Pandemia: Negligência na coleta de dados potencializa vulnerabilidade da população negra

 A atuação do governo federal brasileiro na pandemia tem sido marcada pelas tentativas de invisibilizar e ocultar o gravíssimo e alarmante problema de saúde pública que é a vulnerabilidade da população negra. Em uma tentativa de reduzir os impactos do descaso no gerenciamento da crise sanitária, a Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) fez um importante alerta ao Ministério da Saúde sobre a necessidade de um dado crucial para descortinar as desigualdades sistêmicas e injustas entre grupos étnico-raciais: o preenchimento do quesito “raça/cor de pele”.

Mais de um ano e meio depois dos primeiros casos de infecções causadas pela Covid-19, os pesquisadores do GT Racismo e Saúde da Abrasco se debruçaram sobre os sistemas de informação das unidades federativas e descobriram que, apesar de um tímido avanço, o Brasil permanece distante de um preenchimento qualificado, tanto no SIVEP (Banco de Dados de Síndrome Respiratória Aguda Grave, que inclui os dados de hospitalização da Covid-19), quanto nos registros de dados de vacinação por Estado através do SI-PNI (Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações) e no SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade). Vale lembrar que o preenchimento da “raça/cor de pele”, nos sistemas de informações em saúde, foi regulamentado pela Portaria nº 344 GM/MS, de 01 de fevereiro de 2017.

O preenchimento da variável raça/cor da pele no SIVEP, que registra as hospitalizações foi observado no período de março de 2020 a maio de 2021, e apresentou tendência crescente e significativa, apenas em 25,9% das 27 unidades da federação: Acre, Goiás, Distrito Federal, São Paulo, Tocantins, Sergipe e Pará.

Em relação ao preenchimento do campo raça/cor da pele nos registros da vacinação contra Covid-19 relativa a 1ª dose, somente Pernambuco, Rio de Janeiro, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Tocantins e Rondônia obtiveram tendência crescente e significativa, mas esses estados representam somente 25,9% das unidades da federação. Este percentual tem um declínio ainda maior quando a análise é feita para os dados da 2ª dose: apenas 14,8% dos
estados brasileiros evoluíram no preenchimento: Alagoas, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Rio Grande do Norte – dados observados de janeiro a junho de 2021, em todas as unidades da federação.

Já no SIM no período de abril de 2020 a dezembro de 2020), os estados de Alagoas, Goiás, Bahia, Rio Grande do Sul, Pará, Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo apresentaram tendência de crescimento estatisticamente significativa em 33,3% das unidades da federação.

A falta de monitoramento e preenchimento sistemático da variável raça/cor da pele revela o não atendimento à obrigatoriedade desse registro previsto em Lei, especialmente, na Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Consequentemente, esta realidade indica a não existência de um plano efetivo para mitigar os efeitos da pandemia, principalmente, sobre as populações que vivem historicamente em situação de vulnerabilidade social e para as quais a pandemia tem tido maior impacto no adoecimento e mortalidade determinados pelo racismo estrutural.

Ionara Magalhães de Souza é membro GT Racismo/Abrasco e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Aloísio Machado da Silva Filho é professor do Programa de Pós-graduação em Modelagem em Ciências da Terra e do Ambiente e do Mestrado Profissional em Enfermagem da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Edna Maria de Araújo é membro do GT Racismo e Saúde/Abrasco, e professora do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UEFS.

Este artigo é uma produção do GT Racismo e Saúde/Abrasco com apoio institucional do UNFPA, o Fundo de População das Nações Unidas no Brasil, e foi publicado originalmente pelo site Carta Capital em 28/09/2021.

Inclusão da temática racial nos cursos de graduação e pós norteiam Dossiê produzido por pesquisadoras do GT Racismo e Saúde

Dossiê traz experiências de abordagem da temática racial nos cursos de graduação e pós-graduação/ Foto: Júlio Cesar Almeida

A incorporação da pauta étnico-racial no currículo dos cursos de graduação e pós-graduação em saúde coletiva foi o tema abordado no dossiê ‘Raça. etnia, gênero: experiências na formação em saúde‘, organizado pelas pesquisadoras de Rosana Monteiro,  Márcia Pereira Alves dos Santos e Edna Maria de Araújo, integrantes do GT Racismo e Saúde, e publicado pela Revista Interface, Comunicação e Saúde. A abordagem da temática é necessária no processo de formação para que, o futuro profissional de saúde, compreenda o impacto das iniquidades étnico-raciais na saúde da população. Há ainda uma legislação que determina a abordagem de temas relacionados a relações étnico-raciais, história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nos cursos da educação básica ao ensino superior. Algumas Diretrizes Curriculares Nacionais de cursos de graduação,  a exemplo das DCN do curso de Medicina, também indicam a necessidade de abordagem de tais temáticas.

