Abrasco lança e-book com conjunto de dados e debates sobre a saúde da população negra na pandemia

Para celebrar o 27 de outubro, Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra e dar início às manifestações que vão marcar novembro, o mês da consciência negra, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, por meio de seu Grupo Temático Racismo e Saúde (GT Racismo/Abrasco), apresenta sua mais recente publicação digital: População Negra e Covid-19.

A obra reúne 13 artigos assinados por docentes e pesquisadores de diversas instituições dedicados a vários aspectos da temática da saúde da população negra, integrantes do GT Racismo/Abrasco e parceiros. É também mais um dos resultados do apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA Brasil) à Associação. Iniciado em 2020, este apoio teve como objetivo produzir insumos técnico-científicos a partir de estudos e análises sobre a situação da pandemia da Covid-19 na população negra, além de ampliar o intercâmbio com pesquisadores para a utilização de bancos de dados nacionais.

Os artigos acompanharam a trajetória da pandemia de junho de 2020 a setembro de 2021. Para travar o debate público, fazer a denúncia e dar visibilidade à produção de uma ciência negra, os textos foram inicialmente divulgados em diversos veículos da imprensa brasileira, como O GloboFolha de S. PauloUOLCarta CapitalNexo JornalAlma Preta, e posteriormente republicados no site da Abrasco e UNFPA/Brasil.

“Essas produções, de autoria de vários participantes do GT Racismo e Saúde da Abrasco, têm tido papel crucial na visibilidade do racismo como um dos principais determinantes sociais de iniquidades em saúde que tem levado a população negra brasileira ao maior adoecimento e mortalidade por causas evitáveis como é o caso da Covid-19”, destaca Edna Araújo, uma das autoras, docente da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e que coordenou o projeto juntamente com Luis Eduardo Batista, da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Reunidos, os artigos informam sobre os problemas estruturais da sociedade brasileira, abordando o racismo, a exclusão e a falta de acesso da população negra a serviços básicos, o que a projeta para o topo dos piores índices da pandemia no que tange ao número de vacinados e infectados e, consequentemente, no total de óbitos. Falam também da população negra na perspectiva dos direitos à cidadania, à saúde mental, ao envelhecimento saudável, à representatividade feminina e no combate à violência.

Além de reunir os textos, o e-book é ilustrado por fotografias feitas para a constituição de um inédito banco de imagens sobre saúde da população negra, que retrata diversas nuances do cotidiano da população afrobrasileira no enfrentamento da pandemia, tanto nas grandes metrópoles como nas comunidades quilombolas.

“Este volume, histórico, resulta de um esforço colaborativo entre a Associação e esse importante Fundo da ONU para que possamos avançar no compromisso de discutir a saúde a partir de perspectivas de raça, cor e etnia. Dessa forma, a Abrasco cumpre seu papel de chamar a atenção para a questão da vulnerabilidade de várias populações, sobretudo da população negra, particularmente em relação às políticas públicas de saúde, e para que a população negra possa ter acesso a um conjunto sólido de informações científicas para o seu empoderamento no campo da saúde coletiva”, ressalta Hilton Pereira da Silva, também autor, docente da Universidade Federal do Pará (UFPA) e membro da atual coordenação do GT Racismo/Abrasco.

População Negra e Covid-19

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APRESENTAÇÃO

Marcadores sociais como raça, gênero, território e situação econômica têm impacto direto nos indicadores de infecções, mortes e na vacinação da Covid-19. Com intuito de obter respostas e propor alternativas para o combate mais efetivo da pandemia, levando em consideração os fatores adversos, pesquisadores do Grupo Temático Racismo e Saúde da Abrasco, Associação Brasileira de Saúde Coletiva, têm trabalhado com esta temática.

A produção de conhecimento somado à articulação com instituições estratégicas têm contribuído efetivamente para a elaboração de evidências fundamentais para a execução e monitoramento de políticas públicas de saúde, neste caso, voltadas para a população negra.

Respondendo à necessidade de mudanças mais efetivas nas políticas públicas para mitigar o efeito da pandemia na população negra, em meados de 2020, o GT Racismo e Saúde da Abrasco recebeu apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) para a produção de análises sobre o impacto da Pandemia Covid-19 na população negra. Verificou-se que problemas estruturais da sociedade brasileira, como o racismo, a exclusão e falta de acesso aos serviços básicos projetam a população negra para o topo dos piores índices da pandemia no que tange ao número de vacinados e infectados, e, consequentemente, no total de óbitos.

