Abrasco na imprensa: confira entrevistas do GT Racismo e Saúde

Foto: Júlio César Almeida / Abrasco

“No campo da saúde, o racismo de base institucional aparece situado dialeticamente entre a insuficiência sentida na invisibilidade institucional e o excesso materializado na discriminação racial”: a declaração é de Diana Anunciação, vice-presidente da Abrasco e integrante do GT Racismo e Saúde da entidade, em entrevista ao Brasil de Fato.

A professora do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) concedeu uma entrevista sobre os impactos do racismo na saúde da população brasileira, publicada no início de julho. Ela pontuou que é o racismo deve ser considerado determinante  social de saúde no diagnóstico, tratamento e prognóstico das pessoas – já que é fator adoecedor para a população negra. Leia a matéria completa.

Para a Rádio Brasil de Fato Bahia, a pesquisadora Edna Araújo, também do GT Racismo e Saúde, comentou dados sobre a fome  e a desnutrição  infantil, divulgados pelo  segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Covid-19 no Brasil. 

“É um quadro de perda de peso, aumento da irritabilidade, prejuízo no rendimento escolar, além de déficit no crescimento. Consideramos fome qualquer quadro de insegurança alimentar – significa o  não asseguramento ao direito humano à alimentação”, disse Edna, que é professora da UEFS. Ouça a reportagem. 

Já Hilton Silva, professor da Universidade Federal do Pará e coordenador do GT Racismo e Saúde/Abrasco, contribuiu com o Alma Preta, sobre o agravamento da pandemia de doenças que afetam mais a população negra – como as cardiovasculares.  Hilton destacou que o primeiro passo é encarar o racismo. 

“Vivemos em uma sociedade historicamente racista, que discrimina as pessoas por sua aparência, sua religiosidade, seu modo de falar e de ser e que isso tem repercussões na sua qualidade de vida. O reconhecimento do racismo estrutural, a implementação de políticas públicas antirracistas e a mobilização social contra todas as formas de discriminação são medidas fundamentais para a garantia de saúde para a população”. Leia mais. 

Ao longo do mês de Julho, acontecerá a Mobilização Pró-Saúde da População Negra, em meio às celebrações do Dia da Mulher Negra da América Latina e Caribenha, a ser celebrado em 25 de julho. A Abrasco se soma à agenda política, e promove o Esquenta Abrascão “Saúde da População Negra: Caminhos para o enfrentamento do racismo na Saúde Coletiva“, dia 28. 

Abrasco lança e-book com conjunto de dados e debates sobre a saúde da população negra na pandemia

Para celebrar o 27 de outubro, Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra e dar início às manifestações que vão marcar novembro, o mês da consciência negra, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, por meio de seu Grupo Temático Racismo e Saúde (GT Racismo/Abrasco), apresenta sua mais recente publicação digital: População Negra e Covid-19.

A obra reúne 13 artigos assinados por docentes e pesquisadores de diversas instituições dedicados a vários aspectos da temática da saúde da população negra, integrantes do GT Racismo/Abrasco e parceiros. É também mais um dos resultados do apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA Brasil) à Associação. Iniciado em 2020, este apoio teve como objetivo produzir insumos técnico-científicos a partir de estudos e análises sobre a situação da pandemia da Covid-19 na população negra, além de ampliar o intercâmbio com pesquisadores para a utilização de bancos de dados nacionais.

Os artigos acompanharam a trajetória da pandemia de junho de 2020 a setembro de 2021. Para travar o debate público, fazer a denúncia e dar visibilidade à produção de uma ciência negra, os textos foram inicialmente divulgados em diversos veículos da imprensa brasileira, como O GloboFolha de S. PauloUOLCarta CapitalNexo JornalAlma Preta, e posteriormente republicados no site da Abrasco e UNFPA/Brasil.

