Abrasco e Cebrap celebram acordo para realizar estudos sobre os impactos da Covid-19 na saúde da população negra

Foto: Brasil de Fato – Fotos Públicas

Produzir pesquisas e estudos sobre os impactos que a pandemia da Covid-19 gera na saúde da população negra brasileira e disseminar o conhecimento resultante desse trabalho. Esse é o conteúdo central do acordo de cooperação mútua assinado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e que relaciona diretamente o Grupo Temático Racismo e Saúde da Abrasco e o AFRO – Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial (“Afro”) do Cebrap.

Segundo Luís Eduardo Batista, coordenador do GT Racismo e Saúde da Abrasco, “a cooperação entre as duas instituições fortalece a análise sobre a questão racial na pandemia e também a produção de ações, pois potencializa o que já vem sendo feito pelo GT Racismo e pelo Arfro no Cebrap”. Além disso, o professor destaca que, em um momento em que os recursos para pesquisas têm sido cada vez mais escassos, a atuação conjunto de dois grupos potencializa o trabalho.

Dentre as ações previstas no projeto, estão a produção de informativos, organização de seminários, workshops e outros eventos acadêmicos. A participação colaborativa em fóruns acadêmicos e em associações científicas nacionais e internacionais, com apresentação de resultados de pesquisas e o intercâmbio de pesquisadores do Cebrap e da Abrasco também estão indicadas dentro do projeto.

E para ampliar a divulgação e comunicar ao público sobre o conhecimento produzido, estão previstas entrevistas com pesquisadores da Abrasco e textos a respeito das temáticas para disseminação em mídias parceiras do Afro, incluindo a plataforma Nexo Políticas Públicas.

“Uma forma de entender o racismo é pela omissão de dados, e o quesito raça e cor é um deles”, Alexandre da Silva no podcast da UNFPA

O professor e pesquisador Alexandre da Silva, membro do grupo Racismo e Saúde da Abrasco, participou do podcast “Fala UNFPA” do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), que debateu os impactos do racismo e da discriminação na saúde, abordando também os efeitos da COVID-19 entre a população negra. Neste episódio, Alexandre apontou que o racismo faz com que a população negra fique sob maior risco de adoecimento e de morte durante a pandemia no Brasil, e que é preciso fazer um enfrentamento completo e intersetorial. Segundo ele, “enfrentamos hoje um maior risco de óbito para pessoas negras e pardas”, o que impõe a necessidade de se fazer essa segmentação dos casos.

Além da participação de Alexandre, o podcast traz o depoimento de uma ativista do movimento negro de Salvador (BA), a designer gráfica Josy Azeviche, que relata uma experiência constrangedora sofrida no sistema de saúde enquanto buscava um atendimento em saúde reprodutiva. A representante auxiliar do UNFPA, Junia Quiroga, também participa explicando por que enfrentar a discriminação e a desigualdade são importantes para o UNFPA e para as Nações Unidas.

O “Fala, UNFPA” traz, quinzenalmente, informações, dados e conversas saúde sexual e reprodutiva, equidade de gênero, raça e etnia, população e desenvolvimento, juventude, cooperação entre países do hemisfério sul e assistência humanitária.

Parceria do GT Racismo e Saúde com UNFPA Brasil analisa impactos do racismo na pandemia – Entrevista com Luis Eduardo Batista

O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA Brasil) e o Grupo Temático Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) firmara uma parceria que visa publicar uma série de análises e propostas sobre os impactos do racismo na saúde e seus desdobramentos na pandemia de Covid-19. Para saber um pouco mais dessa parceria, entrevistamos o coordenador do GT racismo e Saúde da Abrasco, Luis Eduardo Batista, que destacou que o projeto “vem no sentido não só de denunciar, mas também de traçar algumas recomendações para os gestores públicos”.

Em painel realizado na semana passada, a oficial de Programa para Gênero, Raça e Etnia e Comunicação do UNFPA Brasil, Rachel Quintiliano, destacou que a parceria é uma oportunidade para a agência da ONU seguir o seu compromisso em discutir sobre saúde a partir da perspectiva de raça, cor e etnia. O primeiro texto do projeto já foi publicado com a nota técnica da coordenadora do GT Racismo, Edna Araújo, junnto com a professora norte-americana Kia Caldwell.

Confira a entrevista com Luis Eduardo Batista e saiba mais sobre o projeto.

O GT Racismo e Saúde fez uma parceria com a UFNPA para abordagem dostemas relacionados aos impactos do racismo na saúde. Qual a importância desta parceria neste momento?

