Abrasco participa de comitiva de mulheres em encontro com presidente Dilma

Autor: Bruno C. Dias

No último dia 21, uma delegação de mulheres representantes de diversas instituições da sociedade civil reuniram-se no Palácio do Planalto com a presidente da República, Dilma Roussef, para apresentar a agenda política das mulheres brasileiras. Entre as presentes, estava Estela Aquino, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA), representante da Abrasco no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) e membro do Grupo Temático Saúde e Gênero (GT GS).

Entre os pontos tratados, foram discutidos a representação política das mulheres, o acesso à educação e à educação infantil em horário integral, a igualdade salarial entre homens e mulheres, a ampliação da seguridade para mulheres do campo, o combate ao racismo e o enfrentamento da violência. “Sobre os temas da saúde, foram abordados a defesa do SUS e da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM). Foi especialmente enfatizado o avanço do conservadorismo em nossa sociedade. Segundo a presidenta, as conquistas só são preservadas se avançarmos”.

Nova composição do CNDM: O encontro faz parte da abertura do processo de eleição do CNDM para o período de 2014 a 2017. “Considero um sinal de prestígio da Abrasco ter sido convidada a integrar esta comitiva, especialmente diante da nossa posição de independência no debate de ideias do CNDM”, destaca Estela, que está em seu segundo mandato consecutivo no Conselho. O prazo para Inscrição de candidaturas está aberto até 14 de abril. Participam do processo de escolha das entidades com cadeira no atual mandato e demais entidades habilitadas pela Comissão de Validação. O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher é composto por 14 entidades na categoria redes e articulações feministas e de defesa dos direitos das mulheres e 7 entidades na categoria de organizações de caráter sindical, associativo, profissional ou de classe. Outras informações podem ser acessadas na seção do CNDM dentro da página da Secretária de Políticas para as Mulheres.

Comemoração de 25 anos do GT Gênero e Saúde da Abrasco

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Em 2020 o GT Gênero e Saúde da Abrasco completou 25 anos. Diante da pandemia de Covid-19, a comemoração do marco foi adiada, e aconteceu na sessão especial “25 anos de Gênero na Saúde Coletiva: memórias para o presente e o futuro“, em 25 de novembro de 2021, durante o 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia.

“Desde sua criação o GT tem reunido pesquisadoras das distintas áreas da Saúde Coletiva. Feministas que construíram um espaço inovador do diálogo e formação de propostas visando consolidar o campo de estudos de gênero na saúde coletiva”, afirmou Ana Paula Reis, coordenadora do GT e professora do ISC/UFBA, na abertura da atividade.

Estela Aquino (ISC/UFBA), vice-presidente da Abrasco, integrante-fundadora do grupo, contou que o objetivo das primeiras pesquisadoras era ampliar o ensino e a produção de conhecimento sobre o tema, motivadas pela intensa politização na década de 1980, tanto do movimento feminista, quanto do movimento da reforma sanitária – e na luta pela redemocratização, durante a ditadura militar: ” Nós, da saúde, estávamos nas ruas, nos encontros, mas não ainda no ambiente acadêmico, onde persistia a perspectiva biomédica materno-infantil, e o tema da sexualidade não constava nas nossas pesquisas”.

Já Daniela Riva Knauth, docente da UFRGS, e também integrante histórica do grupo, pontuou que a iniciativa foi bem sucedida, mas que ainda é preciso fomentar a discussão sobre gênero no âmbito da saúde: “Há um resultado nos currículos vinculados à saúde coletiva e saúde pública, a temática do gênero foi incorporada. No entanto, ainda temos uma dificuldade muito grande em cursos como medicina, enfermagem, farmácia, ondontologia, e outros tradicionais da área de saúde, que permanecem muito fechados”.

