Desafios do CIS: “O sistema de ciência e pesquisa científica deve ser encarado como um bem público”


Um dos problemas expostos pela pandemia de Covid-19 é a dependência de produtos industriais – do Brasil e de outros países – para a fabricação de medicamentos e equipamentos necessários no tratamento da doença. Com o objetivo de analisar os cenários prováveis do Complexo Industrial e de Inovação em Saúde (CIS) durante e depois da pandemia, a Ágora Abrasco recebeu o painel Os novos desafios para o Complexo Industrial da Saúde, que aconteceu na semana passada (9/7). O evento foi coordenado por Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Abrasco e pesquisador do Núcleo de Bioética e Ética Aplicada (NUBEA) da UFRJ, e contou com exposições de Carlos Medeiros, João Furtado, Luiz Martins de Melo, Renata Reis e Gonzalo Vecina.

Carlos Medeiros, professor  aposentado do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), abordou as tendências do comércio internacional e do fluxo de investimento em que os países irão se reestruturar quando a crise sanitária passar:  “A pandemia gerou um desabastecimento de bens intermediários – que causou um choque na cadeia de fornecedores. As transformações agora em curso apontam para a necessidade dos países estabelecerem políticas relativamente autônomas de crescimento e de diversificação da estrutura produtiva e não mais dependendo de inserção internacional tal como se estruturou no passado”. 

A opção do poder Executivo brasileiro – sobretudo o presidente da República – de politizar a Covid-19, faz com que as medidas paliativas adotadas, no âmbito econômico, sejam precárias – o que deve causar, além de problemas temporários, perdas definitivas para a população brasileira. É o que afirma João Furtado, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP): ” Já tínhamos uma crise, que está sendo aprofundada pela pandemia e pelo caminho escolhido para conviver com essa pandemia.  As empresas estão numa situação de enorme fragilidade. Em outros países, o crédito chega para quem precisa. Em nosso caso, o crédito não chega para quem precisa, e os riscos comerciais estão se tornando desesperadamente elevados, e as empresas, para se protegerem, aprofundam a dimensão econômica da crise”. 

Para Luiz Martins de Melo, também professor do IE/UFRJ, a situação nacional – da perspectiva  do sistema de inovação – é pior do que a internacional. Segundo ele, os países que se capacitaram em produtividade e inovação não têm seus setores dominados por multinacionais, como o Brasil. Além disso, Melo acredita que o sistema de ciência e pesquisa científica deve ser encarado como um bem público: “É como o sistema de saúde, de transporte ou de educação – não é um bem privado. E o SUS, por exemplo,  é um instrumento de poder de compra do Estado, para que o Estado dirija par aonde quer que a direção da pesquisa, da inovação, da tecnologia, das empresas deve  ir”.

Renata Reis, especialista em acesso humanitário para o Médicos Sem Fronteiras (MSF) na América Latina, afirmou que a expectativa era que, em uma crise humanitária sem precedentes, todos os setores da sociedade colaborassem para que todas as pessoas tivessem acesso à saúde e ao tratamento: “Poderíamos ter uma ilusão de que as indústrias farmacêuticas não se comportariam como sempre se comportaram: com as práticas antigas de restrição de acesso, monopólio, preço alto, restrição geográfica. Infelizmente não há indício de que vamos encontrar respostas diferentes do setor farmacêutico diante do tamanho da catástrofe que a gente tem hoje”. 

“Neste governo não dá pra fazer nada. Se não é pela incompetência, é pela visão destrutiva, que tem objetivos muito claros. Precisamos criar forças para um seguinte momento – que eu espero que a gente consiga viabilizar”, desabafou Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e ex-presidente da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa).  E, para o futuro, Vecina afirmou que é  necessário criar “políticas de indução que utilizem, de forma mais inteligente do que conseguimos fazer hoje, o poder de compra do Estado, como foi usado nas parcerias de desenvolvimento produtivo”.

Assista ao debate completo, na TV Abrasco: 


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