Este livro reúne 13 artigos com as análises feitas pelos integrantes do GT Racismo e Saúde da Abrasco sob a perspectiva racial, publicados na imprensa entre meados de 2020 até outubro de 2021.

Inclusão da temática racial nos cursos de graduação e pós norteiam Dossiê produzido por pesquisadoras do GT Racismo e Saúde

Dossiê traz experiências de abordagem da temática racial nos cursos de graduação e pós-graduação/ Foto: Júlio Cesar Almeida

A incorporação da pauta étnico-racial no currículo dos cursos de graduação e pós-graduação em saúde coletiva foi o tema abordado no dossiê ‘Raça. etnia, gênero: experiências na formação em saúde‘, organizado pelas pesquisadoras de Rosana Monteiro,  Márcia Pereira Alves dos Santos e Edna Maria de Araújo, integrantes do GT Racismo e Saúde, e publicado pela Revista Interface, Comunicação e Saúde. A abordagem da temática é necessária no processo de formação para que, o futuro profissional de saúde, compreenda o impacto das iniquidades étnico-raciais na saúde da população. Há ainda uma legislação que determina a abordagem de temas relacionados a relações étnico-raciais, história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nos cursos da educação básica ao ensino superior. Algumas Diretrizes Curriculares Nacionais de cursos de graduação,  a exemplo das DCN do curso de Medicina, também indicam a necessidade de abordagem de tais temáticas.

Entre os objetivos do  GT Racismo e Saúde está “Propor a inclusão dos temas relacionados a racismo […] bem como suas interseccionalidades (gênero, classe) em […] Congressos organizados pela Abrasco; e ainda “Contribuir para nortear a implantação da temática, fomentar e incluir os temas como racismo e saúde da população negra nas formações universitárias […] e na educação permanente […]. Assim, as organizadoras do Dossiê submeteram proposta de Grupo  Temático ao  8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CBCSHS)  aprovado como GT28 “Saúde, currículo, formação: experiências, vivências, aprendizados e resistência sobre raça, etnia, gênero e seus (des)afetos”. A qualidade dos trabalhos e dos debates levou a proposição do dossiê.

Uma consulta realizada pelo GT Racismo e Saúde, o GT Saúde Indígena e o Fórum de Graduação em Saúde Coletiva em 2019 reforça a necessidade e importância do tema do Dossiê. Foi realizada  uma consulta aos 89 programas de pós-graduação em Saúde Coletiva e 18 responderam. Entre as perguntas estavam: “Seu programa de pós-graduação possui disciplina(s) que abordam a temática saúde da população negra e saúde da população indígena?” e, apenas, 38,9% disseram que abordam a temática saúde da população negra e 22% a saúde da população indígena.   

O artigo de Rosana Monteiro, Márcia Pereira Alves dos Santos e Edna Maria Araújo, que compõe o  dossiê aborda a inserção da temática étnico-racial dos cursos de Saúde de instituições de nível superior (IES) nos estados da Bahia, de Sergipe, Alagoas e São Paulo, no período de 2010 a 2018. Em São Paulo, por exemplo, ‘dos 24 cursos de Saúde, (…) somente 25% incluíram a temática da saúde da população negra no processo de formação dos acadêmicos, entretanto nenhum curso de saúde tinha uma disciplina específica sobre a temática. 

Para além da denúncia sobre as ausências, o dossiê traz artigos sobre experiências de abordagem da temática nos cursos de graduação e pós-graduação, apontando caminhos possíveis. 

Leia aqui na íntegra publicação da Revista Interface 

Doença Falciforme e Covid-19: negligências históricas e novas ameaças à vida

Este artigo é uma produção do GT Racismo/Abrasco com apoio institucional da UNFPA, o Fundo de População das Nações Unidas no Brasil .