Conheça mais sobre a história do GT Gênero e Saúde da Abrasco, e assista à sessão comemorativa:

Painel debate a baixa representatividade das mulheres na ciência

Autora: Thereza Reis

No dia 20 de maio, o painel “Mulheres na Ciência” da Ágora Abrasco reuniu pesquisadoras para debaterem a igualdade de gênero na produção do conhecimento. A atividade foi uma iniciativa conjunta dos Grupos Temáticos Gênero e Saúde, Racismo e Saúde e Bioética da Abrasco. Ana Maria Costa, coordenadora do GT Gênero e Saúde e uma das condutoras do painel, destacou a importância da atividade, que “trouxe uma reflexão ampla sobre os percalços, as desigualdades, as ambiguidades e as subjetividades associadas à nossa presença na academia”.

Em suas considerações, Estela Aquino, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia e membro do GT Gênero e Saúde da Abrasco, abordou a representatividade feminina no contexto da pandemia. “No momento atual, não é possível a gente falar sobre as mulheres na ciência sem refletir também como estão as mulheres diante do maior desafio deste século, na pandemia da Covid-19, e todos os desafios e desigualdades, as de gênero, de classe, de raça”.

Ana Paula Nogueira Nunes, professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e membro do GT Racismo e Saúde da Abrasco, jogou foco sobre a baixa representação das mulheres negras na ciência. “As mulheres, sobretudo as mulheres negras, são sub-representadas na ciência como um todo, principalmente quando a gente faz referência aos espaços de poder e de decisão”, pontuou.

O painel também foi coordenado por Luciana Narciso, integrante do GT de Bioética/Abrasco e da articulação Parent in Science, que lembrou da inclusão da licença-maternidade na plataforma Lattes como uma vitória que poderá ajudar a ampliar a representatividade feminina. A sessão teve ainda as participações das pesquisadoras Letícia Oliveira (UFF e Parent in Science) e Stella Gontijo (ANPG).

Veja o painel na íntegra na TV Abrasco:

Ágora Abrasco desta quarta-feira (26) debate a pandemia para além dos dados

Autora: Letícia Maçulo

Nesta quarta-feira (26), às 16h, vamos ouvir nossos pesquisadores e professores  para juntos pensarmos o que essa profusão de dados sobre a pandemia significa e como podemos interpretá-los. Nesta edição da Ágora Abrasco, especialistas irão debater as formas de se pensar a pandemia para além dos números, dando corpo e investigando o que de fundamental todos esses dados nos dizem.

A conversa faz parte da programação da Ágora Abrasco para o mês de maio e vai contar com a participação de Maria Amelia Veras (Comissão de Epidemiologia/Abrasco e FCMSC/SP) abordando a questão das curvas de contágio, de Estela Aquino (GT Gênero e Saúde/Abrasco e UFBA) falando sobre a situação das escolas e  Margareth Portela (Fiocruz) pautando o cenário dos leitos de internação. Além das exposições, esta Ágora conta com a participação de debatedores. Participam: Gulnar Azevedo e Silva (Presidente da Abrasco, UERJ) Claudia Travassos (Fiocruz) e Ligia Kerr (Comissão de Epidemiologia/Abrasco e UFC).A coordenação fica por conta de Naomar de Almeida Filho (Vice presidente da Abrasco, UFBA e USP), que publicou em 1989 o livro “Epidemiologia além dos números”. 

A conversa vai ser transmitida ao vivo pela TV Abrasco.

8M: Ágora Abrasco reflete sobre mulheres brasileiras, ciência e Covid-19

Autora: Letícia Maçulo

Neste 8 de Março, a Abrasco reuniu oito mulheres para debater sobre desafios e vislumbrar novos horizontes de atuação para uma sociedade mais igualitária. Em ambiente virtual, abrasquianas e convidadas refletiram sobre os desafios de se fazer ciência enquanto mulher, sobre a jornada dupla (às vezes tripla), a discrepância entre a presença de mulheres e homens em cargos de liderança e na área da produção de conhecimento, dificuldades comum para todas e que ainda se agravam de acordo com origens, etnias e regiões e histórias. A conversa marcou o retorno da Ágora Abrasco em grande estilo.