O GT Racismo e Saúde da Abrasco fez uma parceria com o Fundo de População das Nações Unidas no Brasil para produzir textos sobre o impacto da Covid-19 na população negra. A ideia é que nós produzamos artigos e notas sobre vários temas dialogando sempre com a pandemia de Covid-19. Por exemplo, a questão do racismo estrutural e o impacto na pandemia; os sistemas de informação e como eles estão nessa etapa da Covid-19; a questão dos idosos; a questão da saúde sexual e reprodutiva; a saúde mental. Enfim, esses temas que estão diretamente relacionados ao momento de pandemia que estamos vivendo.

A pandemia de Covid-19 escancarou todas as desigualdades de nossa sociedade. Diante deste cenário, qual a importância de uma pesquisa sistematizar a situação a partir de uma abordagem da saúde que destaque a perspectiva de raça, cor e etnia?

Luis Eduardo Batista: A pandemia escancarou nossas desigualdades e os problemas estruturais que temos em nossa sociedade. Então, nesse contexto, nós que trabalhamos especialmente com grupos populacionais como a população de rua, ribeirinha, quilombola, indígena, população privada de liberdade… Ela (a pandemia) faz com que a gente mude a abordagem. Antes, era um trabalho de denúncia. Agora, essas denúncias estão vindo à tona e as pessoas estão pensando que foi a Covid-19 que causou tudo isso. Mas não é. São questões da estrutura da sociedade brasileira. A gente vem, nas diferentes áreas, produzindo textos, produzindo análises sobre o diálogo do perfil social com a questão epidemiológica e os impactos para esses grupos populacionais. Mas agora, a gente tem que, no contexto da pandemia, trazer este arsenal teórico, metodológico que a gente tem para dizer “olha, isso não é uma questão de agora!”. A nossa sociedade ao fazer algumas escolhas, acabou impactando mais nessa população. A gente precisa pensar diferente. Pensar se a gente quer salvar vidas. No entanto, o que a gente tem visto é uma não ação do Estado brasileiro com relação a essas populações. E o que acontece? Elas são penalizadas mais uma vez. Aí, parece que a gente continua denunciando, mas nós temos estudos mais robustos sobre essa discussão. Assim, a parceria com o UNFPA vem no sentido não só de denunciar, mas também de traçar algumas recomendações para os gestores públicos, os movimentos sociais, os movimentos da sociedade, para que possam se organizar.

Estamos vivendo uma conjuntura em que o movimento antirracista ganhou força em diversos lugares do mundo. Ao mesmo tempo, por aqui, há um grande desinvestimento em ciência.Como você avalia essa parceria e o fortalecimento da pesquisa neste momento?

Luis Eduardo Batista: Nós estamos em um momento muito difícil para a pesquisa no Brasil. Nós temos pouco financiamento para pesquisa, bolsas sendo cortadas, as universidades sendo desestruturadas junto com nosso parque científico e tecnológico. Então, dificulta muito para nós, que temos atuado produzindo conhecimento e pesquisa, a subsidiar a sociedade e os gestores nas diferentes dimensões. Então, neste momento, ter apoio do UNFPA para produzir pesquisa e análise ajuda muito e dá fôlego ao GT Racismo e Saúde da Abrasco.

Você poderia falar sobre a importância dos pesquisadores e pesquisadoras negras na formação dessa pesquisa e do conhecimento para a melhoria da saúde da população negra?

Luis Eduardo Batista: Eu gostaria de destacar a capacidade técnica e científica dos pesquisadores e das pesquisadoras que estão envolvidas no GT Racismo e Saúde. Para além de serem diferentes perfis de formação, diferentes perspectivas, com alguns mais ligados à política e planejamento, outros às ciências sociais, outros à epidemiologia, ou seja, os campos da saúde coletiva, são pesquisadores e pesquisadoras que conseguem transitar entre essas áreas discutindo temas fundamentais. Se você tem, por exemplo, um epidemiologista debatendo o cuidado com o idoso, pensando e recomendando ações para os gestores públicos com relação à saúde do idoso nesse contexto da pandemia, pensando para os idosos quilombolas e fazendo vídeos para eles. Você tem outros pesquisadores pensando em comunidades rurais, ribeirinhas e assentamentos, olhando na perspectiva do diálogo do Sistema Única de Saúde (SUS) com o Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Enfim, é um grupo muito rico e muito potente.