Desde 2008, a ONU estabeleceu 19 de junho como Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Falciforme (DF), uma das doenças hematológicas genéticas e hereditárias mais comuns no mundo, com, aproximadamente, 6,4 milhões de pessoas acometidas e 400 mil nascidos vivos anualmente. No Brasil, atinge majoritariamente a população negra, o que potencializa o risco de adoecer e morrer por Covid-19.
A DF não compõe o rol de doenças negligenciadas definido pela OMS, mas é possível refletir sobre indicadores de negligência política, econômica e científica pela falta de priorização na agenda de saúde. Trata-se de uma negligência histórica, que apenas se intensifica neste momento de pandemia.
Estudos do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, mostraram que pessoas com doença falciforme apresentam um quadro de agravamento clínico em todos os órgãos, particularmente no aparelho respiratório. Significa dizer que pessoas com doença falciforme podem desenvolver o quadro mais grave quando contaminadas pelo coronavírus.
Lamentavelmente, no Brasil, não existe um painel de monitoramento para os casos com DF e Covid-19, diferentemente da experiência estadunidense, onde uma rede colaborativa mundial de profissionais de saúde atendem pessoas com doença falciforme registram e monitoram os casos confirmados de Covid-19. Ao fazer o monitoramento, produzem dados e informações, fundamental para elaboração de políticas públicas.
Nosso PNI, o Plano Nacional de Imunização, traz a doença falciforme como comorbidade prioritária para a vacinação. No entanto, percebe-se que não há detalhamento na sua descrição. A doença falciforme é apresentada como doença rara, o que é um grande equívoco na realidade brasileira.
A imunização precisa ser garantida às pessoas com DF, já que é a única estratégia eficaz para evitar a contaminação ou ainda mitigar os efeitos da Covid-19. Mas, se descontextualizada do perfil racial, do risco de adoecimento e morte e pautada exclusivamente no critério etário chancela uma injusta desvantagem, a começar pela expectativa de vida, que é menor. A faixa etária entre 18 e 35 anos demanda maior necessidade de cuidado. A vacina deveria ser ofertada para todos (as) acima de 18 anos assim como se fez para outra doença genética, a Síndrome de Down. Esta desigualdade mostra as nuances do racismo estrutural.
Ter o PNI apenas como uma diretriz e sem coordenação nacional efetiva na campanha de vacinação, estados e municípios por contra própria definem suas ações, que conforme as realidades locais, podem estimular a não priorização da vacinação dessas pessoas, dificultando o acesso ou excluindo o direito delas à vacinação, o que é uma ameaça à vida.
O acesso prioritário de pessoas com doença falciforme à vacina é um pleito legítimo pela perspectiva da Equidade, e sobretudo é um Direito Humano pela preservação da vida face ao risco aumentado para as complicações e para o desfecho morte pela Covid-19.

Este artigo foi publicado orginalmente no site Alma Preta.

Altair Lira, membro do GT Racismo/Abrasco – Grupo Temático Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – e mestre em Saúde Coletiva pela UFBA

Márcia Pereira Alves, membro do GT Racismo/Abrasco e docente colaboradora da UFRJ

Clarice Santos Mota, doutora em Ciências Sociais pela UFBA

133 anos após a Abolição, negros ainda lutam por direitos – Artigo de Fernanda Lopes e Lúcia Xavier

Este artigo é uma produção do GT Racismo/Abrasco com apoio institucional do Fundo
de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA)

Após 133 anos da tal Abolição, ‘assinada’ no dia 13 de maio, negros, negras e negres
permanecem lutando pelo direito à vida, à liberdade, pela chance de respirar. No Brasil,
onde mais de 428 mil vidas foram ceifadas por conta da covid-19, são muitas as
evidências de que os efeitos da pandemia são desiguais, de acordo com a escolaridade,
ocupação, renda, gênero, raça, etnia e território dos sujeitos. Sem ações governamentais
eficientes e com a falta de consciência individual e coletiva, as assimetrias sociais e as
violações de direitos foram ainda mais agravadas. E, infelizmente, dados mostram que a
população negra tem sido mais afetada durante a pandemia.


O contraditório é que falamos de um país que, pelo menos na Constituição, a saúde é
direito fundamental, e para todos. Dito isso, é injustificável a desigualdade nas
oportunidades e condições de diagnóstico (incluindo acesso aos testes), na assistência
com tempestividade e qualidade. Os serviços de saúde deveriam ser para todes, mas na
prática, isso não é uma realidade.

Neste cenário de pandemia, observamos a não efetivação de direitos, aliado ao aumento
das desigualdades e à ampliação das vulnerabilidades. A consequência disso está no
reforço das iniquidades sociorraciais e na expansão dos efeitos nocivos sobre a saúde. É
certo que, se (a) a liderança e os mecanismos de governança centrais do SUS fossem
eficazes e resolutivos; (b) se os direitos fossem resguardados, e não dispensados ou
retirados e; (c) se todas as vidas importassem, talvez, tivéssemos outro quadro passado
pouco mais de um ano do primeiro registro de óbito: uma mulher, negra e diarista.