A sessão contou com a coordenação de Ana Paula Reis (Coordenação do GT de Gênero e Saúde/Abrasco e UFBA) e de Luanda Lima (Coordenação do GT EPS/Abrasco-IFF/Fiocruz e Parent In Science). Para fortalecer o debate, contamos com a participação das convidadas Letícia  Oliveira (Parent in Science e UFF); Cláudia Rodrigues de Oliveira (GT Racismo e Saúde/Abrasco e UFRGS); Francine de Souza Dias (GT Deficiência e Acessibilidade/Abrasco e ENSP/Fiocruz); Helena Leal David (GT Educação Popular em Saúde/Abrasco e UERJ) e Inara do Nascimento Tavares (GT Saúde indígena/Abrasco e I.Insikiran/UFRR).

A presidente da Abrasco, Gulnar Azevedo e Silva (IMS/UERJ), abriu o encontro pontando a importância das mulheres na luta contra a COVID-19. “Durante um ano, as mulheres estão fazendo o que podem para proteger seus filhos, os idosos, seus parceiros e toda a comunidade nessa pandemia.”

Para as palestrantes, a pandemia acentuou a situação de vulnerabilidade de algumas mulheres. “Sabemos que em guerras, epidemias ou crises sociais graves, as mulheres são as mais atingidas. As consequências econômicas que atingem a todos também incidem de modo particular nas mulheres. Somos nós que mais perdemos emprego e renda, inclusive durante a pandemia atual.” afirma Ana Paula Reis (Coordenação do GT de Gênero e Saúde/Abrasco).
Os efeitos da pandemia são sentidos ainda mais intensamente pelas mulheres com filhos que desejam seguir seus estudos. Administrar a casa, a família, o trabalho e os filhos é uma tarefa hercúlea. A convidada Letícia  Oliveira (Parent in Science e UFF) trouxe pro debate a questão da parentalidade no meio científico. “Nós observamos que por conta da pandemia as mulheres estavam extremamente sobrecarregadas. No levantamento feito pela Parent in Science, percebemos que apenas 9% das discentes de pós graduação com filhos estavam conseguindo trabalhar normalmente durante a pandemia.”

A conversa também abordou temas como assistência para mulheres com deficiência, estratégias de combate à pandemia em aldeias e as dificuldades encontradas por mulheres mães em seus ambientes de trabalho. O evento foi transmitido ao vivo pela TV Abrasco, canal da Associação no YouTube, e pode ser conferido na íntegra pelo player abaixo. 

Dia internacional das Mulheres abre retomada da Ágora Abrasco

Data histórica que representa e incorpora um grande conjunto de reivindicações e pautas políticas, econômicas, sociais e culturais, Dia Internacional da Mulher, ganha espaço especial nas atividades da Abrasco da próxima semana e marcará a retomada da programação da Ágora Abrasco.

Para essa atividade especial, abrasquianas de diversas origens, etnias, regiões e histórias, todas com contribuições à Saúde Coletiva, à ciência e ao ativismo social, para pensar nessa grande roda virtual os papéis, os desejos e direitos que as mulheres de nosso país vêm desempenhando e enfrentando em um ano de pandemia.

Compartilhe esta e outras ações ao longo dos próximos dias com a hashtag # 8mAbrasco

8 de Março – Dia internacional da Mulher: uma reflexão sobre as mulheres brasileiras e a Covid-19

Data8 de março, às 16 horas

Convidadas

Letícia  Oliveira (Parent in Science e UFF)

Cláudia Rodrigues de Oliveira (GT Racismo e Saúde/Abrasco e UFRGS)

Francine de Souza Dias (GT Deficiência e Acessibilidade/Abrasco e ENSP/Fiocruz)

Helena Leal David (GT Educação Popular em Saúde/Abrasco e UERJ)

Inara do Nascimento Tavares (GT Saúde indígena/Abrasco e I.Insikiran/UFRR)

Abertura:
Gulnar Azevedo e Silva (presidente da Abrasco e IMS/Uerj)

Coordenação:
Ana Paula Reis (Coordenação do GT de Gênero e Saúde/Abrasco e UFBA)
Luanda Lima (Coordenação do GT EPS/Abrasco-IFF/Fiocruz e Parent In Science)