Por que a COVID-19 é mais mortal para a população negra? – Artigo de Edna Araújo e Kia Caldwell

O Brasil e os Estados Unidos têm muito em comum quando se trata do coronavírus. Ambos estão entre os países mais atingidos do mundo, onde centenas morrem diariamente. O poder público máximo dos dois países possui opiniões semelhantes sobre a forma de lidar com a pandemia e têm sido criticados por isso. E em ambos os países o vírus está afetando desproporcionalmente os negros, resultado do racismo estrutural que remonta à escravidão.

Desigualdades raciais

O Brasil moderno nunca legalizou a discriminação racial como as leis Jim Crow nos Estados Unidos, mas as desigualdades raciais estão profundamente arraigadas. Apesar do persistente mito do Brasil como uma integrada “democracia racial”, a discriminação no mercado de trabalho caracterizada por menores salários para brasileiros pretos e pardos mesmo quando eles têm a mesma formação educacional de brasileiros brancos, assim como . segregação residencial , que determina que as pessoas negras, em sua maioria, residam nas periferias ou em favelas por conta da sua classe social, limitam as oportunidades para esta população.

Esses e outros fatores se traduzem em menor expectativa de vida, educação e condições de vida para a população negra. Os brasileiros negros vivem, em média, 73 anos – três anos a menos que os brasileiros brancos, de acordo com a Pesquisa Nacional de Domicílios de 2017. Os EUA têm uma diferença de expectativa de vida entre as raças, bem similar.

Como os dados no Brasil não são coletados sistematicamente por raça/cor ou etnia, nem mesmo em nível da Atenção Básica à Saúde que possibilita a resolução de grande parte das necessidades de saúde da população brasileira, os impactos do racismo na saúde podem ser difíceis de ser mensurados.

O governo federal do Brasil não exigiu a coleta de dados raciais para os casos de COVID-19 até a segunda semana de abril, e somente o fez após pressão de movimentos negros, entidades de classe e associação cientifica. Todavia, os dados que têm sido divulgados não têm qualidade que permita a realização de análises robustas que desvelem as iniquidades raciais em saúde.

Independentemente disso, em abril o Ministério da Saúde já havia apontado altas taxas de mortalidade por COVID-19 entre os negros, uma categoria que inclui pessoas que se identificam como “pretas” e “pardas” no censo demográfico. As autoridades do município de São Paulo também anunciaram que as taxas de mortalidade entre os pacientes com COVID-19 eram mais altas entre os negros. Dados coletados no mês de maio por pesquisadores independentes para mais de 5.500 municípios mostram que 55% dos pacientes negros, hospitalizados com COVID-19 em estado grave, morreram em comparação com 34% dos pacientes brancos.

Racismo e Saúde

Por mais de uma década, ativistas negras (os) e pesquisadores em saúde pública vêm apontando que o racismo institucional cria piores resultados para a saúde da população negra brasileira. A população negra experimenta taxas mais altas de doenças crônicas como diabetes, pressão alta, problemas respiratórios e renais devido à insegurança alimentar, acesso inadequado a medicamentos e prescrições.

O próprio racismo também causa um forte impacto físico sobre os negros. Estudos nos Estados Unidos demonstram que as experiências diárias de racismo e discriminação podem levar a índices perigosamente altos de hormônios do estresse e diminuir a capacidade do corpo de combater doenças, e consequentemente, a infecção pelo coronavírus.

Ao contrário dos EUA, o Brasil possui assistência médica gratuita e universal através do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas, infelizmente, a precarização e subfinanciamento desse sistema tem colocado em risco principalmente as populações vulnerabilizadas que mais utilizam o SUS. Atualmente, os leitos de terapia intensiva para atender os casos de coronavírus são escassos nos hospitais públicos de várias cidades. Isto é especialmente prejudicial para os pacientes negros com COVID-19, já que estes dependem mais do sistema público de saúde do que os brasileiros brancos, que geralmente têm seguro de saúde privado por meio de seus empregos.

Pobreza e exposição

A desigualdade econômica extrema é outro fator crítico que interfere na saúde geral da população negra. Com os 10% da população mais rica do Brasil concentrando 55% do total da renda do país, o Brasil fica atrás apenas do Catar na desigualdade de renda, de acordo com um relatório de 2019 das Nações Unidas.

A diferença salarial racial no Brasil realmente supera a diferença salarial de gênero: as mulheres brancas ganham 74% a mais do que os homens negros.