“Essas produções, de autoria de vários participantes do GT Racismo e Saúde da Abrasco, têm tido papel crucial na visibilidade do racismo como um dos principais determinantes sociais de iniquidades em saúde que tem levado a população negra brasileira ao maior adoecimento e mortalidade por causas evitáveis como é o caso da Covid-19”, destaca Edna Araújo, uma das autoras, docente da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e que coordenou o projeto juntamente com Luis Eduardo Batista, da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Reunidos, os artigos informam sobre os problemas estruturais da sociedade brasileira, abordando o racismo, a exclusão e a falta de acesso da população negra a serviços básicos, o que a projeta para o topo dos piores índices da pandemia no que tange ao número de vacinados e infectados e, consequentemente, no total de óbitos. Falam também da população negra na perspectiva dos direitos à cidadania, à saúde mental, ao envelhecimento saudável, à representatividade feminina e no combate à violência.

Além de reunir os textos, o e-book é ilustrado por fotografias feitas para a constituição de um inédito banco de imagens sobre saúde da população negra, que retrata diversas nuances do cotidiano da população afrobrasileira no enfrentamento da pandemia, tanto nas grandes metrópoles como nas comunidades quilombolas.

“Este volume, histórico, resulta de um esforço colaborativo entre a Associação e esse importante Fundo da ONU para que possamos avançar no compromisso de discutir a saúde a partir de perspectivas de raça, cor e etnia. Dessa forma, a Abrasco cumpre seu papel de chamar a atenção para a questão da vulnerabilidade de várias populações, sobretudo da população negra, particularmente em relação às políticas públicas de saúde, e para que a população negra possa ter acesso a um conjunto sólido de informações científicas para o seu empoderamento no campo da saúde coletiva”, ressalta Hilton Pereira da Silva, também autor, docente da Universidade Federal do Pará (UFPA) e membro da atual coordenação do GT Racismo/Abrasco.

População Negra e Covid-19

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APRESENTAÇÃO

Marcadores sociais como raça, gênero, território e situação econômica têm impacto direto nos indicadores de infecções, mortes e na vacinação da Covid-19. Com intuito de obter respostas e propor alternativas para o combate mais efetivo da pandemia, levando em consideração os fatores adversos, pesquisadores do Grupo Temático Racismo e Saúde da Abrasco, Associação Brasileira de Saúde Coletiva, têm trabalhado com esta temática.

A produção de conhecimento somado à articulação com instituições estratégicas têm contribuído efetivamente para a elaboração de evidências fundamentais para a execução e monitoramento de políticas públicas de saúde, neste caso, voltadas para a população negra.

Respondendo à necessidade de mudanças mais efetivas nas políticas públicas para mitigar o efeito da pandemia na população negra, em meados de 2020, o GT Racismo e Saúde da Abrasco recebeu apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) para a produção de análises sobre o impacto da Pandemia Covid-19 na população negra. Verificou-se que problemas estruturais da sociedade brasileira, como o racismo, a exclusão e falta de acesso aos serviços básicos projetam a população negra para o topo dos piores índices da pandemia no que tange ao número de vacinados e infectados, e, consequentemente, no total de óbitos.

Este livro reúne 13 artigos com as análises feitas pelos integrantes do GT Racismo e Saúde da Abrasco sob a perspectiva racial, publicados na imprensa entre meados de 2020 até outubro de 2021.

Políticas voltadas à saúde da população negra em debate na Câmara dos Deputados

Audiências promovidas pela Câmara dos Deputados abordam políticas exclusivas para população negra. Foto: Filipe Araújo/Fotos Públicas

No dia 9 de abril, duas audiências públicas da Câmara dos Deputados reuniram especialistas para debater políticas direcionadas à população negra e subsidiar um grupo de trabalho instaurado pela Comissão de Juristas – Combate ao Racismo, formado por juristas e parlamentares. Os dois encontros tiveram membros do GT Racismo e Saúde como convidados.

Na parte da manhã, a primeira audiência debateu as políticas de atenção à saúde da população negra. A sessão teve a participação dos abrasquianos Alexandre Silva e Lúcia Xavier; ao lado de Jurema Werneck. diretora-executiva da Anistia Internacional e ex-conselheira nacional de Saúde; Márcia Lima, professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da USP e Claudio Nascimento, coordenador do Grupo Arco-Íris.