O perfil desta morte tem se repetido e comprova o quanto o racismo restringe o
exercício de direitos, fere a dignidade e determina piores condições de vida e saúde,
tanto no Brasil quanto no mundo. Nos EUA, por exemplo, o Centro de Controle de
Doenças informa que, considerando o percentual de mortes por Covid-19 e da
população, entre os negros há uma sobremortalidade de 10,5% e entre os brancos sub-
mortalidade de 28,3%. No Reino Unido, negros e outras minorias étnicas, embora
somem 13% da população, representam 1/3 dos admitidos em UTIs, tendo 4 vezes mais
chances de morrer, se comparados aos brancos. Situação semelhante é descrita no
Brasil. Uma recente publicação da Agência Brasil divulgou que as mortes por doenças
respiratórias, incluindo a Covid-19, aumentaram 28% entre a população negra. Entre
pessoas brancas, o avanço ficou em 18%.

Se por um lado há evidências de que, quanto maior a vulnerabilidade, pior a percepção
de risco e menor a capacidade de tomada de decisão protetiva em relação à saúde, no
Brasil, negras, negros, negres; quilombolas; periféricos; favelados; indígenas – os
rotulados “novos vulneráveis” – reiteram que o locus da tomada de decisão sobre a
saúde deve estar nas pessoas cujo estado de saúde está em questão. O enfrentamento do
racismo, dentro e fora do SUS, é requisito fundamental para garantia da saúde como

direito e não pode ser negociado ou transferido. No Brasil, onde se tinha, até então, a
melhor política de imunização do mundo, agora é preciso reivindicar vacina para todes e
advogar por projetos que não permitam furar a fila.
Movimentos sociais e outras institucionalidades se aliam e reforçam o lugar da
sociedade civil como agente mobilizador em defesa de direitos. Cobram do Estado a
garantia do direito à vida com dignidade, à saúde, à segurança alimentar e à justiça. A
saúde é o resultado de um conjunto de condições individuais e coletivas influenciado
por circunstâncias de ordem política, econômica, ambiental, cultural e social. Logo, em
muitas situações, a doença e a morte não são obras do destino ou fatalidade, mas, sim,
violação dos direitos.

*Fernanda Lopes é membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco e diretora de
Programa do Fundo Baobá para Equidade Racial.

**Lúcia Xavier é membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco e Coordenadora de
Criola.

Este artigo foi publicado originalmente no site da Carta Capital.

“Da prevenção à vacinação, negros não são prioridade para os governos”, diz reportagem publicada pelo Portal Dráuzio Varella

Reportagem ouviu duas abrasquianas, Emanuelle Góes e Márcia Alves, ambas do GT Racismo e Saúde
Pandemia de covid-19 tem aumentado a exclusão da população negra / Foto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

A reportagem “Da prevenção à vacinação, negros não são prioridade para os governos”, publicada nesta quarta-feira (05) pelo Portal Dráuzio Varella ouviu as abrasquianas Emanuelle Góes e Márcia Alves sobre o aumento da exclusão da população negra no contexto de pandemia. A matéria levantou também como o recorte exclusivamente de idade no processo de vacinação pode aumentar a desigualdade entre os idosos negros.

“Existe uma diferença entre vacinar um idoso que mora em bairro de classe média alta, vive sozinho e tem a possibilidade de se isolar e um idoso que mora na periferia, com várias pessoas na mesma casa e precisa sair todos os dias para trabalhar”, pontua Emanuelle. “A pandemia não é lida do ponto de vista das desigualdades. Para se implementar uma estratégia, devemos pensar primeiro em quem está em maior vulnerabilidade. Precisamos olhar para quem está às margens, para as comunidades tradicionais, para aqueles que estão mais distantes dos serviços de saúde. Os grupos prioritários realmente correspondem a essas populações?”, questionou Emanuelle Góes.

Para a pesquisadora Márcia Alves, o Brasil deixou de tomar decisões precisas mesmo tendo conhecimento das experiências dos países atingidos antes pela covid-19. “A pandemia chegou ao Brasil com um lapso de tempo, mas nós desconsideramos toda a robustez de informações que já tínhamos para importar experiências de outros países. Considerando o cenário brasileiro, o que a covid-19 nos apresenta hoje é um exponencial da situação de desigualdade historicamente vivenciada”, apontou Marcia Pereira.

Leia a reportagem completa aqui.