De um modo geral, quanto maior o salário oferecido por uma empresa, menor a probabilidade de uma pessoa negra conseguir esse emprego. Muitos negros trabalham nos setores informais e de serviços, vendedores ambulantes ou faxineiros. Outros são trabalhadores independentes ou desempregados.

Durante uma pandemia, essa insegurança econômica diminui drasticamente a capacidade dos negros se distanciar socialmente e os torna altamente dependentes de permanecer em seus empregos, apesar da ameaça à saúde. Empregadas domésticas, por exemplo – a maioria delas são mulheres negras – estão se mostrando um grupo de alto risco. Aliás, uma trabalhadora doméstica estava entre as primeiras mortes de COVID-19 no Brasil.

Os riscos nos locais de moradia

O surto de coronavírus no Brasil se originou em bairros ricos cujos moradores haviam viajado para a Europa, mas a doença agora está se espalhando mais rapidamente para bairros pobres das periferias urbanas, densos e há muito negligenciados pelo Estado.

Pouco mais de 12 milhões de brasileiros, a maioria negros, vivem em assentamentos urbanos anormais, das favelas do Rio de Janeiro às “periferias” de São Paulo. Essas áreas têm acesso inadequado à água e ao saneamento, dificultando o cumprimento das recomendações básicas de higiene, como lavar as mãos com sabão.

Portanto, embora o impacto desigual da COVID-19 na população negra não tenha sido inevitável, ele não é surpreendente. O racismo que permeia quase todas as facetas da sociedade brasileira aumenta a exposição das pessoas negras ao vírus – depois reduz sua capacidade de obter atendimento de qualidade para mitigar os efeitos das formas graves da doença e até mesmo evitar a morte.

Edna Maria de Araujo – Docente permanente do Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana-Bahia. Membro do Grupo Temático Racismo e Saúde da ABRASCO-Brasil


Kia Lilly Caldwell – Professora do Departamento de Estudos Africanos, Afro-Americanos e Diáspora da Universidade da Carolina do Norte-EUA

O Grupo Temático Racismo e Saúde da ABRASCO tem apoio institucional do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA)

Referências:

  1. https://www.nytimes.com/interactive/2020/world/americas/brazil-coronavirus-cases.html
  2. https://www.vox.com/policy-and-politics/2020/3/14/21177509/coronavirus-trump-covid-19-pandemic-response
  3. https://theconversation.com/brazil-jair-bolsonaros-strategy-of-chaos-hinders-coronavirus-response-136590
  4. https://www.americanprogress.org/issues/race/news/2020/03/27/482337/coronavirus-compounds-inequality-endangers-communities-color/
  5. https://www.bbc.com/news/world-latin-america-30413525
  6. https://theconversation.com/assassination-in-brazil-unmasks-the-deadly-racism-of-a-country-that-would-rather-ignore-it-94389
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3863696/
  8. https://www.nexojornal.com.br/grafico/2019/06/10/A-expectativa-de-vida-no-Brasil-por-g%C3%AAnero-ra%C3%A7a-ou-cor-e-estado
  9. CDC (Centers for Disease Control and Prevention), Life expectancy at birth, at age 65, and at age 75, by sex, race, and Hispanic origin: United States, selected years 1900–2016 https://www.cdc.gov/nchs/data/hus/2017/015.pdf
  10. CDC (Centers for Disease Control and Prevention), Life expectancy at birth, at age 65, and at age 75, by sex, race, and Hispanic origin: United States, selected years 1900–2016 https://www.cdc.gov/nchs/data/hus/2017/015.pdf
  11. https://www.nexojornal.com.br/grafico/2019/06/10/A-expectativa-de-vida-no-Brasil-por-g%C3%AAnero-ra%C3%A7a-ou-cor-e-estado
  12. https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/04/justica-determina-coleta-de-registros-de-raca-e-etnia-em-casos-de-covid.htm
  13. https://nacoesunidas.org/relatorio-de-desenvolvimento-humano-do-pnud-destaca-altos-indices-de-desigualdade-no-brasil/ Acessado em 15 de maio de 2020
  14. São Paulo. Secretaria Municipal da Saúde COVID-19 Boletim. 30 abril 2020. Quinzenal https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/saude/PMSP_SMS_COVID19_Boletim%20Quinzenal_20200430.pdf?fbclid=IwAR0mNVdNtmO7ODqPCAqH0QfkzsX1hpMKNkvmgySqi1k2XD42E3F8vjz2OjU
  15. https://saude.rs.gov.br/atencao-basica-ou-primaria-principal-porta-de-entrada-para-o-sistema-unico-de-saude-sus