Entre outros pontos abordados, Alexandre Silva, que representou a Abrasco no evento, frisou a importância de adoção de ações voltadas ao envelhecimento de qualidade da população negra. “Em muitos municípios a média de vida não chega a sessenta anos de idade. Então, como podemos garantir um envelhecimento a falta de acesso da população negra em serviços primários e também o impacto da pandêmia?”, questionou o pesquisador.

Já a segunda audiência, realizada durante a tarde, debateu a proteção à assistência social e segurança alimentar da população negra. Emanuelle Góes, membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco, participou como panelista juntamente com Clátia Vieira, representante do Fórum de Mulheres Negras; Fernanda Bairros, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Luana de Brito, representante da Rede de Mulheres Negras para Soberania e Segurança Alimentar e Nutriciona (Rede SSAN); e as pesquisadoras em Saúde Pública da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) Roberta Gondim e Denise Oliveira e Silva.

“Precisamos incluir a falta de dados de raça/cor nos estudos porque os dados faltantes também são importantes [para análises]”, alertou Emanuelle, disse articulando o impacto da falta de dados e marcadores da população negra nos levantamentos sobre saúde.

Assista abaixo o registro da primeira audiência.

Como cumprir o Plano de Vacinação entre as comunidades quilombolas?– Artigo de Hilton P. Silva

Este artigo é uma produção do GT Racismo/Abrasco com apoio institucional do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA)

Não se sabe exatamente quantas comunidades quilombolas existem no Brasil. Em 2019, o IBGE havia identificado 5.972 grupamentos. Segundo o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19 do Ministério da Saúde, essas populações têm elevada vulnerabilidade social, logo, são prioritárias para imunização. Com a chegada das vacinas, haverá necessidade de planejar as formas de abordar esse grupo para garantir o acesso e a eficácia da campanha.
É fundamental que os municípios se preparem, reconhecendo quantas comunidades existem em seu território e qual a população total sujeita à vacinação. Além disso, é papel da Secretaria Municipal de Saúde coordenar com as associações representativas dos quilombos para identificar as condições de acesso, a fim de planejar os modos de transporte, quantidade de insumos, equipamentos, combustível e equipes necessárias para a ação. As turmas novas devem ser imediatamente sensibilizadas, seguindo as diretrizes da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Para o adequado cumprimento de sua missão, as equipes de saúde devem ser preferencialmente das próprias comunidades, ou serem os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e outros profissionais já familiarizados com a população local. E, claro, com pleno acesso aos equipamentos de proteção individuais (EPIs).
Já o acesso aos territórios e a abordagem da população precisam ser feitos com o apoio das lideranças e/ou organizações locais, responsáveis também por indicar os espaços destinados à vacinação, cabendo aos técnicos a avaliação de possíveis adaptações a serem executadas pelo município.
Como o isolamento geográfico dos territórios pode dificultar o retorno no prazo adequado, será preciso planejar para que todos os grupos sejam vacinados em cada visita, bem como a logística para a volta a todas as comunidades para aplicação da segunda dose. Em virtude da precariedade das condições sócio-sanitárias da maioria dos quilombos, a prefeitura deve garantir a entrega de materiais de higiene e máscaras para todos os moradores, em ambas as etapas de imunização, reduzindo assim, o risco de contaminação.
Dada a situação de vulnerabilidade das pessoas, é fundamental que a vacinação seja organizada de forma a evitar aglomerações. Como podem ocorrer efeitos colaterais, recomenda-se que a equipe permaneça no local de 12 a 24 horas, para acompanhar eventuais intercorrências.
Em tempos de grande circulação de notícias falsas, o sucesso do Plano Municipal de Vacinação dependerá também da sua divulgação, com uma ampla campanha informando datas, locais e público-alvo para evitar que outros se dirijam aos postos quilombolas, causando aglomeração e potencial infiltração da doença.
Como as duas vacinas foram aprovadas para uso emergencial, é preciso fazer um cuidadoso acompanhamento individual, uma vez que podem ocorrer eventos adversos pós-vacinação (EAPV) em dias subsequentes, e que todos devem receber a segunda dose. O Ministério da Saúde desenvolveu um software com esse propósito (aplicativo Conecte-SUS), mas este está ainda em fase de implantação. Então, talvez seja necessário planejar alternativas localmente.
Finalmente, considerando o racismo estrutural vivido pelas comunidades tradicionais, e com a finalidade de garantir a democracia do acesso, a imunização não deve ser condicionada a apresentação de qualquer tipo de documento ou cadastro prévio, e tampouco ser solicitado a assinatura de termo de consentimento para o usuário. Porém, cada um deverá receber um comprovante de imunização e ser informado para trazê-lo ao voltar para a dose complementar.

