Abrasco na imprensa: confira entrevistas do GT Racismo e Saúde

Foto: Júlio César Almeida / Abrasco

“No campo da saúde, o racismo de base institucional aparece situado dialeticamente entre a insuficiência sentida na invisibilidade institucional e o excesso materializado na discriminação racial”: a declaração é de Diana Anunciação, vice-presidente da Abrasco e integrante do GT Racismo e Saúde da entidade, em entrevista ao Brasil de Fato.

A professora do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) concedeu uma entrevista sobre os impactos do racismo na saúde da população brasileira, publicada no início de julho. Ela pontuou que é o racismo deve ser considerado determinante  social de saúde no diagnóstico, tratamento e prognóstico das pessoas – já que é fator adoecedor para a população negra. Leia a matéria completa.

Para a Rádio Brasil de Fato Bahia, a pesquisadora Edna Araújo, também do GT Racismo e Saúde, comentou dados sobre a fome  e a desnutrição  infantil, divulgados pelo  segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Covid-19 no Brasil. 

“É um quadro de perda de peso, aumento da irritabilidade, prejuízo no rendimento escolar, além de déficit no crescimento. Consideramos fome qualquer quadro de insegurança alimentar – significa o  não asseguramento ao direito humano à alimentação”, disse Edna, que é professora da UEFS. Ouça a reportagem. 

Já Hilton Silva, professor da Universidade Federal do Pará e coordenador do GT Racismo e Saúde/Abrasco, contribuiu com o Alma Preta, sobre o agravamento da pandemia de doenças que afetam mais a população negra – como as cardiovasculares.  Hilton destacou que o primeiro passo é encarar o racismo. 

“Vivemos em uma sociedade historicamente racista, que discrimina as pessoas por sua aparência, sua religiosidade, seu modo de falar e de ser e que isso tem repercussões na sua qualidade de vida. O reconhecimento do racismo estrutural, a implementação de políticas públicas antirracistas e a mobilização social contra todas as formas de discriminação são medidas fundamentais para a garantia de saúde para a população”. Leia mais. 

Ao longo do mês de Julho, acontecerá a Mobilização Pró-Saúde da População Negra, em meio às celebrações do Dia da Mulher Negra da América Latina e Caribenha, a ser celebrado em 25 de julho. A Abrasco se soma à agenda política, e promove o Esquenta Abrascão “Saúde da População Negra: Caminhos para o enfrentamento do racismo na Saúde Coletiva“, dia 28. 

Abrasco lança e-book com conjunto de dados e debates sobre a saúde da população negra na pandemia

Para celebrar o 27 de outubro, Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra e dar início às manifestações que vão marcar novembro, o mês da consciência negra, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, por meio de seu Grupo Temático Racismo e Saúde (GT Racismo/Abrasco), apresenta sua mais recente publicação digital: População Negra e Covid-19.

A obra reúne 13 artigos assinados por docentes e pesquisadores de diversas instituições dedicados a vários aspectos da temática da saúde da população negra, integrantes do GT Racismo/Abrasco e parceiros. É também mais um dos resultados do apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA Brasil) à Associação. Iniciado em 2020, este apoio teve como objetivo produzir insumos técnico-científicos a partir de estudos e análises sobre a situação da pandemia da Covid-19 na população negra, além de ampliar o intercâmbio com pesquisadores para a utilização de bancos de dados nacionais.

Os artigos acompanharam a trajetória da pandemia de junho de 2020 a setembro de 2021. Para travar o debate público, fazer a denúncia e dar visibilidade à produção de uma ciência negra, os textos foram inicialmente divulgados em diversos veículos da imprensa brasileira, como O GloboFolha de S. PauloUOLCarta CapitalNexo JornalAlma Preta, e posteriormente republicados no site da Abrasco e UNFPA/Brasil.