Entre os objetivos do  GT Racismo e Saúde está “Propor a inclusão dos temas relacionados a racismo […] bem como suas interseccionalidades (gênero, classe) em […] Congressos organizados pela Abrasco; e ainda “Contribuir para nortear a implantação da temática, fomentar e incluir os temas como racismo e saúde da população negra nas formações universitárias […] e na educação permanente […]. Assim, as organizadoras do Dossiê submeteram proposta de Grupo  Temático ao  8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CBCSHS)  aprovado como GT28 “Saúde, currículo, formação: experiências, vivências, aprendizados e resistência sobre raça, etnia, gênero e seus (des)afetos”. A qualidade dos trabalhos e dos debates levou a proposição do dossiê.

Uma consulta realizada pelo GT Racismo e Saúde, o GT Saúde Indígena e o Fórum de Graduação em Saúde Coletiva em 2019 reforça a necessidade e importância do tema do Dossiê. Foi realizada  uma consulta aos 89 programas de pós-graduação em Saúde Coletiva e 18 responderam. Entre as perguntas estavam: “Seu programa de pós-graduação possui disciplina(s) que abordam a temática saúde da população negra e saúde da população indígena?” e, apenas, 38,9% disseram que abordam a temática saúde da população negra e 22% a saúde da população indígena.   

O artigo de Rosana Monteiro, Márcia Pereira Alves dos Santos e Edna Maria Araújo, que compõe o  dossiê aborda a inserção da temática étnico-racial dos cursos de Saúde de instituições de nível superior (IES) nos estados da Bahia, de Sergipe, Alagoas e São Paulo, no período de 2010 a 2018. Em São Paulo, por exemplo, ‘dos 24 cursos de Saúde, (…) somente 25% incluíram a temática da saúde da população negra no processo de formação dos acadêmicos, entretanto nenhum curso de saúde tinha uma disciplina específica sobre a temática. 

Para além da denúncia sobre as ausências, o dossiê traz artigos sobre experiências de abordagem da temática nos cursos de graduação e pós-graduação, apontando caminhos possíveis. 

Leia aqui na íntegra publicação da Revista Interface 

25 de Julho: ser mulher e negra em uma sociedade racista é um ato de resistência

Foto: Arquivo Abrasco

Neste 25 de julho, Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha ouvimos três mulheres integrantes do GT Racismo e Saúde da Abrasco: três gerações: 64, 40 e 24 anos de idade com atuações diferentes dentro e fora da academia, mas com uma trajetória de vida em comum. Cada qual com sua realidade, lutam pela presença da mulher negra em espaços que lhe foram negados e são parte de um processo de transformação contra a opressão e pelo fortalecimento de uma saúde pública digna no Brasil.

“Tive que passar por um processo de morte com muitas dores para me enxergar como uma mulher negra e parar de buscar o fetiche do embranquecimento”. A fala forte de Diana Anunciação, integrante do GT Racismo e Saúde da Abrasco, resume bem o processo de desconstrução vivido por mulheres negras que passaram, e ainda passam, pelo autoconhecimento e lutam para ocupar espaços historicamente negados a elas. 

Hoje, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, a pesquisadora reconhece os desafios enfrentados pela mulher negra, seja no espaço acadêmico ou fora dele. “Na própria universidade, você vivencia uma supremacia branca e masculina e tem dificuldades para se enxergar em outros espaços. Só depois você percebe o estrago que o racismo institucional é capaz de fazer”.

