Debate aborda necessidade de projeto de desenvolvimento para o debate do complexo econômico-industrial

A distribuição de equipamentos de proteção individual (EPI), a produção de fármacos e a inovação tecnológica são alguns pontos que escancaram a dependência do setor industrial da saúde do país. Com a pandemia da Covid-19 essa dependência ficou ainda maior devido à grande demanda do setor que foi sendo desestruturado, especialmente depois de 2015. Apesar de parecer uma questão de um setor específico, o que se viu no painel “O Complexo Econômico-Industrial da Saúde e dependência internacional: superação da dicotomia entre saúde e desenvolvimento” realizado no dia 3 de junho na Ágora Abrasco é que a questão é profunda e perpassa todo o debate de modelo de desenvolvimento do país. O debate contou com a presença de Carlos Grabois Gadelha (Fiocruz e integrante do Comitê Assessor de Ciência & Tecnologia da Abrasco), Suélia Rodrigues Rosa (do laboratório de Engenharia e Inovações FGA/UnB), Marco Antonio Vargas (do Departamento de Economia da UFF) e Luis Eugenio Souza (do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA e presidente Abrasco 2012 – 2015). A coordenação do painel ficou por conta professora da Faculdade de Ciências da Saúde (FS/UnB) , Leonor Pacheco.

Debate sobre projeto de desenvolvimento é visto como essencial

Carlos Gadelha abriu o debate trazendo problemas que levam inclusive a falsas polarizações na pandemia: “A pandemia escancara que não temos e não podemos ter um sistema universal se não dialogarmos com uma política nacional de desenvolvimento. Por isso é importante superar essa falsa dicotomia entre saúde e desenvolvimento”. O pesquisador da Fiocruz apontou a necessidade de se pensar estratégia de saúde que garanta o direito à vida e ao bem-estar social e que é a partir desse ponto que se deve pensar uma política para o complexo econômico-industrial da saúde. Carlos apontou ainda a necessidade de se ter um projeto que elimine a desigualdade: “Quero refutar a ideia de novo normal. Normal no sistema que a gente vive é ter trabalho precário em casa. Estamos reforçando esse discurso de normal excludente que nos leva a essa posição subserviente”.

A importância do investimento nas universidades para buscar soluções para o desenvolvimento do país permearam a fala da engenheira Suélia Rodrigues Rosa. A pesquisadora levantou questões levando em consideração o potencial das universidades: “A universidade é capaz de gerar soluções, atender o SUS nas suas demandas tecnológicas e é capaz de gerar bem-estar social e salvar vidas. Então, por que isso não ocorre? Por que somos dependentes?”. Suélia falou da necessidade de investimento contínuo para produzir inovação tecnológica e as dificuldades enfrentadas por cortes de verbas: “Esse processo de desenvolvimento e inovação é de custo elevadíssimo. Poder ter isso sendo feito aqui proporcionaria empregos e desenvolver dentro de nossas necessidades tecnológicas”.

O economista Marco Vargas apontou que um dos poucos pontos positivos a se tirar da pandemia é a valorização do SUS e aponta a necessidade de se apoiar nesse ponto para o debate de desenvolvimento: “A gente vê o SUS retomar uma centralidade no debate nacional, infelizmente por conta da pandemia. Importante porque retomamos a visão da saúde como vetor do modelo de desenvolvimento”. Com relação ao complexo econômico-industrial, o economista apontou: “Em toda as rodadas anteriores a 2015, a política de complexo-industrial estava presente. Nesse período tivemos avanço de laboratórios públicos e marco regulatório. Infelizmente se encerrou.”. Sobre a atual tentativa de reconversão do setor industrial, Marco afirmou que se trata de algo conjuntural por conta da pandemia e que a necessidade seria estrutural: “Uma mudança estrutural requer debate sobre o modelo de desenvolvimento”.

Defesa da democracia no centro do debate

O último debatedor, Luis Eugenio de Souza trouxe a importância da democracia para o centro do debate e apontou pontos essenciais para a discussão de um projeto de desenvolvimento: “Esse projeto deve ser baseado em três valores: um é o povo ter a palavra; outro é inclusão social, abrangendo a todos; e , por fim, a necessidade de sustentabilidade ambiental, que está na pauta da preservação da humanidade”. Diante do atual cenário de crise política, Luis Eugênio demonstrou preocupação: “Um projeto desse tipo demanda um ambiente democrático. Não poderemos implementar isso num ambiente autoritário. Estamos vivendo agora um contexto grave em que nossa democracia, mesmo formal, está sendo ameaçada”.

Com a participação do público o debate se aprofundou caminhando para a síntese da necessidade de fortalecimento da democracia para a criação de projeto de desenvolvimento democrático e popular. Longe de simplificar as questões a um ponto específico, foi ressaltada a importância de um processo que dialogue com outras áreas de aprofunde a mobilização por direitos e garantias sociais. Essa perspectiva foi apontada não como simples retomada de um período anterior, mas também no sentido daquilo que não foi possível avançar num período longo de políticas públicas.

Assista a íntegra do painel na TV Abrasco:

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