Hilton P. Silva, é membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco e Prof. Dr. da Universidade Federal do Pará (UFPA).

A saúde mental da população negra importa! Por que ainda precisamos afirmar? – Artigo de Emiliano de Camargo David

*Este artigo é uma produção do GT Racismo e Saúde da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) em parceria com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA)

Dados do Ministério da Saúde mostram maior número de suicídio entre adolescentes negros e mais mortes por consumo abusivo de álcool entre pessoas negras.

Aproximadamente 1 bilhão de pessoas foram diagnosticadas e convivem com algum transtorno mental no mundo. Três milhões de pessoas têm como causa morte o uso abusivo de álcool e a cada 40 segundos alguma pessoa é vítima de suicídio. Segundo a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde), no Brasil o campo da saúde mental é o mais desinvestido no âmbito da saúde pública.

Essa realidade, quando analisada à luz do marcador social raça/cor, revela que a saúde mental da população negra é pauta de primeira ordem. Segundo dados do Ministério da Saúde de 2012, na comparação das taxas de mortalidade (por 100.000 habitantes) devido ao uso de álcool, o percentual de pretos é de 5,93 e o de pardos 3,89, enquanto, o percentual de brancos é de 2,69 e o de amarelos, 0,86. Quando o tema é a taxa de mortalidade por suicídio em jovens, a situação se agrava: em 2016, a cada 10 suicídios em adolescentes, 6 ocorreram entre negros.

Historicamente, a população negra foi vitimada pela lógica eugenista e manicomial. A primeira delas tentou justificar, ancorada em pseudociência, a inferioridade de negros e negras; a segunda, por sua vez, promoveu não apenas a manicomialização deles em hospitais psiquiátrico (grande parte destes sem demandas e/ou diagnósticos que justificassem algum tratamento), mas, acima de tudo, a vinculação da população negra e seus costumes à loucura e periculosidade.

Em resposta a esse contexto racista, realizou-se entre agosto e setembro a campanha: Saúde Mental da População Negra Importa!, promovida pela Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) – ANPSINEP. A campanha ganhou as redes sociais e contou com o apoio de 260 instituições, entre elas universidades públicas e privadas; entidades de distintos movimentos sociais; programas de pós-graduados; conselhos de classe; sindicatos; serviços de saúde pública; organizações culturais e religiosas; coletivos independentes, entre outras. Durante os 30 dias, em meio à pandemia do novo coronavírus, seminários, debates e manifestos ganharam a cena virtual, chamando a atenção para uma temática pouco debatida dentro e fora do campo da saúde.

À vista disso, focalizar a saúde mental, em meio à pandemia no país com a maior quantidade de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas fora do continente africano, exige a compreensão do que o psiquiatra Frantz Fanon apontou e o filósofo Achille Mbembe assevera: a colonialidade propõe uma dinâmica psicológica de morte em vida, na qual a vida estaria submetida ao poder da morte.

Essa dinâmica genocida está em curso no Brasil virulento, pois a população negra, além de sofrer com os maiores índices de morte por covid-19, é o grupo racial com maior exposição às formas de contágio, devido ao acesso precário a saneamento básico; trabalhadores(as) uberizados, moradias precárias, dificultadores de distanciamento social, entre outros. Tudo isso tem interferência direta na saúde mental dessa população, provocando medo, ansiedade, desânimo, exigindo processos de luto, entre outros efeitos/demandas psicossociais.

