Ágora Abrasco: as contribuições do campo da Promoção da Saúde para o enfrentamento da pandemia

Os participantes do colóquio O campo da Promoção da Saúde tem algo a dizer para a atual pandemia da Covid-19 e vice-versa? responderam ao questionamento do título: sim, e muito. A atividade da Ágora Abrasco que aconteceu no dia 18 de junho, contou com as presenças de Marco Akerman, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP USP) e membro do Grupo Temático de Promoção da Saúde e Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável da Abrasco (GTPSDS), Regiane Rezende, Oficial Nacional da Unidade Técnica de Determinantes Sociais da Saúde e Riscos para a Saúde da Organização Panamericana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e membro do GTPSDS da Abrasco, Samuel Moysés, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC PR) e membro do GT Saúde Bucal Coletiva da Abrasco e Socorro Dias, professora da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e membro do GTPSDS da Abrasco. A coordenação foi de Dais Rocha, professora da Universidade de Brasília e membro do GTPSDS da Abrasco.

Marco Akerman fez uma reflexão sobre o isolamento social e sobre a nova forma de conversas remotas, abordando também a maneira que ele procurou responder ao questionamento do título do colóquio. O professor contou que, durante a pandemia, com os sentimentos confusos, enviou diversos e-mails, para colegas e amigos, em diferentes países, com algumas perguntas. “Será que o mundo vai mudar mesmo? Como que o mundo vai mudar? Vamos ter um mundo melhor? A comunidade da promoção da saúde tem algo a contribuir? Você escreveu algo mais analítico? O que poderíamos fazer?”.

Akerman comentou que vieram várias respostas, mas que também encontrou reflexões na publicação de um editorial na revista Health Promotion International e do material produzido pela União Internacional de Promoção e Educação na Saúde (UiPES, IUHPE, na sigla em inglês) e pela cátedra da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) Global Health & Education, chamado A Health Promotion Focus on Covid-19 – Keep the Trojan Horse out of our health systems: promote health for all in times of crisis  and beyond!, (em tradução livre: Foco na Promoção da Saúde e Covid-19: mantenha o cavalo de Tróia longe dos nossos sistemas de saúde: promover a saúde para todos em tempos de crise e além!). O documento cita eixos importantes, a intersetorialidade, a equidade, o empoderamento, os ciclos de vida e a sustentabilidade.

Sobre a intersetorialidade, Akerman citou o exemplo da educação. A volta às aulas estará muito ligada a questões sanitárias, com protocolos específicos que todos devem seguir, com um cuidado especial também à saúde mental. Quanto à equidade, o professor afirmou que “a pandemia desnudou as desigualdades sociais no Brasil” e citou a questão de que o novo coronavírus é ‘democrático’, já que todos estamos suscetíveis, porém, tem a questão da vulnerabilidade. Populações mais vulneráveis estão mais expostas e correm mais riscos diante da Covid-19. Não estamos no ‘mesmo barco’.

Akerman afirmou que precisaremos falar mais sobre doenças infecciosas e zoonoses, porque a “saúde humana não é um evento isolado, há uma conexão com a natureza”. O professor citou ainda questões sobre como lidar com as incertezas, como não deixar ‘o cavalo de Tróia invadir’.

O professor falou ainda sobre engajamento da população, empoderamento e a necessidade de gestão integrada e boa governança. “Como vamos construir o engajamento da população e da sociedade com os sistemas universais de saúde? O sistema de saúde é um determinante social da saúde. E se é guerra, apesar de eu não gostar muito da terminologia, os exércitos têm que estar preparados antes da guerra acontecer, não dá para equipar o exército durante a guerra. A infraestrutura humana e física do sistema de saúde precisa ser fortalecida e preservada”, disse.

Sobre sustentabilidade, Akerman abordou  a necessidade de pensar na questão da agenda das cidades e nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), afirmando que diversos documentos e estudos mostram que “A Covid-19 vai comprometer os ODS. Não vai dar para bancar mais de 169 metas. Nós vamos ter que começar a pensar quais as metas estratégicas para a questão dos ODS”. Ele também enfatizou que, no Brasil, a situação já era ruim – por conta da extinção pelo governo federal da Comissão de Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. “Acho que cabe à comunidade da promoção da saúde pensar essa questão da sustentabilidade e ver quais indicadores, principalmente da educação e da saúde, são estratégicos para a gente trabalhar”, pontuou.

Regiane Rezende falou sobre o trabalho da OPAS, relembrando valores e princípios da Política Nacional da Promoção da Saúde, que “foram escritos e validados a muitas mãos, e a importância de nós trazermos esses valores e princípios novamente e o quanto eles são válidos hoje nesse contexto em que nós estamos”, afirmou, ressaltando a importância de pensar na dimensão da integralidade dos problemas e não só em uma vertente.

Regiane fez uma reflexão: “O que é que muda? O que fica diferente para nós? Mudam os valores? Mudam os princípios?” . Para ela, é preciso retomar as coisas que a gente fala, mas que dificilmente faz. “O que é esse contexto que se apresenta pra nós? É um contexto que já estava, e que se agrava. A gente vê a pobreza se aprofundar. Classe social, mais que idade, vai definir mortalidade, vemos as profissões e ocupações que se apresentam como mais vulneráveis, a violência que se acentua, o sedentarismo, o consumo de álcool, o aumento da ansiedade, questões de saúde mental”, explicou.

A representante da OPAS falou sobre as pessoas com doenças não transmissíveis e o impacto da pandemia. “O acompanhamento dessas pessoas foi interrompido, as pessoas estão com receio de sair de casa para buscar medicamento, e isso terá um impacto”, pontuou.