Como muitas outras, ela foi a primeira da família a ter um diploma universitário e o processo que antecedeu seu ingresso na faculdade foi marcado pela insegurança imposta por uma sociedade racializada. “Sociologia não era minha primeira opção, mas ouvi muito que não ia conseguir passar em outros cursos. Curiosamente, prestei vestibular e com minha pontuação, poderia ter cursado medicina, se quisesse”, lembra.

De 2006 para cá, a Diana reconhece as marcas deixadas pelo racismo, mas se orgulha do processo trazido pelo autoconhecimento e maturidade na construção da própria identidade racial. E mais, de fazer parte da criação de um novo momento, ainda que lento, de transformação. “Tivemos em 2018, na universidade em que leciono, 14 jovens estudantes negros formados no curso de de medicina. Foi a primeira vez que isso aconteceu no Brasil”

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“Precisei me entender como mulher negra para ressurgir maior e potente dentro de todo e qualquer espaço”, conta Claudia Rodrigues, jovem acadêmica de 24 anos de idade, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e  Enfermeira Pesquisadora pela UFRGS na temática da coinfecção HIV/Aids e Tuberculose, doenças estas diretamente ligadas às questões sociais. Com formações e idades diferentes, as histórias de mulheres negras que resistem se cruzam.

Claudia se orgulha de ter sido a primeira de sua geração na família a ocupar uma universidade, mas recorda dos desafios enfrentados. ”Os anos em que vivi na graduação foram de um significado enorme, pois lá pude experimentar a delícia de conhecer novos mundos e a dor de vivenciar o racismo acadêmico nas suas mais diversas faces e toda crueldade”. conta. “Hoje, percebo que ser mulher negra também é enxergar para além das minhas conquistas. Sinto que quando conquisto algo, meus semelhantes também estão conquistando”. 

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Quase três décadas antes, Maria do Carmo Sales Monteiro, da Escola de Municipal de Saúde de São Paulo, ingressava no curso de enfermagem da USP. “Era eu e mais uma estudante negra intercambista do Panamá dentro da sala. Na época, eu já fazia parte do movimento negro mas vi a necessidade de aumentar minha atuação”, lembra. “Percebi ainda no começo que trilhar uma carreira profissional sendo mulher e negra, você tem mais obstáculos”. 

Já alicerçada na resistência, Maria do Carmo trouxe muito do que aprendeu na militância para seu campo de atuação dentro dos programas de saúde pública.  “Me orgulho de ter ajudado a criar uma metodologia que lançou os primeiros passos para se ter uma política voltada para a saúde da população negra” 

25 de julho: “Nossos passos vêm de longe!” – Artigo de Raquel Souzas

As redes sociais, hoje, veiculam imagens de mulheres negras em ocupações de destaque. Isso é altamente positivo, sobretudo, para as meninas negras. O sucesso, além de ser relativo, chega somente com grandes sacrifícios pessoais, das famílias e das comunidades negrxs.

Como mulher negra, pesquisadora em Saúde Coletiva, busco compreender as condições de saúde da população negra, particularmente das mulheres negras, das comunidades quilombolas e das periferias.

Hoje é possível ver como os desfechos em saúde estão intimamente relacionados às condições de vida, compreender as experiências de adoecimento e cura das pessoas negras e como estão estreitamente relacionadas às condições herdadas, às desigualdades persistentes.

Há um expressivo segmento, do qual eu participo, de pesquisadorxs negrxs e não- negrxs dedicados à saúde da população negra. É sem dúvida uma conquista resultante de um histórico de lutas.

É importante lembrar que a luta cotidiana de cada mulher negra na lida diária, as decisões das nossas avós, de nossas mães e irmãs, de Marielle Franco, nos fizeram chegar até aqui. Intelectuais negras, como Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, psicanalistas negras, como Virgínia Bicudo, compreenderam, muito antes de nós, que as subjetividades negras são afetadas singularmente pelo racismo.

O grande esforço de luta antirracista se impõe por que o racismo atinge espaço-temporalmente as populações negras e, ao mesmo tempo, afeta singularmente cada um de nós.

A busca pela implementação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra, é sem dúvida alguma uma luta importante para nós do GT Racismo e Sáude da Abrasco e para todxs nós, negrxs!