A intersecção de raça, gênero e classe colabora com essa realidade, mas, não podemos deixar de apontar o racismo estrutural como pedra angular dessa lógica. Nessa esteira, compreendemos que a discussão de saúde mental da população negra deve acontecer no âmbito da atenção psicossocial, pois, apenas assim, compreenderemos os fenômenos apontados acima no bojo dos Determinantes Sociais de Saúde, o que permite a criação e fortalecimento de políticas públicas de saúde/saúde mental que interfiram nessa dinâmica racista de manicomialização e morte.

Para que possamos alcançar equidade racial no cuidado em saúde mental, é necessário o fortalecimento das bandeiras do movimento de Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica brasileira.

Afinal, a covid-19 escancara a necessidade de estratégias em saúde/saúde mental que visem à redução de danos como abordagem e estratégia de cuidado clínico, bem como, a importância do cuidado em liberdade. Para isso, os ensinamentos afrodiaspóricos necessitam de maior espaço neste campo de luta e cuidado. Sendo assim, ainda continuaremos a exclamar: a saúde mental da população negra importa!

Artigo publicado originalmente no site Huffpost Brasil

Emiliano de Camargo David – Psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia Social (PUC-SP). Professor do Instituto SEDES Sapientiae (curso de Especialização “Saúde Mental e Reforma Psiquiátrica: Clínica e Política na Transformação das Práticas”). Membro do GT Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO). Integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas Lógicas Institucionais e Coletivas (NUPLIC – PUC SP).

Por que a COVID-19 é mais mortal para a população negra? – Artigo de Edna Araújo e Kia Caldwell

O Brasil e os Estados Unidos têm muito em comum quando se trata do coronavírus. Ambos estão entre os países mais atingidos do mundo, onde centenas morrem diariamente. O poder público máximo dos dois países possui opiniões semelhantes sobre a forma de lidar com a pandemia e têm sido criticados por isso. E em ambos os países o vírus está afetando desproporcionalmente os negros, resultado do racismo estrutural que remonta à escravidão.

Desigualdades raciais

O Brasil moderno nunca legalizou a discriminação racial como as leis Jim Crow nos Estados Unidos, mas as desigualdades raciais estão profundamente arraigadas. Apesar do persistente mito do Brasil como uma integrada “democracia racial”, a discriminação no mercado de trabalho caracterizada por menores salários para brasileiros pretos e pardos mesmo quando eles têm a mesma formação educacional de brasileiros brancos, assim como . segregação residencial , que determina que as pessoas negras, em sua maioria, residam nas periferias ou em favelas por conta da sua classe social, limitam as oportunidades para esta população.

Esses e outros fatores se traduzem em menor expectativa de vida, educação e condições de vida para a população negra. Os brasileiros negros vivem, em média, 73 anos – três anos a menos que os brasileiros brancos, de acordo com a Pesquisa Nacional de Domicílios de 2017. Os EUA têm uma diferença de expectativa de vida entre as raças, bem similar.

Como os dados no Brasil não são coletados sistematicamente por raça/cor ou etnia, nem mesmo em nível da Atenção Básica à Saúde que possibilita a resolução de grande parte das necessidades de saúde da população brasileira, os impactos do racismo na saúde podem ser difíceis de ser mensurados.

O governo federal do Brasil não exigiu a coleta de dados raciais para os casos de COVID-19 até a segunda semana de abril, e somente o fez após pressão de movimentos negros, entidades de classe e associação cientifica. Todavia, os dados que têm sido divulgados não têm qualidade que permita a realização de análises robustas que desvelem as iniquidades raciais em saúde.

Independentemente disso, em abril o Ministério da Saúde já havia apontado altas taxas de mortalidade por COVID-19 entre os negros, uma categoria que inclui pessoas que se identificam como “pretas” e “pardas” no censo demográfico. As autoridades do município de São Paulo também anunciaram que as taxas de mortalidade entre os pacientes com COVID-19 eram mais altas entre os negros. Dados coletados no mês de maio por pesquisadores independentes para mais de 5.500 municípios mostram que 55% dos pacientes negros, hospitalizados com COVID-19 em estado grave, morreram em comparação com 34% dos pacientes brancos.

