Vidas Trans importam

Na primeira semana de 2020, os pesquisadores do Grupo Temático Saúde da População LGBTI+ da Abrasco, juntamente com outros coletivos, produziram um vídeo para denunciar acontecimentos nefastos no Rio Grande do Sul. Só no segundo semestre de 2019, Santa Maria foi cenário do assassinato de três mulheres trans. Em setembro Carolline Dias, de 27 anos,  e Mana, 37, foram assassinadas em menos de 24 horas – e em dezembro Veronica Oliveira, 40 anos,  foi esfaqueada. No dia 1 de janeiro Dilermando Aguiar, uma pequena cidade a 40 minutos de Santa Maria, registrou o assassinato de mais uma mulher trans: Selene Peixoto, de 37 anos, morta a tiros. 

Para a pesquisadora Martha Helena Teixeira de Souza, integrante do GT LGBTI + da Abrasco e docente da Universidade Franciscana (UFN),  é imprescindível contar essas histórias reforçando que as vítimas sofreram transfobia: “Associar estes assassinatos a outras formas de violência [como assaltos ou brigas] reforça a ideia de que travesti é bandida, de que são culpadas pela própria morte”. Além dos fatores epidemiológicos (é importante ter dados para produzir pesquisas e revertê-las em políticas públicas), a professora aponta que é necessário criar o diálogo com a população, gerar empatia. 

Conforme a professora, há uma cultura machista por trás da violência de gênero: “Temos um discurso no país que tem estimulado a violência com pessoas que estão fora do padrão heteronormativo. Se olharmos os casos da Carol e da Verônica, que eram garotas de programa, vemos que é bem típico: a pessoa [o agressor] não concordou em pagar o valor  exigido, ou a garota de programa não concordou em fazer o programa – e aí leva uma facada. Existe uma parte da sociedade que acha que se elas estavam ali,  mereciam. É preciso refletir porque elas estavam ali”. 

Em 2012, pesquisadores realizaram um estudo etnográfico com travestis de Santa Maria – dentre eles, Martha, Marcos Claudio Signorelli e Pedro Paulo Gomes Pereira – também integrantes do GT LGBTI+ da Abrasco. Os resultados da pesquisa, registrados no artigo “Violência e sofrimento social no itinerário de travestis de Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil” (Cad. Saúde Pública, 2015) , indicavam que “As diversas formas de violência vivenciadas nas trajetórias percorridas pelas travestis interferem diretamente nas suas condições de saúde”. Para além do distanciamento de seus núcleos familiares, o preconceito também distancia essas pessoas das escolas, do trabalho formal e dos serviços de saúde”. Todos esses caminhos levam, muitas vezes, à prostituição e a uma vida marginalizada. 

O GT está se articulando para produzir mais artigos científicos sobre o tema mas, segundo Souza, a grande dificuldade é encontrar dados sólidos para pesquisa: “Muitas travestis são mortas e não são sequer notificadas. Na delegacia muitas vezes não tem notificação porque consideram o nome de nascimento. É preciso registrar esses assassinatos para que tenhamos dados. Estamos planejando uma capacitação [em Santa Maria] com delegacias e também com a imprensa. Precisamos refletir sobre o porque essas pessoas estão onde estão, e sobre como podemos ajudá-las”. 

Assista ao vídeo Vídas Trans Importam: