Desafios na prevenção unem as pontas da HIV/Aids e outras ISTs com a Covid-19

Como a Covid-19, a primeira pandemia do século XXI, irá ressignificar a Aids, a última pandemia do século XX, e nós como sociedade podemos aproveitar uma bagagem de mais 30 anos de pesquisas e ações da ciência e da sociedade civil em torno do HIV e potencializar o enfrentamento ao SARS-CoV-2? Essas questões atravessaram a sessão Prevenção, tratamento e cuidado ao HIV/AIDS e outras IST durante a pandemia de Covid-19: adaptações, desafios e telessaúde, realizada em 25 de junho dentro do âmbito da Ágora Abrasco. O colóquio trouxe especialistas do campo que debateram diversas questões. Os desafios são muitos: manter serviços, lidar com inseguranças, adaptar rotinas, buscar estratégias, proteger vulneráveis, garantir medicamentos, defender a vida.

A atividade contou com as participações de Maria Clara Gianna, coordenadora adjunta do Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo; Inês Dourado, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA); Alexandre Grangeiro, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM/USP); e Veriano Terto Júnior, vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia). A coordenação foi de Laio Magno, professor do Departamento de Ciências da Vida da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

Laio Magno abriu o colóquio prestando solidariedade às famílias das vítimas da Covid-19 no Brasil. lembrando que estamos no mês do orgulho LGBTQI+ e dos desafios com a diminuição do financiamento de serviços de prevenção e cuidado ao HIV e outras ISTs e que isso afeta, principalmente, os mais vulneráveis.

Maria Clara Gianna falou sobre a rotina no Centro de Referência e Treinamento (CRT) DST/Aids- São Paulo, destacando as adaptações. “Fomos surpreendidos e tivemos que reorganizar nosso trabalho. Nesses três meses, convivemos com afastamento, adoecimento e óbito de profissionais de saúde”, disse.

A coordenadora adjunta do Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo disse que a equipe realiza reuniões diárias para pensarem nas estratégias. “Fizemos muitas coisas, mas deixamos de fazer outras também. São muitos desafios, como manter os serviços abertos, lidar com nossas inseguranças e com a insegurança dos usuários”, pontuou, destacando ser desafiador manter o fornecimento de medicamentos antirretrovirais para todos, o funcionamento das unidades dispensadoras de medicamentos, a orientação dos usuários nos centros de testagem, a manutenção das estratégias de prevenção durante a pandemia e a ampliação do acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), principalmente entre os mais vulneráveis. “Como lidar com o grande desafio? Temos a noção clara que a Covid-19 vem para agravar a vulnerabilidade das pessoas, expondo ainda mais as desigualdades”, afirmou.

Inês Dourado também pontuou sobre a necessidade da manutenção dos serviços de PrEP, e falou sobre o projeto PrEP 15 19, coordenado por ela na Bahia, e que é voltado a adolescentes e Homens que fazem sexo com Homens (HSH), travestis e mulheres trans, de 15 a 19 anos. A professora afirmou que “devemos nos unir pra proteger pessoas LGBTQI+”, pois em tempos de crise são os marginalizados que sofrem mais. Mostrando estudos sobre PrEP e Profilaxia Pós-Exposição (PEP), Inês Dourado afirmou que a demanda para os serviços é contínua, já que “pode ter havido diminuição da frequência das práticas sexuais, mas elas não pararam”.

Sobre o uso de novas tecnologias, a professora afirma que é um tema que precisa ser discutido. “A Covid-19 acelerou o uso de tecnologias, como telessaúde, que tem vantagens e pode ser promissor para o futuro, mas tem desafios também, como o alcance de populações vulneráveis”, ressaltou.

Alexandre Grangeiro iniciou sua apresentação destacando a desorganização institucional por que passa o Ministério da Saúde, impedindo uma política de coordenação e articulação nacional no enfrentamento à pandemia da Covid-19. O professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo disse que fala em caráter de provisoriedade, pois “é difícil assumir verdades absolutas em tempos de pandemia” e que há relatos consistentes de empobrecimento familiar e do aumento da situação de violências, principalmente em populações mais vulneráveis.

Há sobreposição nos planos de assistência para pessoas com HIV e a longa duração da epidemia da Covid-19 no Brasil pode agravar a situação. “É muito provável que um prolongamento da pandemia terá impacto negativo na assistência”, disse.

A saúde mental das pessoas é uma preocupação, pois a epidemia tem aumentado as demandas, principalmente na população mais exposta ao HIV, agravando um quadro já existente. Segundo o pesquisador, durante a pandemia, “das pessoas que buscaram PrEP, 30% necessitavam de atendimento de saúde mental imediato”, disse.

Veriano Terto Júnior falou sobre as epidemias, de Aids e da Covid-19, sobre os impactos na vida das pessoas e sobre invisibilidade. “Precisamos quebrar os silêncios, as tentativas de silêncio, que envolvem a pandemia. Muitos morrem de forma anônima hoje, na atual pandemia, e a Aids continua sendo uma epidemia de invisibilidade, muitos sem acesso a medicamentos no mundo”, disse.

O vice-presidente da Abia disse que vê mobilizações comunitárias, inclusive ‘dentro do mundo do HIV’, pontuando que “são respostas a essa situação de emergência, da falta de dinheiro, de medicamentos, mas o que leva a essas vulnerabilidades é um desafio que a gente tem pela frente”. Sobre as epidemias, Veriano Terto falou sobre diferenças, como financiamento, e semelhanças, como estigma, vulnerabilidades e vacinas. “Quando a Aids chegou, tivemos comunidades mobilizadas na saúde, de como cuidar uns dos outros, da questão dos estigmas. Hoje em dia, não temos mais fundações estrangeiras financiando, ao contrário dos anos 80”, explicou.

Veriano Terto falou sobre a defesa intransigente da vida e sobre as ‘novas normalidades’, ressaltando que a relação entre direitos humanos e saúde é fundamental. “Qual conceito de vida, de cidadania, de democracia e de relações a gente está trabalhando?”. Para ele, “há um problema ético, civilizacional, do valor da vida, porque parece que negros, mulheres, gays, trans, são pessoas que estão elegíveis para morrer, e tudo bem”, concluiu.

Ao final das exposições, Ligia Kerr (UFC), Jorge Beloqui (USP), Dulce Ferraz (Fiocruz), Ana Gabriela Travassos (MEPISCO/UNEB), Vera Paiva (USP), Richard Parker (ABIA), Moisés Toniolo (CNS), Fabiane Soares (ISC/UFBA), Alícia Krüger (ABRASITTI), Maria Amélia Veras (FCMSCSP), Sandra Brasil (MEPISCO/UNEB), Simone Monteiro (Fiocruz/RJ), Paulo Giacomini (RNP+SP), Maeve de Mello (OPAS/OMS) e Leila Azevedo (CEDAP/SESAB-BA) participaram do debate.

Assista ao colóquio na íntegra:

Comments

comments

Deixe uma resposta