“Essas produções, de autoria de vários participantes do GT Racismo e Saúde da Abrasco, têm tido papel crucial na visibilidade do racismo como um dos principais determinantes sociais de iniquidades em saúde que tem levado a população negra brasileira ao maior adoecimento e mortalidade por causas evitáveis como é o caso da Covid-19”, destaca Edna Araújo, uma das autoras, docente da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e que coordenou o projeto juntamente com Luis Eduardo Batista, da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Reunidos, os artigos informam sobre os problemas estruturais da sociedade brasileira, abordando o racismo, a exclusão e a falta de acesso da população negra a serviços básicos, o que a projeta para o topo dos piores índices da pandemia no que tange ao número de vacinados e infectados e, consequentemente, no total de óbitos. Falam também da população negra na perspectiva dos direitos à cidadania, à saúde mental, ao envelhecimento saudável, à representatividade feminina e no combate à violência.

Além de reunir os textos, o e-book é ilustrado por fotografias feitas para a constituição de um inédito banco de imagens sobre saúde da população negra, que retrata diversas nuances do cotidiano da população afrobrasileira no enfrentamento da pandemia, tanto nas grandes metrópoles como nas comunidades quilombolas.

“Este volume, histórico, resulta de um esforço colaborativo entre a Associação e esse importante Fundo da ONU para que possamos avançar no compromisso de discutir a saúde a partir de perspectivas de raça, cor e etnia. Dessa forma, a Abrasco cumpre seu papel de chamar a atenção para a questão da vulnerabilidade de várias populações, sobretudo da população negra, particularmente em relação às políticas públicas de saúde, e para que a população negra possa ter acesso a um conjunto sólido de informações científicas para o seu empoderamento no campo da saúde coletiva”, ressalta Hilton Pereira da Silva, também autor, docente da Universidade Federal do Pará (UFPA) e membro da atual coordenação do GT Racismo/Abrasco.

População Negra e Covid-19

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APRESENTAÇÃO

Marcadores sociais como raça, gênero, território e situação econômica têm impacto direto nos indicadores de infecções, mortes e na vacinação da Covid-19. Com intuito de obter respostas e propor alternativas para o combate mais efetivo da pandemia, levando em consideração os fatores adversos, pesquisadores do Grupo Temático Racismo e Saúde da Abrasco, Associação Brasileira de Saúde Coletiva, têm trabalhado com esta temática.

A produção de conhecimento somado à articulação com instituições estratégicas têm contribuído efetivamente para a elaboração de evidências fundamentais para a execução e monitoramento de políticas públicas de saúde, neste caso, voltadas para a população negra.

Respondendo à necessidade de mudanças mais efetivas nas políticas públicas para mitigar o efeito da pandemia na população negra, em meados de 2020, o GT Racismo e Saúde da Abrasco recebeu apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) para a produção de análises sobre o impacto da Pandemia Covid-19 na população negra. Verificou-se que problemas estruturais da sociedade brasileira, como o racismo, a exclusão e falta de acesso aos serviços básicos projetam a população negra para o topo dos piores índices da pandemia no que tange ao número de vacinados e infectados, e, consequentemente, no total de óbitos.

Este livro reúne 13 artigos com as análises feitas pelos integrantes do GT Racismo e Saúde da Abrasco sob a perspectiva racial, publicados na imprensa entre meados de 2020 até outubro de 2021.

Integrantes do GT Racismo falam à Agência Pública o porquê negros são a minoria entre os vacinados

Vacinação 79 anos ou mais, no Posto Santa Marta, em Porto Alegre (RS). Fotos: Giulian Serafim / PMPA

O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Hilton Silva e a pesquisadora Emanuelle Góes, doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia, ambos membros do GT Racismo e Saúde da Abrasco, avaliaram os dados levantados pelo site da Agência Pública sobre a desigualdade racial na fila de vacinação.

A reportagem divulgou diferentes cenários, mostrando os abismos responsáveis por distanciar negros e brancos na imunização contra a Covid-19. Até o momento, 3,2 milhões dos vacinados são brancos, ante 1,7 milhão de negros. De acordo com os levantamentos feitos pela Pública, 3,66% da população branca receberam a primeira dose da vacina e quando a mesma análise é feita entre a população negra, o percentual de vacinados cai para 1,48%.

