25 de Julho: ser mulher e negra em uma sociedade racista é um ato de resistência

Neste 25 de julho, Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha ouvimos três mulheres integrantes do GT Racismo e Saúde da Abrasco: três gerações: 64, 40 e 24 anos de idade com atuações diferentes dentro e fora da academia, mas com uma trajetória de vida em comum. Cada qual com sua realidade, lutam pela presença da mulher negra em espaços que lhe foram negados e são parte de um processo de transformação contra a opressão e pelo fortalecimento de uma saúde pública digna no Brasil.

“Tive que passar por um processo de morte com muitas dores para me enxergar como uma mulher negra e parar de buscar o fetiche do embranquecimento”. A fala forte de Diana Anunciação, integrante do GT Racismo e Saúde da Abrasco, resume bem o processo de desconstrução vivido por mulheres negras que passaram, e ainda passam, pelo autoconhecimento e lutam para ocupar espaços historicamente negados a elas. 

Hoje, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, a pesquisadora reconhece os desafios enfrentados pela mulher negra, seja no espaço acadêmico ou fora dele. “Na própria universidade, você vivencia uma supremacia branca e masculina e tem dificuldades para se enxergar em outros espaços. Só depois você percebe o estrago que o racismo institucional é capaz de fazer”.

Como muitas outras, ela foi a primeira da família a ter um diploma universitário e o processo que antecedeu seu ingresso na faculdade foi marcado pela insegurança imposta por uma sociedade racializada. “Sociologia não era minha primeira opção, mas ouvi muito que não ia conseguir passar em outros cursos. Curiosamente, prestei vestibular e com minha pontuação, poderia ter cursado medicina, se quisesse”, lembra.

De 2006 para cá, a Diana reconhece as marcas deixadas pelo racismo, mas se orgulha do processo trazido pelo autoconhecimento e maturidade na construção da própria identidade racial. E mais, de fazer parte da criação de um novo momento, ainda que lento, de transformação. “Tivemos em 2018, na universidade em que leciono, 14 jovens estudantes negros formados no curso de de medicina. Foi a primeira vez que isso aconteceu no Brasil”

                                ***       ***      ***

“Precisei me entender como mulher negra para ressurgir maior e potente dentro de todo e qualquer espaço”, conta Claudia Rodrigues, jovem acadêmica de 24 anos de idade, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e  Enfermeira Pesquisadora pela UFRGS na temática da coinfecção HIV/Aids e Tuberculose, doenças estas diretamente ligadas às questões sociais. Com formações e idades diferentes, as histórias de mulheres negras que resistem se cruzam.

Claudia se orgulha de ter sido a primeira de sua geração na família a ocupar uma universidade, mas recorda dos desafios enfrentados. ”Os anos em que vivi na graduação foram de um significado enorme, pois lá pude experimentar a delícia de conhecer novos mundos e a dor de vivenciar o racismo acadêmico nas suas mais diversas faces e toda crueldade”. conta. “Hoje, percebo que ser mulher negra também é enxergar para além das minhas conquistas. Sinto que quando conquisto algo, meus semelhantes também estão conquistando”. 

                                ***       ***      ***

Quase três décadas antes, Maria do Carmo Sales Monteiro, da Escola de Municipal de Saúde de São Paulo, ingressava no curso de enfermagem da USP. “Era eu e mais uma estudante negra intercambista do Panamá dentro da sala. Na época, eu já fazia parte do movimento negro mas vi a necessidade de aumentar minha atuação”, lembra. “Percebi ainda no começo que trilhar uma carreira profissional sendo mulher e negra, você tem mais obstáculos”. 

Já alicerçada na resistência, Maria do Carmo trouxe muito do que aprendeu na militância para seu campo de atuação dentro dos programas de saúde pública.  “Me orgulho de ter ajudado a criar uma metodologia que lançou os primeiros passos para se ter uma política voltada para a saúde da população negra” 

Leia também:

+ 25 de Julho : Interseccionalidade de Gênero e Raça na trajetória de uma pesquisadora negra – Artigo de Lucélia Luiz Pereira

+ 25 de julho: “Nossos passos vêm de longe!” – Artigo de Raquel Souzas

Comments

comments

Deixe uma resposta