Transmissão: TV Abrasco

Debater sobre a sexualidade deve ser um direito, diz Cristiane Cabral

Autor: Bruno C. Dias, com informações da Carta Capital

Cristiane Cabral em uma das mesas-redondas do Abrascão 2018 –  Foto: Abrasco

Prevista para ser lançada em fevereiro, uma campanha do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos trabalhará a abstinência sexual como política pública para a prevenção da gravidez na adolescência. O tema tem mobilizado a imprensa, que tem acionado a Abrasco para debater o assunto com especialistas em saúde reprodutiva e políticas públicas, como em recente entrevista da abrasquiana Elaine Brandão ao Repórter SUS. 

Também integrante do Grupo Temático Gênero e Saúde (GTGen/Abrasco) e docente da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), Cristiane Cabral falou com a jornalista Giovana Galvani, do site da revista Carta Capital, e destacou que adotar a abstinência como política implica em impedir que jovens possam desenvolver habilidades afetivas e emocionais sobre como se relacionar com o próprio corpo num momento importante do desenvolvimento cognitivo e social.

“Se esse jovem tiver com as ferramentas necessárias para uma boa decisão, pode ser com 14, 15, 16, não importa, ele precisa estar preparado. Tem um erro em achar que a idade por si só vai trazer a maturidade e ajudar esse jovem a decidir. Quem faz isso não é a idade, é a educação sexual, e precisa começar o quanto antes”, argumenta Cristiane Cabral.

Para a abrasquiana, a justificativa moral é uma figurinha repetida no tabu da sexualidade no Brasil, muito mais a serviço de um caminho restritivo do que da promoção do debate.

“Lá atrás, já falavam que os bailes incentivavam a sexualidade, que a Xuxa na TV incentivava a sexualidade, coisas assim. A iniciação sexual faz parte do que a gente chama de socialização juvenil, é inevitável. Estamos incorrendo num caminho errado. Como fazer isso de um modo mais coerente e seguro?”, critica. Clique aqui para ver a publicação original ou leia abaixo, na íntegra.

Política de abstinência falha em debater sexualidade com a juventude

Novo carro-chefe de Damares Alves vem carregado de traços moralistas na construção de uma política contra a gravidez na adolescência

Giovanna Galvani

Nos acampamentos de jovens organizados pela igreja que frequentava, Aline* sabia que a hora de dormir sempre era alongada em papos privados com as colegas: a sexualidade só podia ser debatida com as portas fechadas. Foi apenas aos 15 anos que a jovem ouviu uma única missionária falar, pela primeira vez naquele espaço, sobre o uso de preservativo, infecções sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada e a culpa em escapar das regras morais impostas pela igreja.

Novo carro-chefe de Damares Alves vem carregado de traços moralistas na construção de uma política contra a gravidez na adolescência. Nos acampamentos de jovens organizados pela igreja que frequentava, Aline* sabia que a hora de dormir sempre era alongada em papos privados com as colegas: a sexualidade só podia ser debatida com as portas fechadas. Foi apenas aos 15 anos que a jovem ouviu uma única missionária falar, pela primeira vez naquele espaço, sobre o uso de preservativo, infecções sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada e a culpa em escapar das regras morais impostas pela igreja.

“A gente se sentia à vontade, como se aquela fosse a única oportunidade de perguntar sobre isso. Era o momento que podíamos tirar todas as nossas dúvidas e conversar sobre qualquer coisa”, relata.

Nesse tempo, Aline acreditava que a abstinência de atos e debates sobre a sexualidade era o único jeito de lidar com o assunto. O que foi uma escolha de cunho religioso para ela, agora, vem sendo discutida dentro do governo como uma política pública para tentar reduzir a gravidez na adolescência no País.

A necessidade de pensar uma ação prática para prevenir uma gravidez precoce tem a ver, para a ministra Damares Alves, da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, com o adiamento da vida sexual dos jovens. Falar sobre sexo, dessa maneira, é colocado como um grande risco na vida dos adolescentes – pelo menos é o que mostra a nota de esclarecimento divulgada pelo Ministério.