Raquel Souzas é professora associada do IMS/CAT UFBA e membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco

25 de Julho é o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha

25 de Julho : Interseccionalidade de Gênero e Raça na trajetória de uma pesquisadora negra – Artigo de Lucélia Luiz Pereira

Tornar-me uma docente negra pesquisadora envolveu grandes desafios, talvez o principal, o fato de não ter referências familiares de continuidade no ambiente escolar. Vinda de uma família mineira constituída de pai, mãe e quinze filhos, sendo quase todas/os trabalhadoras/es rurais, houve forçosamente abandono escolar frequente para prover o sustento da numerosa família. Nesse sentido, apesar da educação ser um direito universal, minha mãe e meu pai não foram escolarizados, meus irmãos não terminaram o ensino fundamental e a maioria das minhas irmãs concluiu somente o ensino médio. Então, (in)felizmente, fui a única a ingressar numa universidade pública, e conclui a graduação, mestrado e doutorado.

A trajetória das mulheres negras, em quaisquer que sejam os caminhos percorridos é, sempre, um processo longo, de resistência e luta, marcado por diversos obstáculos. Minha história, assim como de muitas mulheres negras brasileiras, é uma exceção, que confirma a regra de marginalização decorrente do racismo estrutural. Tive um percurso escolar, todo em escola pública, marcado por inconstâncias e mudanças, por pertencer a uma família de migrantes, em constante busca de melhores condições de vida. Em 1998, ingressei no curso de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB), e a partir daí muitas mudanças ocorreram. Após enfrentar diversos desafios, conclui o mestrado em Política Social e doutorado em Ciências da Saúde. Trabalhei numa Organização Não Governamental feminista, e também nos poderes executivos federal e distrital e, em 2009, fui nomeada como docente na UnB. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, sempre tive a certeza de que a educação era necessária para a transformação da realidade vivenciada, por isso, a importância de lutarmos por uma universidade pública não elitista, mais inclusiva, mais diversa e de maior qualidade.

O amadurecimento adquirido na trajetória profissional e acadêmica têm contribuído para entender meu pertencimento racial como professora universitária, exercendo atividade intelectual e pesquisando temas relacionados à temática racial. Para tal, busco referências e me inspiro em diversas mulheres negras intelectuais afrolatinas que me antecederam, que problematizaram o racismo, derrubaram barreiras e permitiram que outras mulheres trilhassem esse caminho.

Minhas experiências de vida e profissionais tem sido, ao longo dos anos, interseccionais, materializadas pelo intercruzamento de gênero, raça e classe. Ser mulher, ser negra, ser periférica é o que sempre fui e isso me leva a utilizar tal condição como elemento para subsidiar minha atuação como docente e como pesquisadora. As barreiras de origem socioeconômica e racial e as experiências de racismo e sexismo trazem a inquietação constante de resistir e contribuir para mudanças sociais. Mas, mostra também que essa não é uma questão individual. É uma realidade de milhares de mulheres negras, que fazem um esforço extraordinário para alcançar lugares ocupados historicamente e, de forma naturalizada, por pessoas mantidas por privilégios decorrentes da branquitude.

Os desafios coletivos a serem enfrentados pelas acadêmicas e pesquisadoras negras são diversos e incluem a necessidade de resistir aos estereótipos sobre mulheres na ciência, as armadilhas institucionais diretas e indiretas sobre nossa capacidade intelectual, a presença do racismo institucional, a não centralidade do debate racial, o persistente epistemicídio, as vantagens e privilégios raciais simbólicos e materiais, dentre muitos outros elementos. Tal realidade mostra a necessidade da luta diária por tornar o ambiente da universidade mais igualitário, diverso e com maior representação de docentes por raça/cor.

É importante construir estratégias que possibilitem problematizar a invisibilidade das mulheres na ciência, e ampliar o ingresso e permanência de negras, quilombolas e indígenas no ensino superior. Além disso, considerando que somos subrepresentadas na docência, é fundamental criar medidas equitativas para ampliar a presença de mulheres negras na carreira profissional do ensino superior, dar visibilidade a produção científica e oportunizar financiamentos de pesquisas.

Assim, percebo que ser uma docente negra é não só um chamado à análise crítica sobre o lugar ocupado por nós na academia, mas sobretudo alavancar lutas coletivas para ocupar, de forma representativa e justa, um espaço que é nosso por direito. E a universidade só tem a ganhar ao se democratizar e possibilitar a produção de saberes decoloniais e representativos da rica herança e diversidade do povo afro-latino presente no Brasil.

Lucélia Luiz Pereira é docente do Departamento de Serviço Social da UnB e integrante do GT Racismo e Saúde da Abrasco

25 de Julho é o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha

Etna da Silva fala sobre insegurança alimentar entre negros no podcast Papo Preto

A alimentação é um direito constitucional cada vez mais violado com a descontinuidade de programas sociais destinados às pessoas em situação de vulnerabilidade social, e uma boa parte desse contingente é formado por negros e negras. Para falar sobre Alimentação Saudável e População Negra, a edição desta semana do podcast Papo Preto, do site Alma Preta, teve como convidada a integrante do GT Racismo e Saúde, Etna da Silva, nutricionista e atualmente no doutorado em Saúde Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Etna explicou como a falta de uma alimentação de qualidade afeta a dignidade do indivíduo. Este contexto de pandemia fez com que a situação se agrave ainda mais. “Não é possível o distanciamento social sem medidas para proteger essa população”.

A pesquisadora falou sobre a configuração das cidades e como isso impacta no não acesso aos alimentos in natura, gerando os desertos alimentares. “Sem a disponibilidade de alimentos saudáveis, as pessoas moradoras de regiões periféricas tendem a optar por produtos industrializados com menor qualidade”. Clique abaixo e ouça o programa.

Apesar de dificuldades, o SUS acolhe cerca de 70% da população negra, diz Luís Eduardo à Folha

SUS contribui para a longevidade de negros e pardos / Foto: Carol Garcia/Governo do Estado da Bahia

No último sábado (10), o Jornal Folha de S. Paulo publicou uma série de reportagens que mostra as barreiras vivenciadas pela população negra para ter acesso às mesmas oportunidades e serviços da população branca. Sob o título “Com SUS, pretos e pardos se aproximam dos brancos em longevidade em 22 estados” a matéria tem como parâmetro um indicador próprio (Índice Folha de Equilíbrio Racial). Para a parte da análise do quadro de saúde, a reportagem entrevistou Luis Eduardo Batista, coordenador do GT Racismo/Abrasco.

Ao falar sobre as diferenças no tempo de sobrevida entre as duas etnias, Luís frisou a importância do SUS na diminuição dessa desigualdade, apesar de reconhecer as deficiências do sistema: “Apesar de dificuldades, o SUS presta um bom atendimento e acolhe cerca de 70% da população negra”, disse. 

A reportagem abordou também o impacto da Covid-19 no aumento da disparidade no total de óbitos entre negros e brancos durante a pandemia. Segundo a publicação, o  excedente de mortes associadas à pandemia, em 2020, chegou a 28% entre os negros, e a 18% entre os brancos, no Brasil como um todo”. 

Leia a matéria completa aqui

Doença Falciforme e Covid-19: negligências históricas e novas ameaças à vida

Este artigo é uma produção do GT Racismo/Abrasco com apoio institucional da UNFPA, o Fundo de População das Nações Unidas no Brasil .

