Olinda do Carmo Luiz fala como os critérios de vacinação contra a Covid-19 afetam os negros

A população branca tem mais acesso à vacinação drive thru – registro na zona norte do Rio de Janeiro/ Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

A discrepância no processo de imunização entre negros e brancos tem sido pauta na imprensa brasileira. O Jornal Metro e a Rádio Brasil Atual repercutiram a pesquisa exclusiva feita pela Agência Pública sobre o tema e, ambos, conversaram com Olinda do Carmo Luiz, abrasquiana integrante do GT Racismo e Saúde e professora colaboradora da Faculdade de Medicina da USP.

Na reportagem do Jornal Metro “Duas vezes mais brancos do que negros são vacinados contra a Covid-19 no Brasil”,  Olinda falou sobre as diferentes circustâncias capazes de privilegiar a população branca, inclusive, nas questões relacionadas à saúde. “A elaboração e a implantação das políticas sociais, as práticas institucionais e a herança histórica e cultural atuam de forma simultânea e articulada para favorecer um grupo racial – os brancos – em prejuízo constante de outros – os negros e indígenas. Esta dinâmica excludente pode ser observada nos indicadores sociais e de saúde”. 

Durante a entrevista à Rádio Brasil Atual, a pesquisadora pontuou o problema de ter como critério a faixa etária no Plano de Imunização. “A população branca tem uma maior longevidade. Sendo assim, há mais idosos brancos que  negros e isso faz com que você tenha uma maior vacinação da população branca. Outro fator [agravante], é o acesso aos serviços de vacinação. As pessoas negras moram, com maior frequência, nas periferias das cidades, onde se têm piores condições de vida e também um pior acesso aos serviços de saúde”. 

A matéria é gravada diretamente dos estúdios da Rádio Brasil Atual, com transmissão via YouTube. Assista abaixo.

Integrantes do GT Racismo falam à Agência Pública o porquê negros são a minoria entre os vacinados

Vacinação 79 anos ou mais, no Posto Santa Marta, em Porto Alegre (RS). Fotos: Giulian Serafim / PMPA

O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Hilton Silva e a pesquisadora Emanuelle Góes, doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia, ambos membros do GT Racismo e Saúde da Abrasco, avaliaram os dados levantados pelo site da Agência Pública sobre a desigualdade racial na fila de vacinação.

A reportagem divulgou diferentes cenários, mostrando os abismos responsáveis por distanciar negros e brancos na imunização contra a Covid-19. Até o momento, 3,2 milhões dos vacinados são brancos, ante 1,7 milhão de negros. De acordo com os levantamentos feitos pela Pública, 3,66% da população branca receberam a primeira dose da vacina e quando a mesma análise é feita entre a população negra, o percentual de vacinados cai para 1,48%.

Para os especialistas ouvidos pela reportagem, as discrepâncias na vacinação entre brancos e negros têm diversos fatores. “Muitas vezes é uma questão de locomoção. Vai ter a população branca que tem, por exemplo, a possibilidade de pegar o seu carro e ir para um drive thru para ser vacinado, enquanto a pessoa idosa que mora na periferia, que mora no quilombo ou numa área mais remota não tem essa possibilidade porque não tem esse transporte”, afirma o professor. “Você percebe que isso em si já oferece um acesso diferencial em relação à vacinação”, analisa Hilton Silva.

Para Emanuelle Góes, a população negra vai acumulando doenças crônicas em uma situação mais agravada, devido aos contextos sociais de maior dificuldade. “Ela vive a precarização da vida, no acúmulo do racismo, nas suas diversas dimensões na vida das pessoas. Com isso, o envelhecimento também se torna mais negligenciado e é prejudicado por esse acúmulo de desigualdade e do racismo na vida dessas pessoas”, afirma.

Confira a reportagem completa aqui.