Ciência & Saúde Coletiva – Agosto de 2021

STELET, Bruno. Clínica da Família Victor Valla. Manguinhos, Rio de Janeiro.
Foto: Eduardo de Oliveira.

Editorial – Cuidado, descuido e afecção: uma perspectiva para a humanização em saúde

Urge encarar cuidado e humanização em saúde como temas estratégicos, enfrentando o esquecimento ou
o apagamento intencional de nossas memórias.

Na passagem da década de 1990 para o século 21, no Brasil, a temática da humanização passou a ser considerada estratégica para a política de saúde, inaugurando pautas relacionadas a saberes, atitudes e práticas. Uma vertente institucionalista na Política Nacional de Humanização-HUMANIZASUS (PNH)1 nos lembra que a humanidade carrega ambiguidades mas também uma arquitetura política que na letra traduz o sangue e a vida, com vocabulário primoroso: acolhimento, gestão participativa, cogestão, ambiência, apoio, subjetividade, intersubjetividade, clínica ampliada e compartilhada, protagonismo de usuários e de trabalhadores, comunidade de práticas, analisadores, transversalidade, interdisciplinaridade, formação e dispositivos condizentes. Esse rico vocabulário evoca um sujeito materialmente localizado nas assimetrias do poder e dos conflitos inerentes às relações de trabalho em saúde. E os problemas são ao mesmo tempo matéria-prima e potência para o exercício da profissão.

Cabe destacar que o negativo da humanização, a desumanização, tenha talvez no não-dito sobre racismo, etarismo, sexismo e capacitismo, expressões que evocam o descuido e a violência, ao expropriar e apagar o reconhecimento do outro e de seu saber. O discurso do herói, da heroína, do guerreiro, da missão, sustenta e é sustentado por imagens que desumanizam as pessoas em suas relações. Apelam para um lugar onde alguém pode estar protegido do sofrimento, da desigualdade, da escolha, do encontro que pode se dar pela cor da pele, pela idade, pela memória que evoca.

A chamada empatia nos reenvia a essas idealizações que mascaram as assimetrias. A máxima “coloque-se no lugar do outro” ignora que esse outro de que se fala tem cor, tem dor, tem classe. E na assimetria da beira do leito, o doente não escolheu seu lugar, não escolheu a doença, enquanto os profissionais, pesquisadores e gestores, a princípio, escolheram fazer desse encontro, um trabalho. Favret-Saada2, ao recuperar o sentido de ser enfeitiçado nas e pelas relações, nos reapresenta à afecção. Urge sermos afetados pela dor do outro e, ao mesmo tempo, desconstruirmos a ilusão de que, ao tomar seu lugar, nos tornamos supostamente iguais. Essa operação nega a alteridade e a diferença, e não oferece ao outro uma atenção legítima de cuidado a sua dor.

Não podemos negar as diferenças, pois ao negá-las, ao cuidar podemos produzir descuido. Guimarães e Hirata3, em décadas de estudos sobre a sociologia e a antropologia do cuidado, desconstroem o universo desse conceito como algo natural, de essência ou de um bem em si. O cuidado pode se traduzir em dimensões inimagináveis nos circuitos que opera, nas relações materiais de produção, nas desigualdades entre os gêneros e, entre as mulheres, de acordo com os marcadores sociais que as localizam e hierarquizam

Na mesma obra3 , as autoras chamam atenção para o fato de que, entre as três possibilidades de circuitos de cuidado, profissão, obrigação e ajuda, é nesse último que encontramos as relações baseadas na confiança e proximidade, operando na atenção de base familiar e comunitária. Em tempos de pandemia nunca fez tanto sentido resgatar esses circuitos, e o significado do cuidado como a ajuda em periferias, onde o Estado oferece bala perdida e prato vazio; e do cuidado como profissão e obrigação, nos cenários de atenção à saúde.

Martha Cristina Nunes Moreira

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde (MS). HumanizaSUS: política nacional de humanização. Brasília: MS; 2004. 51 p.
  2. Saada JF. Ser afetado. Cadernos de Campo 2005;13:155-161.
  3. Guimarães NA, Hirata HS. O Gênero do Cuidado: desigualdades, significações e identidades. São Paulo: Atêlie Editorial; 2020. 296p.

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