Desde 2008, a ONU estabeleceu 19 de junho como Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Falciforme (DF), uma das doenças hematológicas genéticas e hereditárias mais comuns no mundo, com, aproximadamente, 6,4 milhões de pessoas acometidas e 400 mil nascidos vivos anualmente. No Brasil, atinge majoritariamente a população negra, o que potencializa o risco de adoecer e morrer por Covid-19.
A DF não compõe o rol de doenças negligenciadas definido pela OMS, mas é possível refletir sobre indicadores de negligência política, econômica e científica pela falta de priorização na agenda de saúde. Trata-se de uma negligência histórica, que apenas se intensifica neste momento de pandemia.
Estudos do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, mostraram que pessoas com doença falciforme apresentam um quadro de agravamento clínico em todos os órgãos, particularmente no aparelho respiratório. Significa dizer que pessoas com doença falciforme podem desenvolver o quadro mais grave quando contaminadas pelo coronavírus.
Lamentavelmente, no Brasil, não existe um painel de monitoramento para os casos com DF e Covid-19, diferentemente da experiência estadunidense, onde uma rede colaborativa mundial de profissionais de saúde atendem pessoas com doença falciforme registram e monitoram os casos confirmados de Covid-19. Ao fazer o monitoramento, produzem dados e informações, fundamental para elaboração de políticas públicas.
Nosso PNI, o Plano Nacional de Imunização, traz a doença falciforme como comorbidade prioritária para a vacinação. No entanto, percebe-se que não há detalhamento na sua descrição. A doença falciforme é apresentada como doença rara, o que é um grande equívoco na realidade brasileira.
A imunização precisa ser garantida às pessoas com DF, já que é a única estratégia eficaz para evitar a contaminação ou ainda mitigar os efeitos da Covid-19. Mas, se descontextualizada do perfil racial, do risco de adoecimento e morte e pautada exclusivamente no critério etário chancela uma injusta desvantagem, a começar pela expectativa de vida, que é menor. A faixa etária entre 18 e 35 anos demanda maior necessidade de cuidado. A vacina deveria ser ofertada para todos (as) acima de 18 anos assim como se fez para outra doença genética, a Síndrome de Down. Esta desigualdade mostra as nuances do racismo estrutural.
Ter o PNI apenas como uma diretriz e sem coordenação nacional efetiva na campanha de vacinação, estados e municípios por contra própria definem suas ações, que conforme as realidades locais, podem estimular a não priorização da vacinação dessas pessoas, dificultando o acesso ou excluindo o direito delas à vacinação, o que é uma ameaça à vida.
O acesso prioritário de pessoas com doença falciforme à vacina é um pleito legítimo pela perspectiva da Equidade, e sobretudo é um Direito Humano pela preservação da vida face ao risco aumentado para as complicações e para o desfecho morte pela Covid-19.

Este artigo foi publicado orginalmente no site Alma Preta.

Altair Lira, membro do GT Racismo/Abrasco – Grupo Temático Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – e mestre em Saúde Coletiva pela UFBA

Márcia Pereira Alves, membro do GT Racismo/Abrasco e docente colaboradora da UFRJ

Clarice Santos Mota, doutora em Ciências Sociais pela UFBA

“Política também se faz com omissão”, disse Alexandre Silva no Programa Estação Livre da TV Cultura

Na última sexta-feira (14), o programa Estação Livre da TV Cultura trouxe um recorte especial sobre saúde da população negra e covid-19 com a participação de Alexandre Silva do GT Racismo de Saúde e também e Júlio Cesar Oliveira, médico pela Faculdade de Medicina do ABC.

“Urgentemente, é preciso revisitar a nossa formação dos profissionais de saúde. Entender o racismo e formas de mitigar este efeito tem que ser parte da formação de qualquer profissional da área da saúde”, disse Alexandre.

O abrasquiano também frisou como a falta de informação oficial também prejudica no combate da disseminação da covid-19 no Brasil. “Política também se faz com omissão. Então, não ter informações em momentos importantes da evolução desta pandemia falas como: fiquem em casa na pandemia, se possível (…), a vacina não está sendo aplicada na velocidade que gostaríamos. Sem isso, parece que não está acontecendo nada”.

Luís Eduardo Batista participa do programa Opinião da TV Cultura para debater Racismo e Saúde Pública

Nesta quinta-feira, 13, a TV Cultura trouxe para o centro do debate, durante o programa Opinião,  o tema Racismo e Saúde Pública com a participação do coordenador do GT Racismo e Saúde da Abrasco, Luís Eduardo Batista. Foram quase 30 minutos de bate-papo sobre os gargalos da saúde pública brasileira e seus impactos na população negra, especialmente a parcela que vive em condições de vulnerabilidade social. 

“Temos percebido o quanto é maior a mortalidade da população negra por causas evitáveis, em função, por exemplo, de questões sociais ou da falta de  respostas adequadas das políticas públicas  para este grupo populacional”, explicou Luís Eduardo. 

Ao longo da entrevista também foram levantadas questões voltadas ao atual cenário de pandemia causada pela covid-19. “Para nós, que estamos estudando há muito tempo, não nos surpreendeu o fato de que essas iniquidades atingiriam com maior proporção a população negra e indígena também. 

Acompanhe a entrevista na íntegra abaixo: