Interseccionalidade de Gênero e Raça na trajetória de uma pesquisadora negra – Artigo de Lucélia Luiz Pereira

Tornar-me uma docente negra pesquisadora envolveu grandes desafios, talvez o principal, o fato de não ter referências familiares de continuidade no ambiente escolar. Vinda de uma família mineira constituída de pai, mãe e quinze filhos, sendo quase todas/os trabalhadoras/es rurais, houve forçosamente abandono escolar frequente para prover o sustento da numerosa família. Nesse sentido, apesar da educação ser um direito universal, minha mãe e meu pai não foram escolarizados, meus irmãos não terminaram o ensino fundamental e a maioria das minhas irmãs concluiu somente o ensino médio. Então, (in)felizmente, fui a única a ingressar numa universidade pública, e conclui a graduação, mestrado e doutorado.

A trajetória das mulheres negras, em quaisquer que sejam os caminhos percorridos é, sempre, um processo longo, de resistência e luta, marcado por diversos obstáculos. Minha história, assim como de muitas mulheres negras brasileiras, é uma exceção, que confirma a regra de marginalização decorrente do racismo estrutural. Tive um percurso escolar, todo em escola pública, marcado por inconstâncias e mudanças, por pertencer a uma família de migrantes, em constante busca de melhores condições de vida. Em 1998, ingressei no curso de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB), e a partir daí muitas mudanças ocorreram. Após enfrentar diversos desafios, conclui o mestrado em Política Social e doutorado em Ciências da Saúde. Trabalhei numa Organização Não Governamental feminista, e também nos poderes executivos federal e distrital e, em 2009, fui nomeada como docente na UnB. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, sempre tive a certeza de que a educação era necessária para a transformação da realidade vivenciada, por isso, a importância de lutarmos por uma universidade pública não elitista, mais inclusiva, mais diversa e de maior qualidade.

O amadurecimento adquirido na trajetória profissional e acadêmica têm contribuído para entender meu pertencimento racial como professora universitária, exercendo atividade intelectual e pesquisando temas relacionados à temática racial. Para tal, busco referências e me inspiro em diversas mulheres negras intelectuais afrolatinas que me antecederam, que problematizaram o racismo, derrubaram barreiras e permitiram que outras mulheres trilhassem esse caminho.

Minhas experiências de vida e profissionais tem sido, ao longo dos anos, interseccionais, materializadas pelo intercruzamento de gênero, raça e classe. Ser mulher, ser negra, ser periférica é o que sempre fui e isso me leva a utilizar tal condição como elemento para subsidiar minha atuação como docente e como pesquisadora. As barreiras de origem socioeconômica e racial e as experiências de racismo e sexismo trazem a inquietação constante de resistir e contribuir para mudanças sociais. Mas, mostra também que essa não é uma questão individual. É uma realidade de milhares de mulheres negras, que fazem um esforço extraordinário para alcançar lugares ocupados historicamente e, de forma naturalizada, por pessoas mantidas por privilégios decorrentes da branquitude.

Os desafios coletivos a serem enfrentados pelas acadêmicas e pesquisadoras negras são diversos e incluem a necessidade de resistir aos estereótipos sobre mulheres na ciência, as armadilhas institucionais diretas e indiretas sobre nossa capacidade intelectual, a presença do racismo institucional, a não centralidade do debate racial, o persistente epistemicídio, as vantagens e privilégios raciais simbólicos e materiais, dentre muitos outros elementos. Tal realidade mostra a necessidade da luta diária por tornar o ambiente da universidade mais igualitário, diverso e com maior representação de docentes por raça/cor.

É importante construir estratégias que possibilitem problematizar a invisibilidade das mulheres na ciência, e ampliar o ingresso e permanência de negras, quilombolas e indígenas no ensino superior. Além disso, considerando que somos subrepresentadas na docência, é fundamental criar medidas equitativas para ampliar a presença de mulheres negras na carreira profissional do ensino superior, dar visibilidade a produção científica e oportunizar financiamentos de pesquisas.

Assim, percebo que ser uma docente negra é não só um chamado à análise crítica sobre o lugar ocupado por nós na academia, mas sobretudo alavancar lutas coletivas para ocupar, de forma representativa e justa, um espaço que é nosso por direito. E a universidade só tem a ganhar ao se democratizar e possibilitar a produção de saberes decoloniais e representativos da rica herança e diversidade do povo afro-latino presente no Brasil.

*Lucélia Luiz Pereira é docente do Departamento de Serviço Social da UnB e integrante do GT Racismo e Saúde da Abrasco

25 de Julho é o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha

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