ISEE 2015: Intercâmbio e qualidade científica marcam edição brasileira


Discussões sobre as iniquidades em saúde e suas relações entre os determinantes ambientais e sociais produzidos no mundo contemporâneo alimentaram debates científicos e troca de conhecimentos por 624 pesquisadores juniores e seniores durante os cinco dias da 27ª Conferência Internacional de Epidemiologia Ambiental, realizada entre os dias 31 de agosto e 03 de setembro, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo.

“Foi uma emoção muito grande para uma entidade presente em mais de 70 países realizar sua primeira Conferência na América do Sul. O professor Nelson Gouveia fez um trabalho formidável e fomos muito bem recebidos”, disse Francine Laden, professora da Harvard TH Chan School of Public Health e presidente da International Society for Environmental Epidemiology (ISEE) ao avaliar o evento um pouco antes da sessão de encerramento. O encontro anual da Sociedade foi uma coprodução da Abrasco e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Antes de desejar bom retorno aos participantes, Nelson Gouveia apresentou os números do evento. A maior delegação veio dos Estados Unidos, num total de 211 inscritos. Os brasileiros, com 147 pessoas – a maioria do estado de São Paulo – formaram a segunda maior delegação, apesar da maioria estrangeira. Recebemos 523 cientistas atuantes em 46 diferentes países.

Mesmo com a baixa participação de pesquisadores dos países do ConeSul – apenas 9 do Chile e 3 da Argentina – o presidente da Conferência aposta numa maior presença latino-americana para as próximas edições. “A escolha de sediarmos aqui em São Paulo e no Brasil a Conferência passou por dar maior visibilidade a esses debates dentro do país e do continente, assim como possibilitar aos membros da ISEE ver nossa produção científica. A gente sempre encontrava um ou outro, mas a presença era pequena. Tenho certeza que a presença brasileira será bem maior nos próximos anos”, disse Gouveia.

Para ele, integrante da gestão 2012-2015 da Abrasco, a experiência de organizar e realizar um evento voltado para um menor público e com diferente formato pode e deve ser proveitosa para a Associação. “De toda a programação científica, 95% das atividades foram as exposições e debates dos trabalhos submetidos, com somente uma sessão com convidados de peso por dia, e num evento de periodicidade anual. Acho que fica a ideia para próximos encontros da Abrasco”.

Variedade temática e formação de novos quadros: Voltada para o treinamento, divulgação e com um importante trabalho de advocacy junto ao governo dos Estados Unidos e à União Europeia, além da defesa de pesquisadores ameaçados por conta de levantamentos e investigações, a ISEE conseguiu congregar em sua Conferência um denso e elogiado corpus científico nos trabalhos apresentados: foram 410 apresentações orais e 431 pôsteres ao total sobre os mais variados temas em epidemiologia, epidemiologia ambiental e saúde.
Em que pese a temática dedicada aos agravos de saúde causados pela poluição do ar e por intoxicações serem as maior prevalência, estudos sobre os alterações em saúde por conta das mudanças climáticas; papel das áreas verdes para a saúde física e mental; novos modelos para mensurações toxicológicas e inquéritos em saúde infantil tiveram também espaço.

Outro ponto destacado por Gouveia e Francine e que ficou expresso pelos depoimentos colhidos no evento foi a participação de jovens pesquisadores, todos com formação qualificada e atuantes em suas instituições, conectados e interessados em novas formas de colaboração. “Essa é a atividade primeira da Sociedade e percebemos como eles ficam entusiasmados com essa oportunidade de troca de conhecimentos”, explicou Francine. Um encontro social realizado no segundo dia do evento reuniu mais de mais de 100 pessoas, entre jovens e destacados pesquisadores numa atividade que congregou discussão científica e boas música e comida. “Há um forte sentimento em estar ensinando e formando novas gerações de pesquisadores para a nossa área”, completou Francine.

O trabalho desses jovens talentos é reconhecido por meio de premiações. O Rebecca J. Baker Memorial Prize, uma homenagem à jovem pesquisadora falecida em 2004, é uma dessas comendas e foi concedida a Saira Tasmin. Nascida em Kulna, cidade ao sul de Bangladesh, e formada em Farmácia, ela fez o doutorado na Universidade de Tóquio e já está no pós-doutorado da Divisão de Saúde Ambiental da Universidade de Quioto, ambas no Japão. Aos 31 anos, foi a primeira vez que Saira esteve numa Conferência da ISEE para apresentar seu estudo “Seasonal modification in the effect of short-term exposure to ambient fine particulate matter on the lung function of school children in Dhaka, Bangladesh”.

Ela realiza trabalhos de campo de três a quatro meses ao ano no país natal e retorna aos centros japoneses para a apuração dos dados. “Bangladesh é um país em desenvolvimento e faltam muitas políticas públicas. Dacca é uma cidade que sofre muito com a qualidade do ar e resolvi fazer algo sobre isso”, explicou a jovem, feliz em estar no evento: “Num campo de pesquisa tão grande, poder conhecer jovens pesquisadores como eu é um grande incentivo e motivo de entusiasmo”, disse Saira. Stephanie Lanzinger também recebeu a menção de honra do Rebecca J. Baker Memorial Prize e outros quatro jovens tiveram seus pôsteres e apresentações orais premiados dentro do conjunto das sessões.

A perspectiva do evento, que acertou no tema e debates centrais, assim como na qualidade científica também foi elogiada por outros profissionais e dirigentes da Saúde. “Acompanho desde a primeira, realizada nos Estados Unidos, e esta, com certeza, foi o que contou com o maior número de participantes. O nível dos trabalhos está muito bom e o evento abraçou de fato o tema da iniquidade, reunindo as questões da determinação social e ambiental e suas relações com a saúde”, avaliou Guto Galvão, diretor do Departamento de Desenvolvimento Sustentável e iniquidades em Saúde da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS/OMS).

Durante a Conferência, a ISEE realizou também sua Assembleia Anual e elegeu nova diretoria. É política da Sociedade intercalar a direção entre pesquisadores norte-americanos e europeus e, para seguir a tradição, a presidência será conduzida pelos próximos dois anos por Manolis Kogevinas, pesquisador do Centro de Recerca em Epidemiologia Ambiental (CREAL), sediado em Barcelona, Espanha. A 28ª edição será na Itália, entre os dias 01º e 04 de setembro de 2016, no Auditorium Parco dela Musica, em Roma e terá presidência de Francesco Forastiere, do Serviço Nacional de Saúde da Região do Lazio.

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