Racismo e Saúde

Por mais de uma década, ativistas negras (os) e pesquisadores em saúde pública vêm apontando que o racismo institucional cria piores resultados para a saúde da população negra brasileira. A população negra experimenta taxas mais altas de doenças crônicas como diabetes, pressão alta, problemas respiratórios e renais devido à insegurança alimentar, acesso inadequado a medicamentos e prescrições.

O próprio racismo também causa um forte impacto físico sobre os negros. Estudos nos Estados Unidos demonstram que as experiências diárias de racismo e discriminação podem levar a índices perigosamente altos de hormônios do estresse e diminuir a capacidade do corpo de combater doenças, e consequentemente, a infecção pelo coronavírus.

Ao contrário dos EUA, o Brasil possui assistência médica gratuita e universal através do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas, infelizmente, a precarização e subfinanciamento desse sistema tem colocado em risco principalmente as populações vulnerabilizadas que mais utilizam o SUS. Atualmente, os leitos de terapia intensiva para atender os casos de coronavírus são escassos nos hospitais públicos de várias cidades. Isto é especialmente prejudicial para os pacientes negros com COVID-19, já que estes dependem mais do sistema público de saúde do que os brasileiros brancos, que geralmente têm seguro de saúde privado por meio de seus empregos.

Pobreza e exposição

A desigualdade econômica extrema é outro fator crítico que interfere na saúde geral da população negra. Com os 10% da população mais rica do Brasil concentrando 55% do total da renda do país, o Brasil fica atrás apenas do Catar na desigualdade de renda, de acordo com um relatório de 2019 das Nações Unidas.

A diferença salarial racial no Brasil realmente supera a diferença salarial de gênero: as mulheres brancas ganham 74% a mais do que os homens negros.

De um modo geral, quanto maior o salário oferecido por uma empresa, menor a probabilidade de uma pessoa negra conseguir esse emprego. Muitos negros trabalham nos setores informais e de serviços, vendedores ambulantes ou faxineiros. Outros são trabalhadores independentes ou desempregados.

Durante uma pandemia, essa insegurança econômica diminui drasticamente a capacidade dos negros se distanciar socialmente e os torna altamente dependentes de permanecer em seus empregos, apesar da ameaça à saúde. Empregadas domésticas, por exemplo – a maioria delas são mulheres negras – estão se mostrando um grupo de alto risco. Aliás, uma trabalhadora doméstica estava entre as primeiras mortes de COVID-19 no Brasil.

Os riscos nos locais de moradia

O surto de coronavírus no Brasil se originou em bairros ricos cujos moradores haviam viajado para a Europa, mas a doença agora está se espalhando mais rapidamente para bairros pobres das periferias urbanas, densos e há muito negligenciados pelo Estado.

Pouco mais de 12 milhões de brasileiros, a maioria negros, vivem em assentamentos urbanos anormais, das favelas do Rio de Janeiro às “periferias” de São Paulo. Essas áreas têm acesso inadequado à água e ao saneamento, dificultando o cumprimento das recomendações básicas de higiene, como lavar as mãos com sabão.

Portanto, embora o impacto desigual da COVID-19 na população negra não tenha sido inevitável, ele não é surpreendente. O racismo que permeia quase todas as facetas da sociedade brasileira aumenta a exposição das pessoas negras ao vírus – depois reduz sua capacidade de obter atendimento de qualidade para mitigar os efeitos das formas graves da doença e até mesmo evitar a morte.