Sobre a questão do saneamento básico, Regiane Rezende disse que “a geografia da desigualdade se acentua cada vez mais” e ressaltou que é um objetivo não alcançado e que agora “vem com toda força, trazendo a conta, muito forte para as populações com situações de maior vulnerabilidade”, disse.

Retornando à pergunta que intitulou o colóquio, Samuel Moyses pontuou que o campo da promoção da saúde tem muito a oferecer no atual momento de pandemia. “É preciso incluir a questão das vastas agendas convergentes que construímos nas últimas duas décadas” afirmou. O professor disse que “conseguimos tornar global os objetivos do desenvolvimento sustentável, claro que isso não foi tarefa só do campo da promoção da saúde, mas nos representa muito bem, de forma icônica, pois encampamos essa questão e a tornamos global nas agendas interinstitucionais”.

O exemplo nacional citado por Moyses, de agenda convergente, é a Política Nacional de Promoção da Saúde, destacando a formulação desde a origem, as revisões e atualizações e as importantes contribuições do GTPSDS da Abrasco.

Samuel Moyses ressaltou a questão sócio-ambiental, que “é um núcleo de articulação de atores e ações para a promoção da saúde, e reconhecidamente vinculada a muitos de nossos eixos de atuação, como advocacy, ensino e pesquisa, interseção direta ou indireta na formulação de políticas e na tomada de decisão”. O professor citou ainda projetos como Saúde Planetária, Saúde Global e Saúde Única. “Temos muito o que dizer, e muito a aprender com outras áreas e temas”, e enumerou diversos acontecimentos ambientais, como o aquecimento global, a derrubada de florestas, os incêndios florestais, o derretimento de geleiras e a poluição generalizada, entre outros. O professor fez um histórico, como a domesticação de animais para consumo, as novas fronteiras agrícolas, o desequilíbrio de ecossistemas e a degradação de ambientes naturais, e como isso alterou nossa imunidade, nossos sistemas imunológicos coletivos. “Nós estamos perdendo algo que na filosofia hoje é muito caro, a nossa co-imunidade, e co-imunidade lembra o que? Comunidade, nós estamos perdendo comunidade, espírito comunitário”, pontuou.

Sobre a pandemia da Covid-19, Moyses disse que, após o surgimento na China, o vírus seguiu as rotas aéreas, marítimas e rodoviárias. “É o humano sempre carregando isso. Quando a gente estabelece rotas de comércio, de garimpo, de exploração da madeira, ou cadeias produtivas, nossas viagens de turismo, às vezes predatório, nós levamos essas questões e a promoção da saúde tem cuidado disso, discutindo, debatendo e apontando caminhos para nossas tragédias urbanas”. O professor também pontuou o fato de a pandemia estar dizimando populações indígenas, nos Estados Unidos e no Brasil, e como isso chega até lá “através de práticas que humanos desenvolvem”.

Sobre iniquidades sociais refletidas na saúde humana, Moyses disse que “a promoção da saúde vem se interessando por questões ligadas ao ambiente social, construído, e ao espaço humano que agora aparece tão desumanizado, pois carrega nossas contradições, nossos conflitos ambientais e também nossas disputas, nossos ressentimentos e ódios intergeracionais, e a deflagração de guerras, sejam militares ou culturais”, afirmou.  “A pandemia trouxe para nós, infelizmente, a propagação da questão da iniquidade, que atinge desproporcionalmente em termos de morbimortalidade as populações vulnerabilizadas, especialmente hoje, trabalhadores precarizados, uberizados, desempregados, trabalhadores domésticos, de limpeza pública, entregadores a domicílio, prestadores de serviço mal remunerados, incluindo os da área da saúde, as pessoas em situação de rua”, enumerou.

Para o professor, hoje, diante do negacionismo da ciência, há que se falar mais ‘para fora da bolha’ acadêmica. “Precisamos estranhar o familiar e familiarizar o estranho e fazer um esforço translacional, para nos aproximar da população. Um letramento bidirecional, para ocuparmos esse espaço, também no virtual, com democracia social, agora e sempre”, concluiu.

Em uma fala marcada como sendo a de uma “pesquisadora e docente atenta ao que ocorre no mundo da gestão”, Socorro Dias pontuou que a promoção da saúde é um campo que apresenta estratégias de produção de saúde, do individual para o coletivo. “Parto da premissa de que as desigualdades são traços estruturais no Brasil, que apresentam forte influência na saúde e que o campo da promoção da saúde reconhece a influência direta dos determinantes sociais na saúde”, afirmou.

Socorro Dias falou da necessidade de uma defesa “quase que intransigente, que exige posição mesmo”, de sistemas de saúde universais e equânimes para a garantia da saúde como direito para todos. “A promoção da saúde tem muito a dizer para o enfrentamento da pandemia causada pelo novo coronavírus no Brasil porque também produziu, desnudou e anuncia várias estratégias que visam a garantia da saúde e da vida como direito supremo; a superação de desigualdades; a ampliação de cooperações intra e intersetoriais, intra e interinstitucionais; a defesa da comunicação efetiva e afetiva; o trabalho em rede; a solidariedade; e a coesão social, entre tantas outras experiências que permitem uma ampliação do espaço social”, explicou. “É quase inconcebível fazermos a travessia dessa pandemia sem o nosso sistema de saúde”, disse.

A professora ressaltou a importância da solidariedade e que os valores e princípios da promoção da saúde são fundamentais no desenvolvimento das políticas públicas, para além das políticas de saúde. No contexto da pandemia, os valores e princípios são fundamentais para o planejamento e tomadas de decisão. Socorro Dias terminou sua fala com outro questionamento. “A pandemia deixará fortes marcações. Como transformá-las em vetores de mudança de valores e práticas?”.

Assista ao colóquio na íntegra:

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