2020.

As crianças foram identificadas inicialmente como um grupo de menor risco de óbitos pela doença3 quando comparadas a outros grupos etários. Ainda assim, sofrem com alta carga de morbidade, internações e óbitos, com diagnóstico de múltiplos casos de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P) e covid longa4. Assim, o menor risco de óbitos entre crianças ao se comparar com idosos não permite concluir que o risco absoluto da doença entre crianças seja pequeno. Afirmações nesse sentido não são baseadas em dados concretos.

No Brasil, do início da pandemia até a primeira semana de dezembro de 2021, 6.163 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por Covid-19 e 301 mortes foram registradas na faixa etária entre 5 e 11 anos de idade5. Trata-se da segunda principal causa de óbito em 2020 entre crianças de 5 a 11 anos de idade e supera em mais de duas vezes a soma de todos os óbitos por outras doenças evitáveis por meio da vacinação. E mais, 2.435 casos suspeitos da SIM-P associada à COVID-19 em crianças e adolescentes menores de 20 anos foram registrados no país até o dia 27/11/21, sendo que 58% (1.412) dos casos foram confirmados e 85 foram a óbito6. Dentre as crianças com SIM-P, quase 2/3 (64%) tinham entre 1 e 9 anos de idade; entre as que foram hospitalizadas, 44,5% foram para uma UTI e a letalidade foi de 6%, ou seja, cinco vezes maior que aquela registrada nos Estados Unidos7.

Ademais, a desigualdade no processo de vacinação no mundo tem propiciado o aparecimento de novas variantes. Uma das mais recentes é a Ômicron, variante que mais apresentou mutações até o momento. Estudos iniciais têm sinalizado sua maior capacidade de infecção e menor efetividade de duas doses de vacina para o seu enfrentamento. A expansão da Delta (representava quase 100% dos casos no mundo, incluindo o Brasil) e da Ômicron (que já representa mais de 70% dos casos em diversos países que já relataram casos), a flexibilização das medidas de isolamento e a volta às aulas fizeram das crianças e adolescentes um grupo cujas mortes por COVID-19 de janeiro a setembro de 2021 já ultrapassavam aquelas ocorridas em 2020 pela mesma causa. Na Europa, a faixa entre 5 e 14 anos tem sido a mais afetada pela nova onda de COVID-198. E mais uma vez, nenhuma outra doença imunoprevenível causou tantos óbitos nesta faixa etária como a COVID-19 no Brasil.

O uso da vacina pediátrica da Pfizer/BioNTech contra a Covid-19 é aprovado pelas agências reguladoras de saúde pública de inúmeros países, como Canadá, Estados Unidos da América, Israel e União Européia, que analisaram rigorosamente sua eficácia e segurança. Outros países da Ásia, África, e América do Sul estão fazendo uso das vacinas de vírus inativado (Sinopharm ou Sinovac/Coronavac) e vacinaram com sucesso milhões de crianças menores de 12 anos, inclusive a partir de 3 anos. Cuba, Chile, China, El Salvador e os Emirados Árabes Unidos fazem parte de outro grupo de países que avançaram na vacinação das crianças menores de 12 anos. Um estudo realizado na Inglaterra com quase 40 milhões de pessoas vacinadas com pelo menos uma dose da vacina ChAdOx1 (AstraZeneca), BNT162b2 (BioNTech/Pfizer) ou mRNA-1273 (Moderna) avaliou o risco de miocardite/pericardite entre os vacinados com 16 anos ou mais. Os resultados mostraram que o risco de eventos de miocardite foi de dois, um e seis eventos para 1 milhão de vacinados com AstraZeneca, BioNTech/Pfizer ou Moderna até 28 dias da primeira dose, respectivamente. Enquanto isso, se registraram 40 casos por 1 milhão de pessoas que apresentaram um teste positivo para SARS-CoV-29. Ou seja, a vacinação contra Covid-19 entre crianças de 5 a 11 anos vem mostrando que os benefícios têm superado em muito os possíveis riscos, fator central para que uma vacina seja incorporada pelos programas de vacinação no mundo e no Brasil.

  1. Aquino EML et al. Social distancing measures to control the COVID-19 pandemic: potential impacts and challenges in Brazil. Ciência & Saúde Coletiva, 25(Supl.1):2423-2446, 2020.
  2. World Health Organization. Laboratory testing strategy recommendations for COVID-19. 22 Mar 2020. https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/331509/WHO-COVID-19-lab_testing-2020.1-eng.pdf.
  3. Bunyavanich, S. et al. Nasal Gene Expression of Angiotensin-Converting Enzyme 2 in Children and Adults. JAMA. 323(23):2427-2429, 2020.
  4. A.G. et al. Toxic shock-like syndrome and COVID-19: Multisystem inflammatory syndrome in children (MIS-C). The American Journal of Emergency Medicine. 38 (11):2492.e5-2492.e6, 2020.
  5. Ministério da Saúde. https://opendatasus.saude.gov.br/ro/dataset/bd-srag-2021.
  6. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde, 2021.
  7. Relvas-Brandt, L.A. et al. Multisystem inflammatory syndrome in children: a cross-sectional study of cases and factors associated with deaths during the COVID-19 pandemic in Brazil. Epidemiol. Serv. Saúde 30 (4), 2021.
  8. https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/12/oms-pede-mais-protecao-para-criancas-em-nova-onda-de-covid.shtml.
  9. Patone, M. et al. Risks of myocarditis, pericarditis, and cardiac arrhythmias associated with COVID-19 vaccination or SARS-CoV-2 infection. Nature Medicine. https://doi.org/10.1038/s41591-021-01630-0.

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