Para os especialistas ouvidos pela reportagem, as discrepâncias na vacinação entre brancos e negros têm diversos fatores. “Muitas vezes é uma questão de locomoção. Vai ter a população branca que tem, por exemplo, a possibilidade de pegar o seu carro e ir para um drive thru para ser vacinado, enquanto a pessoa idosa que mora na periferia, que mora no quilombo ou numa área mais remota não tem essa possibilidade porque não tem esse transporte”, afirma o professor. “Você percebe que isso em si já oferece um acesso diferencial em relação à vacinação”, analisa Hilton Silva.

Para Emanuelle Góes, a população negra vai acumulando doenças crônicas em uma situação mais agravada, devido aos contextos sociais de maior dificuldade. “Ela vive a precarização da vida, no acúmulo do racismo, nas suas diversas dimensões na vida das pessoas. Com isso, o envelhecimento também se torna mais negligenciado e é prejudicado por esse acúmulo de desigualdade e do racismo na vida dessas pessoas”, afirma.

Confira a reportagem completa aqui.

Programa de vacinação contra a Covid-19 mais justo depende da avaliação socioterritorial

Programa de Vacinação em comunidade quilombola no Vale do Ribeira, em São Paulo/ Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Membro do GT Racismo e Saúde, Hilton P. Silva, foi entrevistado pelo projeto Educação e Território, ligado ao portal Cidade Escola Aprendiz, sobre a importância da avaliação das desigualdades socioterritoriais para um programa de vacinação contra a Covid-19 mais justo e inclusivo.

A reportagem Vacinação no Brasil deve considerar desigualdades socioterritoriais, publicada no último dia 4 de março, mostra como o Brasil, considerado referência no Programa Nacional de Imunização (PNI), tem patinado na imunização contra a Covid-19 e colocado, ainda mais, em risco as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade social, incluindo quilombolas e indígenas.

“Estas populações têm dificuldade de acesso a serviço à saúde, infraestrutura e educação, e isso faz com que tenham maior taxa de mortalidade e doenças crônicas. Quando chega a pandemia, isso vem se somar a esses fatores e elas não têm tanto acesso à álcool em gel, máscaras, água potável”, disse Hilton, docente da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Confira a matéria completa aqui.

Epidemia de notícias falsas atrapalha a imunização em comunidades quilombolas- Artigo de Hilton P. Silva e Edna Araújo

Vacinação contra a covid-19 em Eldorado, São Paulo – Foto: Dvulgação / Gov. de São Paulo

Desde que foi iniciada a Campanha Nacional de Vacinação contra a Covid-19 têm surgido várias notícias de pessoas que se recusam a aceitar a imunização. No caso das comunidades quilombolas, como o país não tem dados adequados sobre elas, a maioria dos municípios aceitou adotar listagens submetidas pelas associações comunitárias para estimar a quantidade de vacinas necessárias para essa parcela da população. Durante esse processo de cadastramento, voluntários das associações têm ido de casa em casa fazer o trabalho que seria obrigação do Estado. No entanto, eles têm se deparado com um fato inesperado: um elevado número de pessoas simplesmente se recusa a dar as informações para serem vacinadas. O mesmo tem acontecido em muitas áreas indígenas pelo país.

No momento que surgem novas variantes do vírus, com explosão de mortalidade diária e serviços de saúde em colapso, além de sérios impactos das medidas de isolamento na segurança alimentar e nutricional dos grupos rurais, essa recusa é bastante grave. Não se espera que qualquer pessoa se negue a colocar o nome na lista.

Nos quilombos, nas aldeias ou nas cidades, as alegações são diversas e bem chocantes. Vão desde o questionamento sobre a eficácia da vacina; histórias sobre morte de idosos; alterações genéticas e a possibilidade de causar câncer. Há quem diga que a vacina vai injetar um chip para controlar você. Todas são falsas. Afinal, as vacinas passam por uma série de testes e um rigoroso controle de qualidade antes de serem aprovadas pelo orgão de saúde regulador.

Infelizmente, outras mentiras deverão continuar a aparecer. A epidemia de fake news é atualmente um dos principais inimigos da saúde no Brasil. As políticas sanitárias são fundamentais para o bem-estar de todos e fatos sobre saúde não devem ser confundidos por ideologias políticas e mitos. A imunização já salvou milhões de vidas pelo mundo.