Réporter SUS aborda tema raça/cor no processo de vacinação

Vacinação no quilombola do Vale do Ribeira, São Paulo / Divulgação: Governo de São Paulo

O Repórter SUS, programa do Brasil de Fato, ouviu a pesquisadora Márcia Alves, integrante do GT Racismo e Saúde, da Abrasco, sobre como a falta de dados oficiais impedem uma condução adequada do controle da pandemia no Brasil. 

“Na prática, as condições de vida de determinados grupos os tornam mais expostos ao adoecimento e morte e no cenário Brasil este grupo é representado pela população negra”, explicou a pesquisadora.

Ouça a reportagem completa abaixo:

Políticas voltadas à saúde da população negra em debate na Câmara dos Deputados

Audiências promovidas pela Câmara dos Deputados abordam políticas exclusivas para população negra. Foto: Filipe Araújo/Fotos Públicas

No dia 9 de abril, duas audiências públicas da Câmara dos Deputados reuniram especialistas para debater políticas direcionadas à população negra e subsidiar um grupo de trabalho instaurado pela Comissão de Juristas – Combate ao Racismo, formado por juristas e parlamentares. Os dois encontros tiveram membros do GT Racismo e Saúde como convidados.

Na parte da manhã, a primeira audiência debateu as políticas de atenção à saúde da população negra. A sessão teve a participação dos abrasquianos Alexandre Silva e Lúcia Xavier; ao lado de Jurema Werneck. diretora-executiva da Anistia Internacional e ex-conselheira nacional de Saúde; Márcia Lima, professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da USP e Claudio Nascimento, coordenador do Grupo Arco-Íris.

Entre outros pontos abordados, Alexandre Silva, que representou a Abrasco no evento, frisou a importância de adoção de ações voltadas ao envelhecimento de qualidade da população negra. “Em muitos municípios a média de vida não chega a sessenta anos de idade. Então, como podemos garantir um envelhecimento a falta de acesso da população negra em serviços primários e também o impacto da pandêmia?”, questionou o pesquisador.

Já a segunda audiência, realizada durante a tarde, debateu a proteção à assistência social e segurança alimentar da população negra. Emanuelle Góes, membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco, participou como panelista juntamente com Clátia Vieira, representante do Fórum de Mulheres Negras; Fernanda Bairros, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Luana de Brito, representante da Rede de Mulheres Negras para Soberania e Segurança Alimentar e Nutriciona (Rede SSAN); e as pesquisadoras em Saúde Pública da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) Roberta Gondim e Denise Oliveira e Silva.

“Precisamos incluir a falta de dados de raça/cor nos estudos porque os dados faltantes também são importantes [para análises]”, alertou Emanuelle, disse articulando o impacto da falta de dados e marcadores da população negra nos levantamentos sobre saúde.

Assista abaixo o registro da primeira audiência.

Os negros nas listas de óbitos e os últimos na fila da imunização – Artigo de Márcia Pereira Alves dos Santos

Este artigo é uma produção do GT Racismo/Abrasco com apoio institucional do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA).

Ultrapassadas as mais de 300 mil mortes, a progressão da Covid-19 no país elevou o Brasil ao epicentro mundial da pandemia o tornando  uma ameaça global. Com mais pessoas atingidas, grupos que apresentam comorbidades e se encontram em vulnerabilidade social ficam ainda mais expostos, reforçando como a Covid-19 afeta desigualmente a população brasileira e tem sido mais letal para negras e negros.

O Boletim de Análise Político-Institucional número 26, publicado em março pelo Ipea em sua edição temática Pandemia e Políticas Públicas: a questão étnico-racial no centro do debate, é contundente neste diagnóstico. Se por um lado, as recentes análises escrutinam tal realidade, por outro, evidenciam a não ação governamental. A começar pelas manobras para omitir ou desconsiderar a questão étnico-racial, de gênero e classe, sem citar a falta de acesso aos serviços de saúde. Isto pode ser facilmente percebido desde os primeiros boletins epidemiológicos publicados pelo Ministério da Saúde (MS) no ano passado.