Edna Maria de Araujo – Docente permanente do Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana-Bahia. Membro do Grupo Temático Racismo e Saúde da ABRASCO-Brasil


Kia Lilly Caldwell – Professora do Departamento de Estudos Africanos, Afro-Americanos e Diáspora da Universidade da Carolina do Norte-EUA

O Grupo Temático Racismo e Saúde da ABRASCO tem apoio institucional do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA)

Referências:

  1. https://www.nytimes.com/interactive/2020/world/americas/brazil-coronavirus-cases.html
  2. https://www.vox.com/policy-and-politics/2020/3/14/21177509/coronavirus-trump-covid-19-pandemic-response
  3. https://theconversation.com/brazil-jair-bolsonaros-strategy-of-chaos-hinders-coronavirus-response-136590
  4. https://www.americanprogress.org/issues/race/news/2020/03/27/482337/coronavirus-compounds-inequality-endangers-communities-color/
  5. https://www.bbc.com/news/world-latin-america-30413525
  6. https://theconversation.com/assassination-in-brazil-unmasks-the-deadly-racism-of-a-country-that-would-rather-ignore-it-94389
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3863696/
  8. https://www.nexojornal.com.br/grafico/2019/06/10/A-expectativa-de-vida-no-Brasil-por-g%C3%AAnero-ra%C3%A7a-ou-cor-e-estado
  9. CDC (Centers for Disease Control and Prevention), Life expectancy at birth, at age 65, and at age 75, by sex, race, and Hispanic origin: United States, selected years 1900–2016 https://www.cdc.gov/nchs/data/hus/2017/015.pdf
  10. CDC (Centers for Disease Control and Prevention), Life expectancy at birth, at age 65, and at age 75, by sex, race, and Hispanic origin: United States, selected years 1900–2016 https://www.cdc.gov/nchs/data/hus/2017/015.pdf
  11. https://www.nexojornal.com.br/grafico/2019/06/10/A-expectativa-de-vida-no-Brasil-por-g%C3%AAnero-ra%C3%A7a-ou-cor-e-estado
  12. https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/04/justica-determina-coleta-de-registros-de-raca-e-etnia-em-casos-de-covid.htm
  13. https://nacoesunidas.org/relatorio-de-desenvolvimento-humano-do-pnud-destaca-altos-indices-de-desigualdade-no-brasil/ Acessado em 15 de maio de 2020
  14. São Paulo. Secretaria Municipal da Saúde COVID-19 Boletim. 30 abril 2020. Quinzenal https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/saude/PMSP_SMS_COVID19_Boletim%20Quinzenal_20200430.pdf?fbclid=IwAR0mNVdNtmO7ODqPCAqH0QfkzsX1hpMKNkvmgySqi1k2XD42E3F8vjz2OjU
  15. https://saude.rs.gov.br/atencao-basica-ou-primaria-principal-porta-de-entrada-para-o-sistema-unico-de-saude-sus

Governo da Bahia lança edital para pesquisa em saúde da população negra


Está aberto o período de submissão de propostas para o edital Nº 005/2019 – Apoio à Pesquisa Cientifica, Tecnológica e/ou Inovação em Doenças e Agravos prevalentes na População Negra e dos Povos de Comunidades Tradicionais, com ênfase em Doença Falciforme.

Lançado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia – FAPESB, tem objetivo de contribuir para a resolução de problemas que afetam a saúde desta população, bem como estimular a formulação de políticas públicas de impacto para a redução da morbimortalidade e promoção da qualidade de vida de negros e negras brasileiros.

Podem concorrer pesquisadores doutores que tenham vínculo empregatício permanente com instituições de ensino superior (IES) ou com instituições científicas e/ou tecnológicas (ICT), públicas ou privadas sem fins lucrativos, localizadas no Estado da Bahia. O pesquisador ou pesquisadora titular deve ter cadastro online junto à FAPESB.

Será destinado o valor de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) ao fomento dos projetos aprovados. A data limite para postagem das propostas é 18 de fevereiro de 2020. O formulário eletrônico deve ser impresso e apensado junto com demais documentos comprobatórios e serem enviados exclusivamente via Sedex. A divulgação dos resultados está prevista para a segunda quinzena de abril.

Confira a chamada pública no link: http://www.fapesb.ba.gov.br/edital-no-0052019-doencas-e-agravos-prevalentes-na-populacao-negra-e-dos-povos-de-comunidades-tradicionais-com-enfase-em-doenca-falciforme/