É responsabilidade de cada um não passar adiante mensagens erradas ou sensacionalistas. O conhecimento é o melhor tratamento contra as notícias falsas. Não se deixe enganar, vacinas são uma benção divina, e devem estar disponíveis para todos. Procure os profissionais de saúde e as fontes oficiais para ter as informações corretas, e proteger a você e aqueles que você ama.
Diga SIM para a vida, vacinando-se quando chegar a sua vez.

* Hilton P. Silva é membro do GT Racismo/Abrasco e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

** Edna M. Araújo é coordenadora do GT Racismo/Abrasco, integrante do Conselho Deliberativo da Associação e professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Como cumprir o Plano de Vacinação entre as comunidades quilombolas?– Artigo de Hilton P. Silva

Este artigo é uma produção do GT Racismo/Abrasco com apoio institucional do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA)

Não se sabe exatamente quantas comunidades quilombolas existem no Brasil. Em 2019, o IBGE havia identificado 5.972 grupamentos. Segundo o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19 do Ministério da Saúde, essas populações têm elevada vulnerabilidade social, logo, são prioritárias para imunização. Com a chegada das vacinas, haverá necessidade de planejar as formas de abordar esse grupo para garantir o acesso e a eficácia da campanha.
É fundamental que os municípios se preparem, reconhecendo quantas comunidades existem em seu território e qual a população total sujeita à vacinação. Além disso, é papel da Secretaria Municipal de Saúde coordenar com as associações representativas dos quilombos para identificar as condições de acesso, a fim de planejar os modos de transporte, quantidade de insumos, equipamentos, combustível e equipes necessárias para a ação. As turmas novas devem ser imediatamente sensibilizadas, seguindo as diretrizes da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Para o adequado cumprimento de sua missão, as equipes de saúde devem ser preferencialmente das próprias comunidades, ou serem os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e outros profissionais já familiarizados com a população local. E, claro, com pleno acesso aos equipamentos de proteção individuais (EPIs).
Já o acesso aos territórios e a abordagem da população precisam ser feitos com o apoio das lideranças e/ou organizações locais, responsáveis também por indicar os espaços destinados à vacinação, cabendo aos técnicos a avaliação de possíveis adaptações a serem executadas pelo município.
Como o isolamento geográfico dos territórios pode dificultar o retorno no prazo adequado, será preciso planejar para que todos os grupos sejam vacinados em cada visita, bem como a logística para a volta a todas as comunidades para aplicação da segunda dose. Em virtude da precariedade das condições sócio-sanitárias da maioria dos quilombos, a prefeitura deve garantir a entrega de materiais de higiene e máscaras para todos os moradores, em ambas as etapas de imunização, reduzindo assim, o risco de contaminação.
Dada a situação de vulnerabilidade das pessoas, é fundamental que a vacinação seja organizada de forma a evitar aglomerações. Como podem ocorrer efeitos colaterais, recomenda-se que a equipe permaneça no local de 12 a 24 horas, para acompanhar eventuais intercorrências.
Em tempos de grande circulação de notícias falsas, o sucesso do Plano Municipal de Vacinação dependerá também da sua divulgação, com uma ampla campanha informando datas, locais e público-alvo para evitar que outros se dirijam aos postos quilombolas, causando aglomeração e potencial infiltração da doença.
Como as duas vacinas foram aprovadas para uso emergencial, é preciso fazer um cuidadoso acompanhamento individual, uma vez que podem ocorrer eventos adversos pós-vacinação (EAPV) em dias subsequentes, e que todos devem receber a segunda dose. O Ministério da Saúde desenvolveu um software com esse propósito (aplicativo Conecte-SUS), mas este está ainda em fase de implantação. Então, talvez seja necessário planejar alternativas localmente.
Finalmente, considerando o racismo estrutural vivido pelas comunidades tradicionais, e com a finalidade de garantir a democracia do acesso, a imunização não deve ser condicionada a apresentação de qualquer tipo de documento ou cadastro prévio, e tampouco ser solicitado a assinatura de termo de consentimento para o usuário. Porém, cada um deverá receber um comprovante de imunização e ser informado para trazê-lo ao voltar para a dose complementar.