“A proposta é oferecer informações integrais aos adolescentes para que possam avaliar com responsabilidade as consequências de suas escolhas para o seu projeto de vida”, diz a nota.

Há, de fato, um número incômodo em relação à gravidez na juventude. Segundo um relatório da ONU divulgado em abril de 2019, o Brasil tem a taxa de 62 adolescentes grávidas para cada grupo de mil jovens garotas na faixa etária entre 15 e 19 anos. O índice mundial aponta 44 grávidas para cada grupo de mil.

Em 2019, o Ministério da Saúde realizou um levantamento em todas as redes de ensino pública e privada sobre registro de casos de gravidez em adolescentes escolares. Ao todo, 91.740 escolas responderam e informaram que, em 2018, 65.339 alunas na faixa etária de 10 a 19 anos engravidaram. Os dados foram fornecidos pela pasta a CartaCapital.

Os números são altos, mas as controvérsias surgem, no entanto, quando se afirma que a abstinência seria a única saída para evitar que jovens engravidem cedo. Na visão da política de Damares, falar sobre sexualidade antes dos 14 anos seria uma afronta à lei que determina que manter relações com pessoas mais jovens a essa idade é caracterizado como abuso.

O silêncio imposto ao longo da infância e início da juventude pode ser danoso para quem deveria ser protegido. É o que pensa Viviana Santiago, uma das coordenadoras de gênero da Plan International, organização que avalia as condições de vida de meninas ao redor do mundo. Ela argumenta que pregar apenas o adiamento da vida sexual não satisfaz as diversas dúvidas que surgem, desde a infância, sobre corpo, privacidade e relacionamento com o outro.

“As pessoas pensam, quando falamos de educação para a sexualidade, que iremos só falar sobre sexo. Na verdade, se trata de responder às perguntas que a idade gera. Para crianças pequenas, é necessário aprender as partes do corpo. Isso não é uma tolice, senão muitas não vão desenvolver o senso do que deve ser privado. É necessário ter um respeito ao desenvolvimento”, afirma Santiago.

Para a professora Cristiane Cabral, que leciona no departamento de Saúde Pública na Universidade de São Paulo, adotar a abstinência como política implica em deixar de desenvolver “habilidades afetivas e emocionais sobre como se relacionar com o próprio corpo, com o ciclo menstrual (para meninas) e com o parceiro”. Mais para a frente, o problema da gravidez esbarra em outro obstáculo: uma gestação indesejada e imprevista, que pode vir em qualquer momento de uma vida sexualmente ativa adulta.

“Se esse jovem tiver com as ferramentas necessárias para uma boa decisão, pode ser com 14, 15, 16, não importa, ele precisa estar preparado. Tem um erro em achar que a idade por si só vai trazer a maturidade e ajudar esse jovem a decidir. Quem faz isso não é a idade, é a educação sexual, e precisa começar o quanto antes”, argumenta Cabral.

Viviana Santiago identifica na política de Damares mais um aspecto de não compreensão da juventude brasileira, que não vem de hoje. “No Brasil, existe uma dificuldade em dialogar sobre adolescência, que é uma fase muito incompreendida principalmente pelos adultos. Ela ou é infantilizada como um tempo de aborrecimento, os “aborrecentes”, ou adultizada. Com isso, vamos contra a tudo que várias pesquisas mostram, que este é um período de desenvolvimento neurológico e biopsicossocial”, argumenta.

O ministério alega que se baseia em estudos científicos com “resultados exitosos” para dar conta das críticas que sofreu em relação à proposta, e nega que ela seja tenha origens religiosas ou de base moral.

A ministra – e pastora – Damares, no entanto, colocou a afirmação em xeque. Nas redes sociais, compartilhou uma publicação de apoio da deputada estadual paulista Janaína Paschoal (PSL), que afirma que gostaria que jovens não fossem “expostos a músicas que despertam o corpo”. Além disso, Damares apresentou poucos estudos de 2005, provenientes da mesma experiência chilena, para embasar a proposta até o momento.

