Articulação entre vigilância e atenção primária: papel da comunidade é destacado em painel

A articulação entre as ações de vigilância e atenção primária nas respostas à pandemia da Covid-19 foi o tema do painel da Ágora Abrasco do dia 17 de junho. Intitulado “Atenção Primária e Vigilância Epidemiológica: estratégias na resposta”, o painel trouxe experiências de municípios como Campinas e São Caetano e abordou ações para lidar com as dificuldades que o país enfrenta que vão desde o desfinanciamento do sistema de saúde até a falta de testagem em massa para o coronavírus. O painel foi coordenado por Dário Pasche, professor do Departamento de Saúde Coletiva da UFRGS, e contou com a participação de Ricardo Kuchenbecker, professor de epidemiologia da Faculdade de Medicina da UFRGS e integrante da Comissão de Epidemiologia da Abrasco; Maria Filomena Gouvêia, professora da Faculdade de Enfermagem da Unicamp e integrante do Grupo Temático Vigilância Sanitária da Abrasco; Bernadete Perez, professora do Departamento de Medicina Social da UFPE e vice-presidente da Abrasco; e Ester Cerdeira Sabino, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical da USP e uma das coordenadoras do grupo de pesquisa que sequenciou o genoma do novo coronavírus no Brasil.

As ações realizadas no município de Caetano abriram o debate com a exposição de Ester Cerdeira. A professora expôs que a cidade conta com uma população grande acima de 60 anos e a secretaria de Saúde procurou a universidade para organizar os testes e “juntar na atenção primária a resposta com a testagem”. Ester expôs ainda os protocolos que foram utilizados: “Os casos positivos, nós seguimos a cada dois dias. Se o médico achar grave, encaminha ao hospital. Isso diminuiu muito as internações porque conseguimos acompanhar por telefone”. Por fim, a questão da tecnologia foi apontada como elemento fundamental para formatar “resposta mais organizados no sistema primário e ao mesmo tempo obter dados de uma doença que estamos lidando, mas que pouco conhecemos”.

A experiência realizada em Campinas foi trazida por Maria Filomena Gouvêia. Segundo a professora da Unicamp, a cidade possui uma experiência particular com vigilância, com”uma história de descentralização da vigilância e atenção primária desde os anos 1980”. Na perspectiva de diminuir o número de casos da cidade, foi adotada uma outra forma de abordagem: “a gente tratar cada caso suspeito como sendo um caso é fundamental para lidar com a pandemia. É a chave para a vigilância”. Sobre a possibilidade que foi aventada de criar lugares só para atendimento da Covid-19, a professora ressaltou que a opção da cidade foi acertada: “O fato de ter a porta aberta nos garante acompanhar os outros grupos prioritária do território. Nos faz manter esse vínculo.”

Ricardo Kuchenbecker falou sobre a diversidade de como a a pandemia se manifesta em cada local do país: “Nós temos várias pandemias de Covid no Brasil. Cada uma com suas especificidades. Faz pouco sentido olhar uma curva epidemiológica do país. Nem no genoma somos uma epidemia única”. A dificuldade de lidar com a situação, segundo Ricardo, se agrava com a falta de medidas em nível federal, onde a vigilância deveria ter um papel de liderança e integração dos demais entes da federação: “Nesse mosaico, a vigilância parece ter perdido sua potência, sua capacidade de intervenção. É como se os municípios estivessem esperando uma liderança que não veio”. Além disso, o professor pontuou o subfinanciamento do SUS ao longo de anos também dificultam as medidas de vigilância e atenção primária e que a resposta à pandemia deveria ser comunitária.

A vice-presidente da Abrasco, Bernadete Perez, apontou a situação de desfinanciamento contínuo do SUS antes da pandemia como elemento que fragilizou as respostas à Covid-19. A precarização do trabalho das equipes de saúde conjugada com a retirada de direitos trabalhistas e previdenciários da população foram elementos colocados por Bernadete para caracterizar o momento em que a pandemia chega no país. Para a professora, as respostas à pandemia no país deve ser construída junto com as comunidades: “As experiências, pensando o Brasil nessas diferenças, com sua diferenças tem nos colocado numa situação de resposta de necessidade de uma articulação da atenção primária no nível da práxis. Sendo a práxis a retomada de autonomia das comunidades e equipes em pensar cenários reais”. Bernadete ressaltou que o trabalho precisa lidar essencialmente com as condições de cada local, suas dificuldades e necessidades para manter isolamento.

Assista o painel na íntegra na TV Abrasco:

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