Hilton P. Silva, é membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco e Prof. Dr. da Universidade Federal do Pará (UFPA).

População idosa negra e covid-19: por que invisibilizar e negar direitos? – Artigo de Alexandre da Silva

Este artigo é uma produção do GT Racismo/Abrasco com apoio institucional do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA)

Um dos mais preocupantes movimentos políticos observados nesses últimos meses, e muito acentuado com a chegada da pandemia da covid-19, foi o aumento da invisibilidade de diversos grupos sociais. Essa invisibilidade retira os direitos à cidadania plena e coloca essas pessoas, muitas vezes, sem o direito de viver, de respirar.

O Boletim nº 10 – Direitos na Pandemia, recentemente lançado, comprova isso. Segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra por Domicílios), a população negra brasileira já é, ou está muito próxima de ser, a maioria na faixa etária acima dos 60 anos.

Dos 32 milhões de idosos do país estimados em 2018, 48% (quase 15,5 milhões) compõem a população negra, sendo 8,8% (quase 3 milhões) de pessoas idosas pretas, e 39,2% (um pouco mais de 12,5 milhões) de pessoas idosas pardas.

O inquérito “Idosos do Brasil II”, publicado pelo Sesc (Serviço Social do Comércio) e Fundação Perseu Abramo, em agosto de 2020, corrobora: o número de idosas e idosos negros já ultrapassa o percentual de 50% da população de velhos e velhas.

O índice de envelhecimento brasileiro, que é a proporção entre pessoas com 60 anos ou mais e jovens de até 15 anos, vem mudando a cada ano, mostrando um Brasil que envelhece, mas ainda de forma muito desigual em todo o território nacional.

Pessoas negras e brancas têm participações diferentes nessa mudança demográfica e desafios particulares presentes como manter-se ativo num país cada dia mais conectado à internet ou como obter os alimentos cada vez mais caros da cesta básica, como arroz e feijão.

Enquanto isso, outros problemas sociais e históricos vão se acumulando na vida de muitas pessoas idosas. Mulheres negras continuam preteridas nos relacionamentos conjugais, trabalhando mais na informalidade; o genocídio de jovens negros não para de aumentar —o que só reduz as chances de redes de apoio àqueles que sobrevivem e envelhecem. Idade, cor da pele, gênero, deficiência e tipo de moradia não deveriam ser critérios de maior ou menor possibilidade para envelhecer bem. Dados publicados em 2017 e 2019, a partir do estudo populacional Saúde, Bem Estar e Envelhecimento (SABE) com idosos e idosas do município de São Paulo, mostraram que a população idosa negra sofre com as discriminações decorrentes do racismo e do etarismo, dificultando as condições de vida e de saúde.

Têm mais dificuldade para um diagnóstico precoce e tratamento completo e, mesmo com comorbidades e incapacidades funcionais presentes, ainda precisam trabalhar. O cenário se reflete nos grupos específicos de pessoas idosas negras colocadas em maior situação de vulnerabilidade durante a pandemia de covid-19: cuidadoras informais, domésticas, em situação de rua, privadas de liberdade, quilombolas, residentes de favelas e cortiços, sozinhas e institucionalizadas. São essas pessoas que não puderam exercer o mesmo direito de pessoas idosas brancas de respirar sem o risco aumentado de morrer.

Boa parte dos gestores municipais e estaduais não divulgam seus boletins epidemiológicos apresentando como e quanto de idosos e idosas negras adoecem e morrem pela covid-19. Trata-se de uma determinação social de vida que sempre gerou maior vulnerabilização. As crises sanitária, política, econômica e os conflitos raciais somaram-se ao caos que a pandemia trouxe e que se traduz em adoecimento físico ou mental e mais mortes por causas naturais.

Quando a morte no grupo de pessoas negras é maior do que outros grupos étnicos ou raciais, a pergunta que se coloca é o quanto dessas mortes a mais, desiguais e injustas não põe ainda mais em xeque a possibilidade de envelhecer, e de envelhecer bem, seguindo os princípios da Política para um Envelhecimento Ativo?