A justificativa moral, para Cristiane Cabral, já é figurinha repetida no tabu da sexualidade no Brasil. Para a professora, o problema não é a abstinência, que pode ser uma opção pessoal perfeitamente razoável, mas o pânico despertado para trilhar um caminho mais restritivo em relação ao debate.

“Lá atrás, já falavam que os bailes incentivavam a sexualidade, que a Xuxa na TV incentivava a sexualidade, coisas assim. A iniciação sexual faz parte do que a gente chama de socialização juvenil, é inevitável. Estamos incorrendo num caminho errado. Como fazer isso de um modo mais coerente e seguro?”, critica.

A proposta de Damares ainda não tem data certa para ser apresentada, mas não deve demorar para aparecer como mais um capítulo da agenda moralista do governo.

No ano passado, o presidente Jair Bolsonaro sancionou uma lei que determina a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência a partir do dia 1º de fevereiro. Questionado se haveria alguma mobilização especial do Ministério nos dias dedicados à causa por conta das divulgações recentes, o Ministério afirmou que ainda não tinha nada programado para a ocasião, mas negou notícias de que a distribuição de camisinhas para o carnaval seria afetada pela nova política.

Na visão de Aline, que seguiu a doutrina da igreja até a maioridade, a abstinência aparecia primeiro como uma forma de cuidado que, depois, se transformou em um fardo sem debate sobre o seu peso. Hoje, ela optaria pela conversa com pessoas mais jovens de sua religião para começar a falar sobre o assunto de uma forma mais responsável.

“Eu acho que a solução está na conversa e na liberdade que esses jovens devem ter em falar sobre isso. A abstinência infere em danos psicológicos, de culpa, de gente que acha que Deus vai punir. Há uma hipocrisia muito grande, porque, no final, todo mundo faz e se arrepende”, relata.

*O nome da entrevistada foi alterado para proteger sua identidade.

Com grande mobilização dos movimentos feministas, Argentina aprova a legalização do aborto

Foto: Agustina Byrne para a Revista Citrica

Autor: Pedro Martins

O Senado argentino aprovou no dia 29 de dezembro o direito de as mulheres decidirem sobre a interrupção da gravidez até a 14ª semana de gestação. O projeto que tinha ido a votação e não fora aprovado em 2018, dessa vez passou com 39 votos favoráveis, 29 contrários e uma abstenção. Ao longo de toda a tramitação do projeto, os movimentos feministas do país mostraram grande mobilização ocupando as ruas com lenços verdes novamente. Ao final, uma explosão de alegria e emoção tomou conta das milhares de mulheres que ocupavam as ruas de Buenos Aires e puderam, agora sim, comemorar a vitória sobre o poder de decidirem sobre sues corpos.

A Abrasco celebra a legalização do aborto na Argentina! É a vitória de uma reivindicação antiga dos movimentos feministas pela qual mulheres jovens e de todas as idades lutaram fortemente nos últimos anos. A presidente da entidade, Gulnar Azevedo, apontou a importância da aprovação da medida para toda a América Latina: “Esperamos que esta conquista social na Argentina se traduza num exemplo a ser seguido nos outros países da América Latina e que a sociedade brasileira entenda a necessidade de avançarmos no mesmo sentido garantindo o direito de escolha das mulheres e minimizando as trágicas consequências para a saúde com a não legalização do aborto”.

Na lei aprovada no país irmão, caso optem pela interrupção voluntária da gravidez, será garantida a todas as mulheres, independente de classe social, a realização do procedimento com segurança, acolhimento, de modo gratuito e sem risco de morrer. Isso significa que o Estado reconhece os direitos humanos e reprodutivos das mulheres e responde de modo democrático às reivindicações.

O Grupo Temático Gênero e Saúde da Abrasco apontou que a aprovação da lei é um passo muito importante não só para a Argentina, mas para toda a América Latina, que já conta com outros países onde o aborto voluntário é legal, como Uruguai, Cuba e Guiana. A nova lei reforça as anteriores e ajuda a reduzir o peso da América Latina como região que apresenta proporções importantes de abortos inseguros.

