Integrantes do GT Racismo falam à Agência Pública o porquê negros são a minoria entre os vacinados

Vacinação 79 anos ou mais, no Posto Santa Marta, em Porto Alegre (RS). Fotos: Giulian Serafim / PMPA

O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Hilton Silva e a pesquisadora Emanuelle Góes, doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia, ambos membros do GT Racismo e Saúde da Abrasco, avaliaram os dados levantados pelo site da Agência Pública sobre a desigualdade racial na fila de vacinação.

A reportagem divulgou diferentes cenários, mostrando os abismos responsáveis por distanciar negros e brancos na imunização contra a Covid-19. Até o momento, 3,2 milhões dos vacinados são brancos, ante 1,7 milhão de negros. De acordo com os levantamentos feitos pela Pública, 3,66% da população branca receberam a primeira dose da vacina e quando a mesma análise é feita entre a população negra, o percentual de vacinados cai para 1,48%.

Para os especialistas ouvidos pela reportagem, as discrepâncias na vacinação entre brancos e negros têm diversos fatores. “Muitas vezes é uma questão de locomoção. Vai ter a população branca que tem, por exemplo, a possibilidade de pegar o seu carro e ir para um drive thru para ser vacinado, enquanto a pessoa idosa que mora na periferia, que mora no quilombo ou numa área mais remota não tem essa possibilidade porque não tem esse transporte”, afirma o professor. “Você percebe que isso em si já oferece um acesso diferencial em relação à vacinação”, analisa Hilton Silva.

Para Emanuelle Góes, a população negra vai acumulando doenças crônicas em uma situação mais agravada, devido aos contextos sociais de maior dificuldade. “Ela vive a precarização da vida, no acúmulo do racismo, nas suas diversas dimensões na vida das pessoas. Com isso, o envelhecimento também se torna mais negligenciado e é prejudicado por esse acúmulo de desigualdade e do racismo na vida dessas pessoas”, afirma.

Confira a reportagem completa aqui.

Como cumprir o Plano de Vacinação entre as comunidades quilombolas?– Artigo de Hilton P. Silva

Este artigo é uma produção do GT Racismo/Abrasco com apoio institucional do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA)

Não se sabe exatamente quantas comunidades quilombolas existem no Brasil. Em 2019, o IBGE havia identificado 5.972 grupamentos. Segundo o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19 do Ministério da Saúde, essas populações têm elevada vulnerabilidade social, logo, são prioritárias para imunização. Com a chegada das vacinas, haverá necessidade de planejar as formas de abordar esse grupo para garantir o acesso e a eficácia da campanha.
É fundamental que os municípios se preparem, reconhecendo quantas comunidades existem em seu território e qual a população total sujeita à vacinação. Além disso, é papel da Secretaria Municipal de Saúde coordenar com as associações representativas dos quilombos para identificar as condições de acesso, a fim de planejar os modos de transporte, quantidade de insumos, equipamentos, combustível e equipes necessárias para a ação. As turmas novas devem ser imediatamente sensibilizadas, seguindo as diretrizes da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Para o adequado cumprimento de sua missão, as equipes de saúde devem ser preferencialmente das próprias comunidades, ou serem os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e outros profissionais já familiarizados com a população local. E, claro, com pleno acesso aos equipamentos de proteção individuais (EPIs).
Já o acesso aos territórios e a abordagem da população precisam ser feitos com o apoio das lideranças e/ou organizações locais, responsáveis também por indicar os espaços destinados à vacinação, cabendo aos técnicos a avaliação de possíveis adaptações a serem executadas pelo município.
Como o isolamento geográfico dos territórios pode dificultar o retorno no prazo adequado, será preciso planejar para que todos os grupos sejam vacinados em cada visita, bem como a logística para a volta a todas as comunidades para aplicação da segunda dose. Em virtude da precariedade das condições sócio-sanitárias da maioria dos quilombos, a prefeitura deve garantir a entrega de materiais de higiene e máscaras para todos os moradores, em ambas as etapas de imunização, reduzindo assim, o risco de contaminação.
Dada a situação de vulnerabilidade das pessoas, é fundamental que a vacinação seja organizada de forma a evitar aglomerações. Como podem ocorrer efeitos colaterais, recomenda-se que a equipe permaneça no local de 12 a 24 horas, para acompanhar eventuais intercorrências.
Em tempos de grande circulação de notícias falsas, o sucesso do Plano Municipal de Vacinação dependerá também da sua divulgação, com uma ampla campanha informando datas, locais e público-alvo para evitar que outros se dirijam aos postos quilombolas, causando aglomeração e potencial infiltração da doença.
Como as duas vacinas foram aprovadas para uso emergencial, é preciso fazer um cuidadoso acompanhamento individual, uma vez que podem ocorrer eventos adversos pós-vacinação (EAPV) em dias subsequentes, e que todos devem receber a segunda dose. O Ministério da Saúde desenvolveu um software com esse propósito (aplicativo Conecte-SUS), mas este está ainda em fase de implantação. Então, talvez seja necessário planejar alternativas localmente.
Finalmente, considerando o racismo estrutural vivido pelas comunidades tradicionais, e com a finalidade de garantir a democracia do acesso, a imunização não deve ser condicionada a apresentação de qualquer tipo de documento ou cadastro prévio, e tampouco ser solicitado a assinatura de termo de consentimento para o usuário. Porém, cada um deverá receber um comprovante de imunização e ser informado para trazê-lo ao voltar para a dose complementar.

Hilton P. Silva, é membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco e Prof. Dr. da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Racismo institucional afeta o acesso de negros aos serviços de saúde

Foto de Charlotte May no Pexels

Integrantes do GT Racismo e Saúde falam sobre o impacto do racismo institucional na saúde

O racismo institucional, aquele enraizado nas estruturas das organizações públicas e privadas, limita o acesso da população negra a direitos, inclusive aos serviços de saúde, afetando diretamente a expectativa e a qualidade de vida dessa parcela da população. Essa relação direta foi tema da matéria Vida Negras Importam?, publicada pelo portal UOL em 18 de fevereiro e que contou com a participação de abrasquianas e abrasquianos membros do Grupo Temático Racismo e Saúde (GT Racismo).

“Os pacientes negros podem demorar mais para ser atendidos; as consultas acontecem sem contato físico ou diálogo olho no olho”, afirma o abrasquiano Altair Lira, mestre em saúde coletiva, professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia), que estuda as barreiras enfrentadas pela população negra no campo da saúde.

Dados do próprio Ministério da Saúde corroboram a fala do pesquisador. De acordo com levantamentos realizados pela pasta em 2017, 69,5% dos negros entrevistados tinham passado em uma consulta no último ano, enquanto entre os brancos o percentual era de 74,8. A mesma pesquisa mostrou 38,2% dos negros tiveram acesso a dentista nos últimos 365 dias, ante a 50,4% da população branca.

E as diferenças não param por aí: mulheres negras têm duas vezes mais chances de morrer devido às complicações na gestação, parto e pós parto, segundo pesquisas do Ministério da Saúde e da Fiocruz. “Muitas mulheres negras, por exemplo, sentem medo de procurar atendimento médico por receio de serem maltratadas ou incompreendidas”, lamenta Emanuelle Góes, integrante do GT Racismo e Saúde da Abrasco e doutora em saúde pública e pesquisadora da Rede Covida, também ouvida pela matéria.

Confira a matéria completa divulgada pelo UOL aqui.