Diante desse cenário, é importante questionar o Estado e responsabilizá-lo. Como, em tempos de pandemia, um grupo tão representativo e dos mais acometido pelos fatores de risco para adoecimento e mortalidade por covid-19: velho, de pele escura e com comorbidades associadas continua invisibilizado?

Não caberia maior cuidado, por meio de ações das equipes da Atenção Primária de Saúde, como monitoramento das pessoas negras velhas?

Está no momento de revertermos os determinantes socioeconômicos, ambientais e culturais que, até os dias de hoje, restringem qual grupo social envelhecerá naturalmente, sem grandes e injustos estresses financeiros e sociais para sobrevivência.

Pessoas negras que com mais de 60 anos trazem contribuições sem fim para suas famílias, comunidades, para a sociedade, e ainda não tiveram o devido reconhecimento de sua importância e contribuição para formação deste país.


Caberia ao Estado a proposição de ações e programas urgentes para a proteção das vidas de pessoas idosas negras.

São elas que remetem a uma ancestralidade que nós, enquanto sociedade, estamos deixando de valorizar, de enaltecer e de reconhecer. São essas mesmas pessoas idosas, negras, brancas, amarelas ou indígenas, que originaram nossas raízes e, culturalmente ou geneticamente, nos constituem como pessoa.

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco

Artigo publicado originalmente no canal Viva Bem no site Uol em 01 de fevereiro de 2021

A saúde mental da população negra importa! Por que ainda precisamos afirmar? – Artigo de Emiliano de Camargo David

*Este artigo é uma produção do GT Racismo e Saúde da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) em parceria com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA)

Dados do Ministério da Saúde mostram maior número de suicídio entre adolescentes negros e mais mortes por consumo abusivo de álcool entre pessoas negras.

Aproximadamente 1 bilhão de pessoas foram diagnosticadas e convivem com algum transtorno mental no mundo. Três milhões de pessoas têm como causa morte o uso abusivo de álcool e a cada 40 segundos alguma pessoa é vítima de suicídio. Segundo a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde), no Brasil o campo da saúde mental é o mais desinvestido no âmbito da saúde pública.

Essa realidade, quando analisada à luz do marcador social raça/cor, revela que a saúde mental da população negra é pauta de primeira ordem. Segundo dados do Ministério da Saúde de 2012, na comparação das taxas de mortalidade (por 100.000 habitantes) devido ao uso de álcool, o percentual de pretos é de 5,93 e o de pardos 3,89, enquanto, o percentual de brancos é de 2,69 e o de amarelos, 0,86. Quando o tema é a taxa de mortalidade por suicídio em jovens, a situação se agrava: em 2016, a cada 10 suicídios em adolescentes, 6 ocorreram entre negros.

Historicamente, a população negra foi vitimada pela lógica eugenista e manicomial. A primeira delas tentou justificar, ancorada em pseudociência, a inferioridade de negros e negras; a segunda, por sua vez, promoveu não apenas a manicomialização deles em hospitais psiquiátrico (grande parte destes sem demandas e/ou diagnósticos que justificassem algum tratamento), mas, acima de tudo, a vinculação da população negra e seus costumes à loucura e periculosidade.

Em resposta a esse contexto racista, realizou-se entre agosto e setembro a campanha: Saúde Mental da População Negra Importa!, promovida pela Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) – ANPSINEP. A campanha ganhou as redes sociais e contou com o apoio de 260 instituições, entre elas universidades públicas e privadas; entidades de distintos movimentos sociais; programas de pós-graduados; conselhos de classe; sindicatos; serviços de saúde pública; organizações culturais e religiosas; coletivos independentes, entre outras. Durante os 30 dias, em meio à pandemia do novo coronavírus, seminários, debates e manifestos ganharam a cena virtual, chamando a atenção para uma temática pouco debatida dentro e fora do campo da saúde.

À vista disso, focalizar a saúde mental, em meio à pandemia no país com a maior quantidade de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas fora do continente africano, exige a compreensão do que o psiquiatra Frantz Fanon apontou e o filósofo Achille Mbembe assevera: a colonialidade propõe uma dinâmica psicológica de morte em vida, na qual a vida estaria submetida ao poder da morte.

Essa dinâmica genocida está em curso no Brasil virulento, pois a população negra, além de sofrer com os maiores índices de morte por covid-19, é o grupo racial com maior exposição às formas de contágio, devido ao acesso precário a saneamento básico; trabalhadores(as) uberizados, moradias precárias, dificultadores de distanciamento social, entre outros. Tudo isso tem interferência direta na saúde mental dessa população, provocando medo, ansiedade, desânimo, exigindo processos de luto, entre outros efeitos/demandas psicossociais.

A intersecção de raça, gênero e classe colabora com essa realidade, mas, não podemos deixar de apontar o racismo estrutural como pedra angular dessa lógica. Nessa esteira, compreendemos que a discussão de saúde mental da população negra deve acontecer no âmbito da atenção psicossocial, pois, apenas assim, compreenderemos os fenômenos apontados acima no bojo dos Determinantes Sociais de Saúde, o que permite a criação e fortalecimento de políticas públicas de saúde/saúde mental que interfiram nessa dinâmica racista de manicomialização e morte.

Para que possamos alcançar equidade racial no cuidado em saúde mental, é necessário o fortalecimento das bandeiras do movimento de Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica brasileira.

Afinal, a covid-19 escancara a necessidade de estratégias em saúde/saúde mental que visem à redução de danos como abordagem e estratégia de cuidado clínico, bem como, a importância do cuidado em liberdade. Para isso, os ensinamentos afrodiaspóricos necessitam de maior espaço neste campo de luta e cuidado. Sendo assim, ainda continuaremos a exclamar: a saúde mental da população negra importa!

Artigo publicado originalmente no site Huffpost Brasil

Emiliano de Camargo David – Psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia Social (PUC-SP). Professor do Instituto SEDES Sapientiae (curso de Especialização “Saúde Mental e Reforma Psiquiátrica: Clínica e Política na Transformação das Práticas”). Membro do GT Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO). Integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas Lógicas Institucionais e Coletivas (NUPLIC – PUC SP).

Estudo sobre impactos da Covid-19 na população negra ganha relevância internacional

Edna Araújo, coordenadora do GT Racismo e Saúde e Diretora da Abrasco, durante a Assembleia Geral, durante o 8º CBCSHS, em João Pessoa, 2019 – Foto: Abrasco

“Para a população negra, a pandemia da Covid-19 atualiza os problemas do passado, cujo centro é o racismo em suas diferentes dimensões”. É por este olhar que a abrasquiana Edna Araújo, professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e integrante do Conselho Deliberativo da Associação, vem abordando os estudos que relacionam a questão de raça/cor com dados secundários colhidos junto aos boletins epidemiológicos publicados pelo Ministério da Saúde de janeiro a junho, mais os dados parciais da pesquisa PNAD-Covid-19, do IBGE.

O conjunto de estudos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa liderado por Edna e com parceria de diversos pesquisadores de outras instituições integrantes do Grupo Temático Racismo e Saúde (GT Racismo/Abrasco) tem alcançado grande visibilidade nacional e internacional. O primeiro levantamento serviu de base para um artigo já publicado no Brasil e também nos EUA, em parceria com a professora Kia Lilly Caldwell, da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, para descrever a experiência de ambos os países em relação aos dados de mortalidade de acordo com a raça, cor e etnia, e alimentou parte do Dossiê especial publicado na Revista de Altos Estudos da USP. Novas publicações já estão no prelo.

Além de atualizar as feridas do racismo enfrentadas ao longo da história, Edna chama atenção para o fato da precariedade desse registro da raça, cor, etnia nos sistemas e relatórios de informação em saúde. “Esta falta de dados representa não só um grande problema à implementação de políticas públicas de saúde, como também caracteriza a baixa adesão à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra no território brasileiro. Queremos, através destes artigos, dar visibilidade ao fato de que os dados da Covid-19 referentes às populações negras e indígenas estão sendo divulgados pelas autoridades de saúde brasileira e estadunidense de forma incompleta e subnotificada e, mesmo assim, estas populações aparecem como as mais afetadas por esta pandemia”, explicou. Leia a matéria completa no site da Fabesp.