Ana Paula Reis, em nome do GT Gênero e Saúde ressaltou:”As feministas brasileiras veem com alegria o movimento argentino, esperando que ele avance e tenha efeitos positivos em todo o continente, fortalecendo a nossa luta no Brasil”.

Abrasco na imprensa: as mulheres na construção do SUS

Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes | Foto: Arquivo/ Senado Federal

Autora: Hara Flaeschen, com informações do Huffpost Brasil

Em 1987 a Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes exigia a criação de “um Sistema Único de Saúde constituído a partir de uma nova política nacional de saúde e implementado por serviços públicos de saúde coletiva e assistência médica integrados”. Para discutir a participação das mulheres no Movimento da Reforma Sanitária Brasileira e na fundação do SUS, o Huffpost Brasil ouviu Ana Costa, fundadora do GT Gênero e Saúde da Abrasco e figura histórica na luta pelos direitos reprodutivos e pela saúde das mulheres.

Ana Costa foi responsável pelo Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), criado durante o governo de João Batista Figueiredo, ainda na ditadura militar: “A demanda por saúde era muito forte no movimento de mulheres no Brasil. Os grandes grupos feministas tinham como centro questões associadas à saúde, à contracepção, planejamento familiar”, afirmou a pesquisadora em entrevista ao portal.

Costa contou que o PAISM foi uma “guinada” na ideia de que a saúde das mulheres é mais que gestar e parir:  ″Ainda não tinha um conceito de gênero bem desenvolvido, mas sob essa influência feminista, a gente vocaliza, por meio dessa política, uma forma de a saúde tratar a mulher para além da função reprodutiva”. A pesquisadora também falou sobre os direitos das mulheres no Brasil de hoje, e pontuou que “o movimento feminista e a defesa do serviço de saúde universal são indissociáveis”.

A matéria do Huffpost também citou Fernanda Lopes, do GT Racismo e Saúde da Abrasco, que ressaltou que os serviços de saúde reprodutiva são mais inadequados quando as usuárias são puérperas pretas e pardas. “A exposição sistêmica do racismo tem expressões em sua saúde física e mental, a depressão pós parto é uma delas”.

Leia a matéria Como o movimento de mulheres no Brasil contribuiu para construção do SUS na íntegra.

Ágora Abrasco discute trabalho em casa: “a pandemia não é democrática e nem igualitária”

Autora: Thereza Reis

O painel O trabalho mudou-se para a casa: consequências na saúde, indicadores para monitoramento das exposições e desfechos e perspectivas de intervenção da Ágora Abrasco aconteceu no dia 9 de julho e trouxe reflexões sobre os novos padrões, temporal e espacial, de trabalho. A atividade contou com as participações de Estela Aquino, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia e integrante do GT Gênero e Saúde da Abrasco; Tânia Araújo, coordenadora do Núcleo de Epidemiologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (NEPI/UEFS); e Elaine Marqueze, professora do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Católica de Santos (PPGSC-Unisantos). A coordenação foi de Ada Assunção, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (FM/UFMG). Com velhos ou novos padrões, o painel de vozes femininas revelou o que já era possível presumir: “a pandemia não é democrática e nem igualitária”, nas palavras de Estela Aquino.

A professora da UFBA pontuou que as questões relacionadas ao trabalho em casa não são novas, mas que atualmente estamos falando do trabalho profissional, produtivo, mas não podemos nos esquecer do “trabalho reprodutivo, feito quase que exclusivamente em casa e realizado majoritariamente por mulheres, cuidando da casa e da família, e não remunerado. E também do trabalho doméstico, com recorte de gênero, raça e classe no Brasil”, disse.