Pressionado pela mobilização dos movimentos sociais como a Coalizão Negra por Direitos, e de representações, como o GT Saúde da População Negra, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade e o GT Racismo e Saúde da Abrasco, oMS incorporou nos boletins epidemiológicos subsequentes às análises estratificadas por raça/cor,ainda que de forma superficial e não qualificada para subsidiar tomada de decisão ou mesmo estudos. Esses dados desagregados por raça/cor passaram a ser divulgados pelo Boletim Epidemiológico a partir de abril de 2020. Cabe destacar que, um ano antes, logo no início da pandemia, a Abrasco, por meio do GT Racismo e Saúde, pautou recomendações para prevenção, combate e mitigação do vírus entre a população negra.  E a necessidade de coletar dados e divulgá-los na perspectiva étnico-racial foi tema da Carta ao Ministério da Saúde sobre a informação raça/cor nos sistemas de informação da Covid-19, enviada à Pasta pela Abrasco e demais entidades

Apesar dos esforços, o sistema de saúde brasileiro, que já sofria por conta da precarização e o contingenciamento, permanece ignorando marcadores sociais, fortemente impactados pela Covid-19 como raça/cor, classe social, gênero e geração, capazes de interferir nos desfechos da doença, cuidados e total de mortes. A falta de articulação interfederativa e padronização permite que estados e municípios coletem os dados pelo modus operandi “faça por si mesmo”. 

Sem a construção de um ecossistema harmonizado para compartilhamento das informações completas dos infectados pela Covid-19, fica distante a adoção de uma governança justa da pandemia. A experiência do Brigham Health, serviço integrado ao sistema de saúde sem fins lucrativos do Mass General Brigham, em Massachusetts, nos EUA, comprova que é possível obter e analisar os dados de forma interseccional. Lá, se desenvolveu uma infraestrutura de dados robusta para compreender o impacto da Covid- e a partir desses dados para se projetou- estratégias para reduzir os danos causados ​​pelo racismo e outras formas de discriminação estrutural. Bairros negros- historicamente segregados foram menos testados, mas tiveram mais resultados positivos, quando comparados com bairros brancos mais ricos, por exemplo. No geral, norte-americanos que vivem em áreas mais vulneráveis têm 23% mais chances de serem diagnosticados com a doença, 32% mais chances de vir a óbito e 29% menos probabilidade de ser testado, segundo dados do CDC.

No Brasil, os resultados não seriam tão diferentes. A pandemia tem sido um lembrete doloroso sobre a necessidade urgente de abordar as iniquidades nos cuidados de saúde. A disponibilização das informações centrada nas vulnerabilidades sociais, com destaque para raça/cor, é fundamental para assegurar o enfrentamento da epidemia e deveria ser considerada como prioridade no planejamento das ações de monitoramento e avaliação das ações para a abordagem à Covid-19 em nosso país, face o perfil de extrema desigualdade racial. Caso contrário, os negros continuarão sendo os primeiros nas listas de óbitos e os últimos na fila da imunização.

Márcia Pereira Alves dos Santos é membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco e docente colaboradora da UFRJ.

Este artigo foi publicado originalmente no site da Carta Capital.

Olinda do Carmo Luiz fala como os critérios de vacinação contra a Covid-19 afetam os negros

A população branca tem mais acesso à vacinação drive thru – registro na zona norte do Rio de Janeiro/ Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

A discrepância no processo de imunização entre negros e brancos tem sido pauta na imprensa brasileira. O Jornal Metro e a Rádio Brasil Atual repercutiram a pesquisa exclusiva feita pela Agência Pública sobre o tema e, ambos, conversaram com Olinda do Carmo Luiz, abrasquiana integrante do GT Racismo e Saúde e professora colaboradora da Faculdade de Medicina da USP.

Na reportagem do Jornal Metro “Duas vezes mais brancos do que negros são vacinados contra a Covid-19 no Brasil”,  Olinda falou sobre as diferentes circustâncias capazes de privilegiar a população branca, inclusive, nas questões relacionadas à saúde. “A elaboração e a implantação das políticas sociais, as práticas institucionais e a herança histórica e cultural atuam de forma simultânea e articulada para favorecer um grupo racial – os brancos – em prejuízo constante de outros – os negros e indígenas. Esta dinâmica excludente pode ser observada nos indicadores sociais e de saúde”. 

Durante a entrevista à Rádio Brasil Atual, a pesquisadora pontuou o problema de ter como critério a faixa etária no Plano de Imunização. “A população branca tem uma maior longevidade. Sendo assim, há mais idosos brancos que  negros e isso faz com que você tenha uma maior vacinação da população branca. Outro fator [agravante], é o acesso aos serviços de vacinação. As pessoas negras moram, com maior frequência, nas periferias das cidades, onde se têm piores condições de vida e também um pior acesso aos serviços de saúde”. 

A matéria é gravada diretamente dos estúdios da Rádio Brasil Atual, com transmissão via YouTube. Assista abaixo.