Saúde LGBTI+: Fique por dentro das produções mais recentes

Foto: Brielle French/Unsplash

Celebrando atualmente 10 anos da possibilidade de casamento entre pessoas do mesmo sexo, o cenário no Brasil ainda não é de comemoração. A cada 36 horas, uma pessoa LGBTI+ morre de forma violenta. Os dados do Grupo Gay da Bahia mostram que o país ocupa o ranking como campeão mundial de crimes contra as minorias sexuais. Essas informações compõem o recém inaugurado Observatório de Mortes Violentas de LGBTI+ no Brasil.

Entre desafios e alguns avanços, a Saúde Coletiva segue produzindo dados e levantando informações sobre essa parcela da população, reiteradamente vulnerabilizada e invisibilizada. 

A marginalização imposta a essa parcela da população tem seus reflexos na dificuldade de acesso a políticas públicas de acolhimento, a serviços de saúde e a mecanismos de proteção. Num contexto de vulnerabilização agravado pela pandemia, a produção de dados científicos e pesquisas sobre o tema tornam-se ainda mais necessários para fortalecer o debate público sobre essa população. Confira algumas produções acadêmicas, já publicadas ou em curso, e opções de conteúdos sobre a temática, produzidos ou organizados por integrantes do GT Saúde da População LGBTI+/Abrasco:



Cadê as populações LGBTT na Estratégia Saúde da Família? Narrativas de profissionais de saúde em Teresina, Piauí, Brasil


As populações de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTT) não têm tido um lugar na “história oficial” da humanidade, a não ser como atores secundários que desviam, distorcem ou mesmo maculam a memória dos povos, orientada pela cis-heteronormatividade. São esses mesmos sujeitos que frequentemente vivenciam obstáculos na assistência ofertada pela Estratégia Saúde da Família (ESF), dentro de um sistema que é universal, integral e equânime. Neste artigo, buscamos analisar experiências narradas por profissionais da atenção básica na assistência à saúde das populações LGBTT em Teresina, Piauí, Brasil. Trata-se de uma pesquisa qualitativa realizada com 32 profissionais que atuavam em uma unidade básica de saúde. A análise foi pautada em três dimensões – relacional, organizacional e contextual – inspirada na discussão teórica de Giovanella e Fleury. A atenção básica, a qual deveria ser uma das responsáveis pelas ações de saúde comunitária, que prioriza a promoção e a prevenção em saúde, é a mesma que tem ofertado negações, violências, e negligência no cuidado às pessoas LGBTT. Aposta-se, portanto, na escuta como uma das chaves para o respeito à diversidade sexual e de gênero, para que essas pessoas sejam, assim, reconhecidas como usuárias da ESF.

Artigo de Breno de Oliveira Ferreira e Claudia Bonan. 

Acesse e confira: https://www.scielo.br/j/csc/a/m3GDZp9LzHmfRr7S8HTWvKM/?lang=pt

Percepções de Profissionais de Saúde sobre Direitos Sexuais e Reprodutivos na Cidade de São Paulo 

Os resultados da pesquisa Percepções de Profissionais de Saúde sobre Direitos Sexuais e Reprodutivos na Cidade de São Paulo – coordenada por Richard Miskolci com financiamento FAPESP (2018 e 2020) – apontam que a maior parte dos profissionais da atenção básica apoia e busca atender as demandas da população LGBTI+. Apesar do interesse e engajamento das dezenas de profissionais que foram entrevistados ou responderam a questionários em 24 Unidades Básicas de Saúde da maior cidade brasileira, ficou patente que a maioria compreende saúde LGBTI+ como se referindo às demandas da população trans e travesti. Gays e lésbicas raramente foram mencionados de forma espontânea pelos médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. A pesquisa também indagou gerentes de UBS sobre suas percepções e todos foram unânimes em afirmar que há muito a melhorar no atendimento desse segmento. Uma reclamação comum dos quatro tipos profissionais entrevistados foi sobre não terem tido disciplinas ou conteúdo sobre gênero e sexualidade em sua graduação ou curso técnico. O interesse em melhorar o acesso à saúde da população LGBTI+ esbarra no mencionado déficit formativo para compreender demandas de saúde que não as que recentemente ganharam maior visibilidade em relação ao segmento T. Segundo Miskolci, mantém-se uma compreensão de saúde centrada na doença e em demandas que envolvam tratamentos medicamentosos ou intervenções médicas, o que gera a afinidade atual do sistema com o segmento trans, mas invisibiliza ou atende parcialmente as necessidades de lésbicas, gays e mesmo de pessoas intersexuais.  Ainda segundo o Professor do Departamento de Medicina Preventiva da UNIFESP, a falta de formação/aperfeiçoamento especializado dos profissionais e as condições de trabalho que dificultam formas de atendimento baseadas na escuta tornam difícil o acesso da maioria dos segmentos da população LGBTI+ à saúde básica. Atualmente, predomina a identificação visual dos sujeitos  e as demandas de LGB tendem a ser reduzidas às que envolvem ISTs e que – assim como as do segmento T – confluem em uma compreensão reduzida de saúde. O acesso integral à saúde envolveria melhorias formativas e no sistema de saúde de maneira que os profissionais tivessem condições de ampliar sua compreensão da população LGBTI+ em toda sua diversidade interna e de demandas.

Pesquisa coordenada por Richard Miskolci ( dados preliminares, pesquisa em andamento)

O artigo “Semente para Luta”: ativismos, direito à saúde e enfrentamentos de pessoas LGBTI na pandemia da covid-19, dos autores Bruno Kauss, Maurício Polidoro, Adriano Costa e Daniel Canavese sairá na próxima edição da revista Saúde e Sociedade. A pesquisa foi desenvolvida em 2020 e procurou investigar a saúde das pessoas LGBTI+ em meio ao atravessamento da pandemia da covid-19. Faz parte do projeto sobre a Política Nacional de Saúde Integral LGBT, coordenado por Daniel Canavese, para a região sul. Os achados trazem um retrato do impacto no cotidiano, com o aumento da condição da vulnerabilização. Segundo Bruno Kauss, pesquisador da UFRGS  “o trabalho enfoca sobre as percepções, as experiências individuais e coletivas de ativistas sobre a temática da saúde LGBTI+ na pandemia da covid-19. O levantamento foi feito entre maio e julho de 2020, com a aplicação de entrevistas realizadas online e constatou efeitos sobre a mobilização comunitária, o acesso aos serviços de saúde, a saúde mental, e as situações de violência e proteção social”.


Cursos da  Plataforma Lúmina/UFRGS

Em tempos de infodemia, se torna ainda mais importante a busca por fontes de informação confiáveis e seguras, principalmente quando abordamos recortes da população que sofrem sistematicamente pela marginalização a que são submetidas, o que pode levar a dados imprecisos ou até mesmo, mal intencionados. A plataforma Lúmina, da UFGRS oferece cursos sobre diversas áreas da ciência, que contribuem, com informações precisas e apuradas, para um melhor entendimento das questões relacionadas aos direitos humanos, dentre os eles os direitos sexuais e reprodutivos. Os cursos são gratuitos e à distância. Fazem parte do catálogo cursos com coordenação e participação de pesquisadores(as) do GT de Saúde LGBTI+ da Abrasco. No segundo semestre, fruto da parceria da Abrasco com Unaids, será lançado o curso sobre Zero Discriminação e hiv e aids, coordenado pelos professores Maurício Polidoro e Daniel Canavese, reunindo pesquisadores(as) e ativistas de todo o país. 

Acesse https://lumina.ufrgs.br/ e confira