Sobre desigualdade de gênero, Estela Aquino, que participa da Rede CoVida: Ciência, Informação e Solidariedade, projeto de colaboração científica multidisciplinar focado na pandemia do novo coronavírus, afirmou que a questão da desigualdade é anterior à pandemia, mas que se agrava, ressaltando que mulheres são a maioria dos profissionais de saúde, expostos na linha de frente do enfrentamento à Covid-19, como as técnicas de enfermagem, por exemplo. Sobre produção científica, a pesquisadora afirmou que os vieses de gênero afetam a pesquisa. Mostrando dados de estudos, a pesquisadora disse que, com a aceleração da produção científica na pandemia, homens estão publicando mais que mulheres. A disparidade de gêneros no trabalho afeta não só as mulheres cientistas que desenvolvem atividade profissional em casa na pandemia, mas todas as mulheres, principalmente as jovens, com filhos pequenos, e que estão sem poder contar com rede de solidariedade, como avós, e com o trabalho doméstico. A pesquisadora mostrou, entretanto, que o problema não acomete só mulheres jovens, pois as mais velhas podem estar cuidando de pais idosos, por exemplo.

Tânia Araújo disse que “o trabalho foi obrigado a buscar novo endereço”, em casa, e fez considerações sobre teletrabalho, trabalho remoto e o termo em inglês home office. Em tempos de pandemia, no trabalho em casa, a condição é de intimidade desprotegida, pois “a casa se viu forçada a virar espaço público” e há a perda das fronteiras entre a vida pessoal e a vida profissional, com as pessoas tendo de lidar com a falta de estrutura e de convívio com os colegas. Nem todas as atividades permitem o trabalho remoto, contudo, há uma diferença expressiva de escolaridade entre os que conseguem trabalhar em casa. “Quanto maior a escolaridade, mais trabalho remoto”, afirmou a professora.

Sobre gênero, Tânia Araújo mostrou a alta sobrecarga doméstica entre as mulheres, situação anterior à pandemia e que tende a se agravar, e que “a Covid-19 expõe como o funcionamento do mercado de trabalho se articula exigindo mais trabalho das mulheres que dos homens”, pontuou, perguntando: “Será o trabalho remoto mais um marcador de exclusão do mercado de trabalho?”.

As professoras demonstraram preocupação com a saúde mental em tempos da Covid-19. Para Estela Aquino, a pandemia gera impactos sobre a saúde física e mental, com o aumento de quadros de ansiedade e depressão. Tânia Araújo explicou que estamos em um momento de adoecimento psíquico bastante expressiva, com alta prevalência entre mulheres. “Temos que tentar ser otimistas, para manter a vida e a saúde mental”, ressaltou.

Elaine Marqueze falou sobre os distúrbios do sono, problemas também anteriores, mas que tendem a se agravar durante a pandemia. Os horários diferentes, a menor exposição à luz natural e as irregularidades dos ciclos vigília-sono e claro-escuro causam efeitos à nossa saúde. “As mudanças nos horários de trabalho, escola e refeições, por exemplo, são sinalizadores externos para nossos ‘relógios’ internos, e temos perdido esses horários durante a pandemia”, assinalou.

A professora fez recomendações para evitar distúrbios do sono, não só em tempos de pandemia. “A cama e o quarto são para dormir e não para fazer refeições, usar aparelhos eletrônicos e fumar, por exemplo. Deve-se evitar bebidas alcoólicas ou à base de cafeína e notícias desagradáveis, sempre tentando manter a regularidade dos horários”, explicou.

De acordo com Elaine Marqueze, estudos mostram que as pessoas que estão trabalhando em casa até estão conseguindo dormir mais, mas que o sono não tem qualidade. A professora apontou ainda que, em tempos de pandemia, a insônia é mais prevalente em mulheres mais jovens.

Depois das apresentações, as painelistas responderam aos questionamentos dos participantes, entre eles Anaclaudia Fassa, professora da UFPel e diretora da Abrasco, e Gulnar Azevedo e Silva, professora da UERJ e presidente da entidade. Gulnar Azevedo parabenizou as mulheres da Saúde Coletiva, as que compuseram o painel e as que trabalharam nos bastidores para que ele acontecesse. “Os tempos estão muito difíceis para a gente ser pessimista, a situação é muito grave, e já estava muito grave”, disse. “Nossa preocupação é com quem não tem oportunidades, quem não tem proteção social. Precisamos fazer uma comunicação que chegue a essas pessoas, a essas mulheres. Nosso trabalho é pensando nelas, obrigada pela força”, concluiu a presidente da Abrasco.